Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-06-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Narcisa, Uma Mulher Fatal (I)

Camilo teve na sua vida algumas mulheres fatais. Talvez a única que não o tivesse sido foi aquela que ele recebeu legitimamente na Igreja do Salvador de Ribeira de Pena em 18 de Agosto de 1841, ou seja, Joaquina Pereira de França, filha do merceeiro de Friume, pequeno lugarejo nas margens do Tâmega, fronteiro aos montes de Gondiães. Mas ele tinha somente 16 anos e ela ainda não chegara aos quinze. Deixou-a dois anos passados com uma filhinha nos braços e pouco tempo depois ambas estavam sepultadas. Camilo andava pela cidade do Porto, frequentando os botequins da época, o Teatro S. João, as tascas da Ponte de Milheirós. Em 1870 Camilo publica o romance “A Mulher Fatal”, história doa amores e desamores de Carlos Pereira, nascido no Brasil, trazido para o Porto na mais tenra meninice, órfão de pai e mãe aos nove anos, educado no Colégio da Formiga que, ao atingir a maioridade, tinha um património de vinte contos. Não é um grande património mas não é para desprezar e o seu rendimento proporciona uma vida sem necessidade urgente de trabalhar a este “gentil moço” em que avulta um “nariz (..) grego mais relevante pela magreza das faces, e pequenez do buço que principiava então a pungir. […] Coração era dos melhores que Deus bafejou – doce como a piedade, mavioso como a tristeza das almas virgens.” As mulheres do livro vão ser sucessivamente Laura de Carvalhais, Virgínia Picaluga, Estela, com quem se casa, Filomena, com quem também se casa e abandona, e, finalmente, Cassilda, “mulher formosíssima, mas de vida airada” de quem o autor vai dizer: “No trajecto de oito anos, ser-me-ia trabalhoso indagar os trens e amantes”. É nos braços desta que Carlos Pereira vai morrer, aos 33 anos, vitimado pela tuberculose, doença dos românticos da época.
Toda a história de “A Mulher Fatal” tem a companhia do Narrador, estranha “personagem que acompanha incansávelmente o desenrolar das sucessivas intrigas (…), que conhece toda a gente e os seus segredos, que está sempre presente nos lanços pícaros ou dramáticos para aconselhar, admoestar e moralizar: (Dic. C.C. Branco, p.431) E este Narrador é a peça fundamental para nos desvendar a história de Virgínia Picaluga, cujo nome verdadeiro é “Narcisa” , de alcunha “Vaca-Loira”, que herdara de sua mãe, uma recoveira de Cavez.
A história começa quando Carlos, magoado pela traição de Laura Carvalhais, deixara a cidade do Porto e tomara o rumo do Alto Minho, onde o Narrador o encontra meses depois, “alegre, nutrido e robusto”. É nessa região, no solar dos Picalugas, que Carlos vai encontrar uma “misteriosa fidalga […] da quinta dos Açudes”, que “ninguém sabia de onde viera. […] dama de vinte e seis anos e beleza sólida. […] É só, solteira e rica”. Mas há qualquer coisa naquela mulher que confunde os amigos de Carlos. Um deles confidencia ao Narrador: “Não sei que instinto me diz que a mulher amada por Carlos esconde mistérios indissimuláveis a um marido”. Mas nenhum deles ousa abrir os olhos a Carlos.
Carlos somente sabia que Virgínia tinha como feitor um padre, “alguns criados de lavoura, criados de sala e cozinha, um liteireiro e mais ninguém”. Sem grande custo, Carlos consegue insinuar-se junto de Virgínia e resolvem casar. Para isso, “Carlos obteria licença do prelado do Porto ou do bracarense para que um vigário qualquer celebrasse entre eles o sacramento. Virgínia sairia de sua casa em ocasião que o padre andasse fora, com tardança de três dias. O ensejo apropositava-se, porque o administrador dos vastos domínios ia a Trás-os-Montes instaurar processos contra uns foreiros. Quando saísse, a noiva levaria consigo os títulos da casa, ou os esconderia da rapacidade do capelão. Casados, permaneceriam algum tempo no estrangeiro, onde D. Virgínia muito desejava ir, revelando ao noivo, nesse acto, que possuía algumas centenas de peças encontradas nos contadores de seu pai”.
Carlos pede ao Narrador que lhe “solicitasse as relações necessárias” para que
pudesse ter acesso ao bispo do Porto para rogar a licença prelatícia de casamento. O Narrador, de pé atrás, dadas as insinuações misteriosas que o amigo de que já falamos lhe confidenciara, resolve fazer algumas perguntas a Carlos sobre a noiva. Carlos conta-lhe que Virgínia lhe confessara não saber ler nem escrever e “que seu pai, por motivos muito sagrados, a mandara entregar a uma ama muitas léguas distante, com quem viveu até à idade dos vinte anos, ignorando de quem era filha, criada como as filhas da sua ama, sem educação de natureza alguma”. […] – “Era uma aldeã com a inocência e ignorância própria do seu viver”. O Narrador retorquiu: “-As aldeãs vivem ignorantes, concordo; mas inocentes nem sempre. Que me dizes tu a esse administrador da fidalga?” O interrogatório continua. Carlos revela que o administrador das propriedades de Virgínia é o Padre Joaquim das Neves. Ao ouvir este nome, o Narrador estremece: “-O padre…quê? – interrompeu com embasbacado assombro. – “Torna a dizer…o Padre?”.
Carlos repete o nome do Padre, revela que tem trinta e quatro anos, que é um homem muito corpulento, cor amulatada e…muito valente. O Narrador fica embasbacado e Carlos pergunta inocentemente: “- Porque me fizeste essas perguntas? – […] – Conheceste Virgínia?”. A resposta sai pesarosa: “ - Conheci uma mulher que não se chamava Virgínia. Vai às Açudes e pergunta-lhe se, antes de ser Virgínia, não foi Narcisa”. Carlos nega-se a ir fazer essa pergunta a Virgínia. Então, o Narrador declara: “- […] Vou contar a história de Virgínia!”

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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