Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco

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(8)
De Camilo Castelo Branco
Com a devida vénia
O FILHO NATURAL

Se os padres escrevessem romances contra os novelistas, quantas obras de execução prima e de primeira verdade nos não dariam! Faça-se o clero romancista, e descreva os padres levados à desmoralização pelo exemplo das altas capacidades seculares que os argúem de ignorância. Quando vierem a medir-se nesse torneio de armas iguais, então saberemos quantos devassos verosímeis e não tonsurados correspondem a um PADRE AMARO que prende o filho a uma pedra e o afoga com suas mãos. Enquanto porém, o romance urdir crimes descomunais, sendo tantíssimos os vulgares, não se receia que a literatura amena faça grandes males.
 
*
 
Tomásia fechou a farmácia, enquanto o abade contratava no Porto quem a dirigisse. O boticário que veio não tinha mais habilitações que o comum dos praticantes analfabetos. A farmácia administrada por Dionísio era nova, fornecera-se de remédios franceses, tinha fundas de camurça, seringas de bomba, e frascos variegados na vitrine de pau-óleo. Os facultativos recomendavam-na. À botica de Agilde restavam só os fregueses da mostarda, das malvas e da flor de sabugueiro.
O praticante era imberbe e lorpa; e, como tinha tempo, fazia gaiolas para grilos, e também fazia ratoeiras, por não saber fazer colheres. A receita não dava para o ordenado do caixeiro.
Aconselhou o abade à comadre que trespassasse a botica, alugasse a casa, e fosse para Pedraça. Anunciou-se o negócio nas gazetas do Porto. Dionísio dava gargalhadas na farmácia da Ponte de Pé, quando leu o anúncio, e disse que não queria a botica pelo carreto, asseverando que as drogas eram anteriores à invasão dos franceses. Não mentiria muito.
O abade já sabia que o caluniavam, e difamavam a pobre mulher à conta dele. Queria socorrê-la, mas com delicadeza e cautela. Não sabia, porém, como tirar-se desta dificuldade.
Um dia, Tomásia resolveu-se: foi à Vila do Arco, onde tinha um parente. Alugou uma casinha, e anunciou-se mestra de meninas. Quando o compadre o soube, já ela estava instalada, e exercia o professorado com seis educandas. O abade, com os olhos húmidos de lágrimas, disse-lhe que ela era uma alma rara, e que tinha virtudes tamanhas que até a sua fragilidade parecia um acto meritório, porque da queda procediam tão nobres procedimentos. O que ele fez, melhorando-lhe a vida, foi conseguir-lhe a nomeação de mestra-régia.
Tinha muitas prendas de bastidor a filha de Macário, escrevia bem e ortograficamente, aprendera história nos compêndios de Vasco e nos romances. Deu-se zelosamente ao magistério, e chegou a tocar o sumo bem de uma vida conformada e serena. As famílias do Arco estimavam-na, recebiam-na e presenteavam-na liberalmente. A mancha estava delida. Álvaro, o pequenino anjo, parecia pedir indulgência para a mãe. A calúnia de Dionísio sumiu-se na obscuridade das grandes infâmias. A miúdo, o abade e a irmã visitavam a comadre, e a levavam consigo nas férias para Pedraça.
 *
 Neste tempo, Vasco Pereira Marramaque visitou com a esposa as quintas do Minho. Traziam consigo a primeira filha de poucos meses. O fidalgo soube em Agilde que Tomásia fechara a botica; e, obrigada pela necessidade, abrira escola no Arco. Teve pena, e más recordações. Lembrou-se da inocente alegria daquela rapariga; do bom Macário Afonso, que o recebia em sua casa e consentia que a filha lhe desse as mais raras flores; da docilidade e abnegação com que ela o amara; do júbilo com que lhe falava do filho; a morte do velho longe da filha e do seu leito, desterrado voluntariamente; o desinteresse da mulher sem reputação nem bens da fortuna; enfim, estas imaginações ali, naquela casa, onde Tomásia estivera, não lhe seriam muito aflitivas, mas eram incómodas. E, conquanto estivessem cortadas as relações com o abade, não se dedignou de lhe escrever, pedindo-lhe que convencesse Tomásia a receber uma me¬sada bastante à sua independência. E, feito isto, ficou contente consigo, como quem diz: «Sempre sou um Marramaque! Dou-lhe alguns pintos que me não fazem falta, e honro o meu nome». O ser fidalgo tem isto de bom: quando a consciência não obriga, obriga o apelido. Pior é quando não há apelido nem consciência.
