Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-06-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (7)

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O FILHO NATURAL

De Camilo Castelo Branco
Com a devida vénia

Sabia a preceito a sua arte, e estava inventando pastilhas para moléstias incuráveis quando foi despedido do hospital de S. Marcos por ter desencaminhado a filha da enfermeira, uma rapariga de bons costumes, como são todas as raparigas antes de terem maus costumes. Foi ser ajudante de botica no Porto, em casa do Januário da rua Chã, que o despediu porque ele lhe seduzia epistolarmente uma sua comadre e comensal. Passou para casa do Eusébio da rua de Cedofeita, donde saiu por motivos igualmente eróticos. Era um frágil; mas o seu vício não procedia do despotismo do temperamento, nem da materialidade irreligiosa. Era, pelo contrário, muito espiritualista, constelava no azul as mulheres todas, e conversava-as lícita e misteriosamente com a lua cheia por medianeira. Construía uns ideais ratões, e tinha nas alamedas da Lapa e Fontainhas, por noite morta, umas aparições alvas como a Dama Branca de Walter Scott. Até certa altura, este boticário, posto que não fosse bonito, era um anjo; mas de certo ponto para diante degenerava para homem trivial. Parece que as mulheres dos seus amores – quase todas formadas nas indelicadezas da cozinha – faziam-lhe às asas de anjo o que faziam às asas dos patos; e ele aí ficava o homem de Platão, «um animal implume que ri».
Quanto a rir, nem sempre. Passou por desgostos sérios. As mulheres amadas e os credores perseguiam-no. As farmácias fechavam-se-lhe, cortando-lhe a carreira da ciência e o êxito de várias pílulas inventadas. A mão gélida da pobreza amarrara-o ao caldo negro de Esparta, que chamam verde no Minho, em casa de seu pai, pequeno lavrador de Vilar de Frades. Aí mesmo, era sensível às noites perfumadas e serenas, ao murmúrio dos ribeiros, e a todas as provocações da rica natureza de maio. Aquele amor panteísta envolvia toda a criatura de merinaque de molas de aço, ou de saia de estopa com barra escarlate. As moças da sua terra consultavam-lhe a ciência médica; e ele, compondo-lhes o estômago, desarranjava-lhes o coração. Estas felicidades pagam-se caras. Chegou a levar pancada. O sr. Guerra Junqueiro deu cabo do último D. João com um poema; porém os lavradores de Vilar de Frades principiaram a obra com estadulho na pessoa de Dionísio José Braga. Sistema muito pior para os Dom Joões.
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Nesta conjuntura, propiciou-lhe a sorte a botica de Macário Afonso. Foi de ânimo feito a estrangular o ideal que lhe infernara a existência, enforcando-o na costela que levava fracturada.
Dois anos e meio de exemplar comportamento asseveravam uma reforma radical. O arcanjo S. Miguel da balança não era mais sério que ele com as freguesas. Dir-se-ia que Dionísio pisava no almofariz o grão da mostarda e as próprias febras do coração. Nem uma chalaça, nem um beliscão em polpa de mulher! Sentava-se na testada da botica em um mocho, lendo e anotando a lápis a Farmacopeia geral do dr. Agostinho Albano. Se alguma moça o saudava passando, ele respondia sem erguer os olhos do livro, co¬mo se fosse o beato Pacómio a meditar os santos evangelhos. E nem por isso granjeara grandes simpatias no sexo feminino: é porque tinha ares de neutro.
– É um trombelas! – dizia a Rosa do Cruzeiro.
– Não olha direito para a gente, o casmurro! – invectivava a Josefa da Fonte.
– Aqui há tempos, a Maria do Moleiro quis-lhe mostrar uma nascida que tinha num joelho, e vai ele disse-lhe: «Menina, vá ao cirurgião; que eu avio remédios e não vejo pernas».
– Credo! O homem é tolo! Olha a santantoninho, que lhe não fosse dar volta o estômago! – acudiu a Rosa, cruzando os braços e balançando os seios sobre o largo decote do colete amarelo. E escarneciam-no com palavras desonestas e casquinadas de riso com lardo de equívocos torpes.
É como é o mundo, em cima e em baixo.
Vá de história. Havia em Roma dois santuários consagrados ao Pudor. Em um dava-se culto ao «pudor das senhoras» (pudicitia patricia); no outro ao «pudor do mulherio» (pudicitia plebea). Não sei qual dos dois pudores era menos envergonhado. Hoje é difícil estremar duas cousas que não existem; porquanto ponho os óculos, tomo rapé, e leio em Ovídio, e na Teogonia de Hesíodo, que a Pudicícia, assim que viu lavrar o cancro da corrupção no seio do género humano, fugiu para o céu com sua irmã a Justiça. Que fosse para o céu, duvido; não me parece que seja lá necessária; mas em Celorico de Basto é que ela realmente não estava, quando aquelas raparigas, a meia voz, e com estridentes gargalhadas, comentavam o pudor do boticário, respectivamente ao joelho da Maria do Moleiro.
 
