Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-06-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 15)
- Lembro, mais ou menos, e tu?
- Vamos lá a ver se acerto: “tiri” é a letra “i”; “tira” é a letra “a”; “tari” é a letra “n”. Que tal… Estás de acordo?
- Perfeito, concordo plenamente. Olha que eu também ainda as tenho cá todas no ouvido. Penso que, se formos seleccionados para radiotelegrafistas, não iremos ter grandes dificuldades.
Passavam alguns minutos das dez da noite. Já se tinha ouvido o toque de silêncio que o corneteiro dia tinha “disparado” às dez em ponto. A algazarra da caserna já se encontrava reduzida a um mínimo. O Silvestre disse:
- Vamos ver se dormimos um pouco, que eu estou na verdade estafado. Até amanhã.
- Até amanhã – respondeu o Zé.

***

As provas de marcha militar de mais longo curso, que eram sempre realizadas a nível de companhia e sob o comando do Capitão Granjo de Matos, decorriam, por norma, no troço que coincidia com o percurso do circuito automobilístico da cidade. Por via disso, a rapaziada já se tinha apercebido dos preparativos para as corridas, que iriam ter lugar por um daqueles fins-de-semana de meados de Junho.
Efectivamente, assim seria, as corridas de Vila Real realizaram-se nos dias onze, doze e treze de Junho. Prolongaram-se até ao dia treze, uma segunda-feira, por este ser o dia do patrono da cidade, Santo António e, por isso mesmo, feriado municipal. Também não havia instrução militar nesse dia, e a tropa teve fim-de-semana prolongado, razão pela qual mais recrutas do que seria normal foram às suas terras de origem.
Enquanto que o Juvenal aproveitou o fim-de-semana prolongado para ir a Lisboa ver a namorada que lá deixara, e o Pinto tinha ido a Amarante que ficava relativamente perto e tinha ligações de camionetas, da Empresa de Camionagem Cabanelas, com alguma facilidade, os outros dois, o Silvestre e o José Couceiro, ficaram no quartel.
Depois do rancho do meio-dia de domingo, e quando ambos se encontravam estendidos, cada um em cima da sua cama, o Silvestre disse para o Zé:
- Vamos ver as corridas?
- Vamos – respondeu o Zé.
Saíram do quartel e voltaram à esquerda, no sentido inverso aquele onde se encontravam as bancadas, tentaram encontrar um lugar estratégico para ver o melhor possível o espectáculo sem terem de pagar. Subiram um pouco a estrada, que estava vedada a qualquer tipo de veículo. Colocaram-se próximo do terminos, até onde vinham as carreiras da Empresa Cabanelas, largando ali os passageiros e invertendo a marcha por estradas secundárias.
Cruzaram-se com duas moças que tinham acabado de sair da camioneta. Não se pode dizer que fossem bonitas, ou que fossem feias, eram uma coisa, pela certa. Para eles eram duas boasonas. O Silvestre, que já tinha contado ao Zé um bom par de histórias, sobre engates de sopeiras na cidade do Porto, encarregou-se do trabalho de iniciar o diálogo e convencê-las a aceitar a companhia de ambos, ali num ponto de boa visibilidade, voltados para uma curva onde os carros entravam de lado e em derrapagem, à sombra de uma frondosa oliveira. As pessoas que se encontravam mais próximas estavam aí a uma distância de cerca de vinte metros. O início da abordagem, levada a cabo pelo Silvestre, foi sobre os nomes e a localidade de onde vinham. Uma chama-se Rosalina, a outra chama-se Matilde, e vinham de Sabrosa, para verem as corridas.
Sentaram-se um de cada lado e as duas no meio. A Rosalina junto ao Zé, que estava do lado esquerdo, e a Matilde junto ao Silvestre, que estava do lado direito. No início tudo bem, tudo normal, o Zé não estava a dar por nada e mantinha-se muito discreto, embora tentando por a mão sobre o joelho da Rosalina, que ela procurava cobrir puxando a saia para diante. A certo momento a Matilde puxa a cabeça da Rosalina para si e segreda-lhe qualquer coisa ao ouvido.
Não demorou dois minutos e a Rosalina mete a mão no bolso das calças do Zé do seu lado direito. Para que pudesse continuar voltada para a frente, a mão que meteu no bolso das calças do Zé foi a mão esquerda. Em boa verdade ele estava com alguma excitação, mas tentou manter-se inalterado. Porém, ela não resistiu a romper-lhe, completamente, o forro do bolso com as pontas dos dedos da mão esquerda.
Chegaram depressa as seis horas. A Rosalina e a Matilde tiveram que tomar a última camioneta para Sabrosa, que parava ali mesmo ao lado, e os dois tiveram que regressar ao quartel, para o rancho, que era, impreterivelmente, às seis e meia da tarde.
Antes de os quatro reciprocamente se despedirem, o Zé Couceiro, num rasgo de que ele próprio mais tarde viria a admirar-se, disse:
- Como já sabem, nós os dois estamos a terminar a recruta, aqui em Vila Real, dentro de duas semanas iremos para um outro quartel, tirar a especialidade, e daqui a dois ou três meses podemos estar já a embarcar, quem sabe, para Angola, para Moçambique, ou para a Guiné… Não querem deixar-nos as vossas direcções para, quando chegarmos ao ultramar, vos escrevermos e ficarem a ser nossas madrinhas de guerra?
- E então, porque não? – Responderam as duas ao mesmo tempo.
- Muito bem – disse o Zé – então a Rosalina vai fazer o favor de me dar o seu nome completo e a direcção, enquanto que a Matilde faz ao mesmo, aqui ao meu amigo e camarada, António Silvestre.
Cada um pegou na sua esferográfica, do bolso do blusão, num pedacito de papel que traziam na carteira e, conforme ambas ditaram, assim eles tomaram nota.
A Matilde ditou para o António Silvestre:
Maria Matilde Ferraz de Almeida
Rua da Enxertada
Sabrosa.
Enquanto que a Rosalina ditou para o José Couceiro:
Maria Rosalina de Almeida Ribeiro
Rua do Pousado
Sabrosa.
Por seu turno, os dois militares fizeram questão de deixar, a cada uma delas, os seus nomes completos, escritos pelos próprios punhos, num pedacinho de papel, que dobraram em quatro e colocaram nas suas mãos com um aperto envolto em muita ternura. O silvestre, mais vivido, ensaiou um beijo na face da Matilde, que esta, muito discretamente, repeliu. O Zé não se aventurou a tanto.
(continua)

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