O abade respondeu com três palavras: Tomásia está independente.
Casualmente encontrou Vasco o primo Abreu de S. Gens. Falou-se de mulheres conquistadas na mocidade de ambos.
– E a boticária? – perguntou o bacharel de Refojos. – Já sabes que está abadessa?
– Abadessa!
– Sim; passou da botica para a igreja, mas em melhores condições que muitas que vão da botica para a cova.
– Não te entendo – volveu o de Agilde.
– Monsieur, ce n’est pas ma faute, dizia o Boileau a quem o não percebia. Então não sabes que a Tomásia é mestra de meninas, e é menina do abade de Pedraça?
– Isso é calúnia! – acudiu Vasco.
– Olha o vaidoso!... Repugna-te querer que na herança de uma mulher educada pelo teu amor gentilíssimo sucedesse o velho frade de Tibães!... Pergunta por essa história ao boticário da Ponte de Pé...
E contou-lhe o que sabia, convencendo-o. Vasco riu-se muito, daquele rir que está todo no maquinismo dos queixos e da laringe. Lá por dentro, mordia-o o despeito de ver que um homem de cãs e barriga proeminente vingara estancar os prantos de Tomásia que não podia consolar-se do apartamento de Vasco.
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– Fortes asnos somos nós, afinal! – dizia ele ao primo Abreu. – A gente a cuidar que tem grande responsabilidade porque faz voar estas andorinhas dum telhado para o outro!...
– Ainda aí estás!... Eu é que me considero sempre o seduzido e me lastimo sinceramente porque ando a fazer saltar da cama as lebres que os outros abocam.
E, discorrendo largamente neste estilo metaforicamente venatório, concluíram que Tomásia, em remate de cantiga, era a filha do boticário pur sang.
*
 A mestra-régia ensinava o filho; e, à custa do esforço que faz prodígios, aprendeu quanto ignorava e Álvaro devia saber. Quanto à carreira do educando, estava destinada. O padrinho deliberou enviá-lo a um afilhado que tinha rico no Brasil.
– Foi um enjeitado – contou o abade – que aqui me trouxe a Maria Moisés para eu baptizar. Com aquela lábia que ela tem, foi-mo metendo em casa, e cá ficou o rapazinho. Foi à escola, tinha muita habilidade, e queria ser doutor o meu enjeitado. As minhas posses não davam para tanto. Mandei-o para o Rio. O rapaz saiu tão honrado, que parecia querer começar em si briosamente a sua geração, visto que não tinha antepassados. O patrão deu-lhe a filha e grande dote. Infelizmente morreu-lhe a esposa e um filho. Está rico, mas vive triste. Queria que eu fosse para o Rio, e eu quero que ele venha para a minha companhia. A isto responde que tem medo à ociosidade; que precisa trabalhar e fatigar-se para dormir e esquecer-se. O meu Álvaro irá para o outro que também é Álvaro; eu direi a ambos que se amem como irmãos.