*
 
Oito dias estivera Tomásia em sua casa sem que Dionísio a visse. Mandou-o chamar à saleta, e agradeceu-lhe a probidade e zelo com que administrara os seus interesses. Pediu-lhe que a desculpasse de tão tarde cumprir aquele dever, e a não julgasse grosseira.
Respondeu ele com a voz trémula que muito se honrava em ter correspondido à confiança que em si depositara o finado sr. Macário; que sentia infinitamente os seus dissabores... que sentia infinitamente os seus dissabores...
E engasgou-se.
Tomásia tinha-o encarado fita e penetrante como um tiro. A vaidade picou-se-lhe daquele ar de atrevida compaixão. O aspecto de Dionísio tinha uns tons de ternura equivoca, nos olhos principalmente, onde se transverberava a doçura de uma alma apaixona¬da. Esta expressão escandalizara Tomásia, por duas causas: primeira, ser lastimada, quando se reputava heroína na queda e no desprezo de indemnizações; segunda, ser olhada daquele feitio por um caixeiro de botica – ela que embalava nos braços um filho de Vasco de Marramaque, e cerrava ao coração o perpétuo luto do único homem que vingaria perdê-la! Por isso, o sensitivo amador das famílias dos Januários e Eusébios ficou entalado quando Tomásia, levantando o rosto, avincou a testa, e lhe arremessou de flecha os olhos rutilantes.
Aquela mulher era então mais linda que no tempo em que as graças lustram mais no pudor que na plástica. Dois anos antes, inspiraria Lamartine; dois anos depois teria o seu lugar de honra ou de desonra entre as mulheres refeitas e perfeitas dos poemas de Alfred de Musset. O boticário estava na compreensão das boas coisas, e não era hóspede na matéria sujeita. Cinco anos de pousio deram-lhe ao coração rebentos luxuriantes. O molosso da natureza sacudiu a mordaça, e deu aqueles grandes latidos interiores que se chamam a paixão.
Tomásia evitava-o desde a primeira e curta conversação em que ele, aturdido pela arrogância daquele olhar, se retirara tartamudeando algumas palavras insignificantes; Dionísio José Braga, porém, ia ofendido no sentimento generoso e virgem que lhe entrara no peito à primeira vez que a vira. Pensara em casar-se com ela, assentar de vez, e arranjar-se, dizia ele no lirismo das suas meditações. Porquanto ela possuía a botica bem afreguesada, posto que as drogas fossem revelhas e substitutas das que não havia; possuía a casa e o quintal, casa envidraçada, e quintal curioso com pomar, parreiral, hortas, mirante com trepadeiras de maracujá, bancos de cortiça em uma gruta de madressilva à maneira de cubata. As arcas estavam cheias de bragal, peças de linho e meadas antigas, tudo anterior à invasão dos romances naquele recinto de ignorância e bom senso. Estas concomitâncias cooperavam talvez no propósito honesto do farmacêutico; mas, descascada a ideia, lá está dentro a cândida pevide como semente das acções nobres, – a bonita ideia de casar-se e reabilitar aquela menina.
O seu amor medrou nas surdas raivas como as belas flores nos resíduos imundos. Tomásia, todavia, não o estremava do jornaleiro que granjeava o quintal. No fim do mês, mandava-lhe entregar o seu ordenado, e examinava a escrituração singela das linhaças, dos citratos e das mostardas.
Dionísio denotava profundas alterações orgânicas na parcimónia dos alimentos. O seu jantar volvia quase intacto. Dizia a criada à ama que o praticante estava escanifrado como um étego e não comia tanto como isto; e, dizendo, mostrava a unha gretada das ulcerações dum panarício erisipelatoso.
Tomásia adivinhava-o, aborrecia-o e quase que o odiava. Algumas vezes por entre as cortinas da janela, quando contemplava cheia de lágrimas os sítios do quintal mais predilectos de Vasco, via o boticário reclinado no escabelo da gruta, com a face na palma da mão, e os olhos na vidraça do seu quarto. Retraía-se como se ele a visse, e dava um estalo tirado com a língua do céu da boca, – a trivial expressão com que se esconjura um estafador e se enxotam os cães.
A criada velha que conhecia o ânimo da senhora, e sagazmente penetrara na causa do fastio de Dionísio, já quando o via no po¬mar, ia dizer à ama:
– Lá está o estupor.
Esta mesma criada foi inconscientemente a portadora de uma carta inclusa no rol mensal das drogas entradas e saídas.
– Que é isto? – exclamou Tomásia, vendo a carta fechada com três obreiras amarelas, simbólicas de desesperação. – Ele deu-lhe esta carta?! E você recebeu-a?...
– Ó menina, mal haja eu, se sabia que o diabo do homem...
E justificou-se plenamente.
Ao primeiro assomo de raiva, quis rasgar a carta; depois, resolveu devolver-lha fechada e despedi-lo; mas neste conflito entrou o abade de Pedraça que ia convidar a comadre para assistir ao jantar de anos de sua irmã.
A mãe de Álvaro, enquanto o padrinho acariciava o pequeno, referiu-lhe o caso. O padre sorriu-se, deu pouco peso à calamidade, e aconselhou que, em bons termos, devolvesse a carta fechada com as seguintes palavras escritas no verso do sobrescrito:
Enquanto lhe servir o emprego que honradamente ocupa na minha casa, peço-lhe que me respeite.
E, motivando esta conceituosa e lacónica intimação, o abade alegou que Dionísio era um óptimo farmacêutico, o único que sabia química e botânica naqueles sítios; que muita gente o preferia ao médico Ferreira – hoje famoso clínico do Porto, e então médico de partido em Basto –, que as suas pastilhas das lombrigas estavam acreditadas em toda a província, e que tinha curado as alporcas a várias pessoas. Disse mais o abade que sabia que um cirurgião da Ponte de Pé lhe oferecera 200$000 réis, cama e mesa e roupa lavada para lhe administrar a botica paterna, e além disso o quinto nos interesses, e metade nas invenções, obrigando-se o cirurgião a propagá-las. Posto isto, concluía que, se Dionísio, irritado pelo desabrimento de Tomásia, se despedisse, a botica se devia considerar perdida, por falta de tão hábil farmacêutico.
– Não me dá outras razões mais fortes, meu compadre? – perguntou Tomásia.
– Ainda as quer mais fortes?...
Ela então chamou a criada, e disse:
– Entregue esta carta a esse homem, e diga-lhe que eu o despeço.
– Que faz, comadre! – atalhou o abade.
– Se eu não fizesse isto – respondeu ela moderadamente, sem atitudes – devia ter aceitado o casal do Paço que me dava o pai de meu filho.
– Mas... – volveu o compadre – a senhora tem a certeza de que essa carta lhe faz alguma afronta?
– Pois que é isto, senão uma afronta? À mulher, na minha posição, abandonada, com um filho, que dirá a carta de um homem?
– Pode ser, e é talvez certo, que ele queira ser seu marido...
– Olha o estupor! – interrompeu a criada com o mais desdenhoso engulho.
O abade, surpreendido pela exclamação, abriu uma risada inoportuna, enquanto a criada continuava:
– Que procure forma do seu pé!... Sempre é muito asno! Um moço de botica atrever-se...
– Vá! – ordenou Tomásia com intimativa; e, voltando-se para o compadre: – Não lhe dê cuidado a minha sorte, meu amigo; mas peço-lhe que tenha em vista a de meu filho. Confesso-lhe que sou mais fraca do que eu pensava. Olhe... Tenho chorado muito; passo aqui noites tão cruéis, tão atormentadas, que se não fosse esta criança... eu conheço os venenos... tinha descido à botica, e a troco de uma agonia de poucos minutos, descansaria desta horrível batalha com que não posso... Não posso mais... É o amor e o remorso a despedaçarem-me. Vejo o pai deste infeliz, vejo a som¬bra de meu velho pai...
E, afogada pelos soluços, arquejava com o rosto apertado nas mãos.
 