Tomásia escutava-o lagrimosa; mas não contrariava o alvitre do abade. Álvaro era pobre. A casa de Agilde nem inquilino tinha. A botica era um foco de cheiros maus e aziumados a vaporarem dos velhos frascos de louça amarela desvidrada. Nos gavetões medicavam-se impunemente os ratos roendo as ervas e olhando com o maior cinismo para o frasco do arsénico. O arcanjo S. Miguel, com as cores perdidas, envolvia-se em filigranas da teia de uma aranha de barriga preta, que prendia uma das orlas da telilha nas pontas do diabo, e a outra no capacete do anjo. Nos pratos da balança haviam-se passado fenómenos execráveis. As aranhas fêmeas, depois de acariciadas, comiam ali os maridos, consoante o seu mau costume: viam-se nas conchas de latão os restos mortais dos aranhões. A botica esquecera, excepto aos garotos que enfiavam calhaus por uma fresta, e regalavam-se de ouvir lá dentro o tinir das pedras no bojo das garrafas.
Portanto, o filho de Vasco Pereira Marramaque era um menino pobríssimo, que o amor maternal não devia esquivar ao trabalho e ao destino que o padrinho lhe talhara. Aos doze anos, o pequeno abraçava-se na mãe, e pedia-lhe que não o deixasse ir para o Brasil. Dizia ele que ia morrer, porque era muito fraco. Na verda¬de, aquela criança bebera no leite da mãe as lágrimas que ela represara. Crescera tolhiço, magrinho e pálido, como os filhos das casas opulentas e velhas raças. Fatigavam-no os estudos, tinha escuridões súbitas de entendimento, e caía em sonolentas abstracções. Dizia então a mãe ao compadre:
– Este menino vai morrer.
O abade não fazia cabedal destas profecias, mas profetizava também:
– Álvaro, dentro em poucos anos, virá rico para a pátria.
– Rico! Para quê?... Trouxesse ele o bastante para a sua subsistência... Com tão pouco se vive! E se lhe déssemos um ofício?
– Sapateiro? É natural que fosse o primeiro na geração dos Marramaques, posto que dizia meu avô que conhecera a trisavó deste senhor de Agilde palmilhando chinelas em Lanhoso. Ainda assim não se renove a vergôntea dos sapateiros neste ilustríssimo tronco. Bem bastam os que hão-de vir quando os vínculos forem abolidos...
O abade de Pedraça, sobre ser genealógico de farpada língua, era discursivo em cousas sociais quando a comadre se mostrava complacente em ouvi-lo; mas, neste caso, a sua manha era distraí-la das lástimas, e ir contemporizando com o amor de mãe.
Escrevera ele ao afilhado do Rio prevenindo-o de que estava educando um outro Álvaro para lho entregar, e contava-lhe sentimentalmente a história desta criança sem pai. O brasileiro não respondeu; veio pessoalmente buscar o seu prometido filho. «Sê tu pai dele» – dissera-lhe o padrinho.
Tomásia ganhou ânimo quando viu o protector do seu Álvaro. Era um homem de vinte e seis anos, com o rosto carregado das sombras de uma tristeza maviosa, dulcificando as palavras amargas com o sorriso da resignação.
– Sou muito doente – dizia ele – mas, se eu morrer, seu filho, minha senhora, voltará para sua mãe com bastantes recursos. Pode confiar-mo; amá-lo-emos todos três. Imagine que eu, ma¬goado com a abnegação de meu padrinho – que nunca me permitiu dar-lhe meio por mil dos meu haveres – quero vingar-me em beneficiar este seu afilhado. Eu tenho no coração muito amor sem destino. Não amei pai nem mãe. Tive esposa e filho. Todo o amor que lhes consagrei está para ser dado a um ente que não seja esposa ou filho, porque essa felicidade não se repete.
 *
 Álvaro Afonso da Granja saiu do Arco para o Rio de Janeiro em 1863. Ia nos doze anos.
O brasileiro tinha propensões desacostumadas nos homens grávidos e pesados de dinheiro. Procurava atar os elos da realidade às comoções da vida idealizada nas novelas. Em Lisboa, quis ir ao parlamento para ver o recentíssimo visconde de Agilde, o pai do seu pupilo. Entrou na galeria do povo com o menino. Perguntou a um vizinho:
– Faz favor de me dizer qual destes deputados é o visconde de Agilde?