*
 
O abade previra com juízo.
Dionísio José Braga, recebido o recado pela criada, que se excedeu – por estar ofendida na insidiosa recovagem da carta –, enfardelou a sua roupa em um caixão de lata, e exigiu uma declaração abonatória de sua honradez. Lavrou-a o abade, e Tomásia assinou-a.
Depois, o padre desceu à botica, e disse ao farmacêutico, por entre coisas agradáveis, que ele devera ter respeitado o melindroso infortúnio de uma senhora que inspirava mais compaixão que amor.
E então Dionísio, numa explosão de raiva irónica, perguntou ao abade:
– E que lhe inspira ela a V. S.a?
– A mim? Amizade e respeito: o que pode inspirar a um sacerdote dos meus anos.
– Conte-me lérias, sr. abade – retorquiu o outro com sarcástica brutalidade.
O padrinho de Álvaro, que tinha cinquenta e sete anos fortes e sangue turdetano nas veias, sentiu na espinha dorsal um formigueiro extraordinário, e ainda olhou para a mão do almofariz; porém, sotopondo o brio do fidalgo à paciência de padre cristão, disse-lhe com violenta brandura:
– Vá com Deus; e... vá com Deus!
Dionísio, nos lances apertados de sua vida de amores perigosos, só levou pancada quando não pôde esquivar-se pela porta da prudência, e até pela janela, conforme a necessidade. O semblante do clérigo e o trejeito diagonal dos olhos ao almofariz tocaram-lhe na costela fracturada em Vilar de Frades; pelo que, abafando as cóleras, prometeu esvurmá-las com ressalva das costelas sãs.
Nesse mesmo dia funcionou na farmácia da Ponte de Pé, e divulgou que saíra de Agilde em consequência dos ciúmes do abade de Pedraça. Os cavalheiros da localidade, sequiosos de escândalos, propalaram a calúnia, e confirmaram o boato de que ele, o hipócrita, já havia mandado para o Brasil um filho, que lá na Residência era conhecido pelo Álvaro enjeitado.
– Que eu conheço perfeitamente – disse um cavalheiro do Arco. – Esse rapazola esteve em Pedraça no ano passado, e ouvi dizer que casara muito rico no Rio de Janeiro; mas lá diziam que o padre era padrinho.
– É pai – confirmaram todos.
E cada qual fez o seu relatório de devassidões de padres. Um dos relatores era o já celebrado poeta de Refojos que, na ausência de Vasco Pereira, pudera repatriar-se, e reassumir as funções de Juvenal em Cabeceiras. Ele esfregava as mãos, arregaçava um sorriso cheio de ameaças e dentes cariados, e dizia, trincando o charuto, que ia escrever uni romance fulminante contra os padres. Foi muito aplaudido, e arranjou logo cinquenta assinaturas. Tecendo o enredo, explicou que o ex-frade de Pedraça seria protagonista, e Tomásia a heroína.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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