– É aquela besta que acolá está falando com outra besta...
E citou o nome da outra, que eu delicadamente não repito, se bem que não receio que ela me leia.
Álvaro não tinha de memória a classificação zoológica daquelas espécies parlamentares. Veio, porém, a saber que o visconde de Agilde era um sujeito de bigode encerado, luneta de um vidro, calvo, de feições duras, trigueiras e descarnadas.
– Ele pediu a palavra – notou o informador, e continuou: – Quanto quer o senhor apostar que o visconde diz três asneiras em duas palavras?
– Não aposto, porque já ouvi dizer quatro – respondeu Álvaro.
– Então o senhor, por mais que me digam, é do Porto, e conversa com os janotas do Suíço? Espere, lá vai o javardo grunhir.
O visconde, desta feita, deixou desairado o crítico, que era da oposição. Ora este critico era aquele poeta de Basto que projectava romancear o abade, e conseguira ser correspondente político de um jornal portuense.
O visconde pedia estradas no Minho. Disse com sofrível pronúncia inglesa que Braga era um dos nossos rotten-boroughs (burgos-podres) dos quais o governo não fazia caso. Disse que Basto estava encravado entre serras intransitáveis. Perguntou ao presidente se estávamos na idade média.
– Vê o asneirão? – observou o de Refojos. – Pergunta se es¬tamos na idade média.
– Deixe ouvir, se faz favor.
O orador observou que nas trevas da idade média o rico-homem dispensava estradas, porque vivia circunscrito no seu solar torreado, sem fazer parte do sistema arterioso da nação.
– Que burro! – observou o correspondente do Nacional, tomando notas. – Que dois burros é aquele homem!
O discurso acabou de repente, quando começava a ter graça. O orador, perorando, repetiu que o Minho sem estradas era o melhor membro da nação, mas gangrenado, pútrido, paraplégico.
– Onde mora o visconde, sabe dizer-me? – perguntou Álvaro.
– Em Andaluz, no palácio do conde de Cabril. O senhor é pretendente?
– Nada. Sou brasileiro.
– Ah! Quis-mo parecer no sotaque. Provavelmente é do Minho, e quer comprar ao visconde algumas das quintas que lhe restam... Se é isso, vá, que eu sei que ele perdeu em casa do marquês de Nisa 500 libras a noite passada... Está ali está sem nada. Teve oito contos de renda há dez anos; hoje não tem três e tem seis filhos.
No dia seguinte, os dois Álvaros passeavam no largo de Andaluz; e, quando viram sair de uma cocheira o coupé que entrou no vasto pórtico do conde de Cabril, avizinharam-se do pátio.
O filho de Tomásia era de todo estranho às excentricidades do seu amigo, quando este lhe disse:
– Vais ver teu pai...
– O sr. Vasco de Agilde? – perguntou o menino.
– Sim, o visconde...
– Ele não é visconde – emendou Álvaro.
– É visconde desde antes de ontem.
Entraram, quando o deputado reeleito descia a escada com um pretendente de cada lado e dois no couce. Ele vinha coberto, com o paletó alvadio no braço, e um charuto apertado entre os quatro dentes incisivos. Parecia vesgo por causa da luneta pênsil de um só vidro sem aro que o obrigava a convergir estrabicamente o olho esquerdo. Resmoneava uns monossílabos, e dava aos ombros, escutando com fastio um dos importunos.
Quando viu o desconhecido ao lado da carruagem, perguntou, gesticulando de modo que os pretendentes saíram:
– Que pretende o senhor?
– Cumprimentar V. Ex.a pela energia do discurso que ontem tive a fortuna de escutar, pois que, tendo eu sido criado em Basto, muito me congratulo com os meus conterrâneos tão distintamente representados.
– Obrigado... Faço o meu dever – respondeu o visconde com agraciado aspeito.
– E ao mesmo tempo, Ex.mo Senhor, na minha passagem para o Rio de Janeiro,

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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