Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-05-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 14)
Quando faltavam duas semanas para o fim da recruta, e antes da partida para a semana de monte, início da segunda quinzena de Junho, o Zé, conjuntamente com uns dez ou doze camaradas, foram chamados para fazer um novo teste. Desta vez, foi numa sala relativamente pequena, contígua a casa dos oficiais. Esperava-os um tenente, que se apresentou como sendo o Tenente Pegado. Pegado era efectivamente o seu apelido. Mandou que se sentassem. Afinal, eram treze os que ali estavam e sentaram-se junto de outras tantas pequenas mesas, eram as mesas onde os oficiais tomavam café nas horas de convívio.
O Tenente Pegado colocou um pequeno aparelho em cima da mesa maior que estava à sua frente e disse:
- Meus senhores, isto é um gravador que não vai emitir nenhuma espécie de música, não vieram aqui para ouvir nenhuma desgarrada. Vocês vão fazer um teste de morse. Vão ser testadas as vossas capacidades para a captação de um alfabeto em linguagem morse. Eu vou começar por colocar um sinal de cada vez, explico o que significa e, ao fim de três repetições da explicação de cada um dos sinais, porei a máquina a funcionar durante cinco minutos e vocês tentarão captar o máximo de sinais possível. Entendido, pá?
Dos presentes, uns olharam para o parceiro mais próximo do lado, outros encolheram o sobrolho, e ninguém dirigiu palavra ao Tenente Pegado. Veio a saber-se, mais tarde, que o Tenente Pegado era especialista da Arma de Transmissões, que se deslocara de Tancos a Vila Real para realizar este preciso teste e que fazia esta digressão por todas as unidades do país onde funcionavam escolas de recrutas. Prosseguiu o Tenente Pegado:
- Então, já que ninguém se arrisca a ter dúvidas, vamos começar – colocou o gravador a funcionar e saiu o som “tiri” e ele explicou: este som é a letra “i”. A seguir colocou novamente o gravador a girar e saiu o som “tirá” e ele disse: este som é a letra “a”. Depois colocou outra vez o gravador a funcionar e saiu o som “tari” e ele disse também: este som é a letra “n”. Repetiu as três fases desde o início mais duas vezes e no fim disse, de novo, para os treze recrutas:
- Como vos referi no princípio, vou agora pôr isto a girar durante cinco minutos. Não vai ser muito rápido para que não se atrapalhem e consigam captar alguma coisa. Vou pô-lo a andar bem devagarinho, cada qual fará o que puder e ninguém será penalizado ou premiado por aquilo que conseguir fazer. Estejam atentos, a atenção é fundamental neste tipo de testes. Vão ser transmitidos grupos de cinco letras com uma pausa maior entre cada grupo. Tá bem, pá?
O gravador começou a transmitir: tiri, tari, tiri, tira, tira, tari tiri tira… Alternadamente eram a letra “a”, a letra “i” e a letra “n”. Houve alguns que ficaram a pensar no primeiro sinal e dali não saíram, não fizeram mesmo nada. Houve outros que, ao fim de algum tempo, mais ou menos a meio do período, lá conseguiram engrenar alguns sinais e terão captado pouco mais que metade. Dois ou três, entre os quais o José Capelo, captaram quase tudo Porém, pelas impressões ouvidas no fim do teste, nenhum deles fez o pleno. Era de facto quase impossível fazer um pleno neste teste e nesta altura da instrução.
Terminado o teste regressaram aos seus lugares, nos respectivos pelotões, que continuavam a instrução. Agora treinava-se as ordens ao som do toque da corneta. Aproximava-se o dia do juramento de bandeira e era preciso que tudo fosse feito em conjunto e ao som dos toques da corneta, e a marcha em conformidade com os acordes da fanfarra, que abriria o desfile de todo o regimento.
Aconteceu que, para este teste especial sobre as possíveis aptidões para a captação de sinais morse, foram chamados dois dos quatro amigos do condomínio do Zé. Para além do próprio, o outro foi o Silvestre. Como já sabemos o Silvestre pertencia ao terceiro pelotão, enquanto que o José Capelo pertencia ao quinto. Encontraram-se, portanto, sem nada saberem de antemão, na altura do teste. À noite, quando se deitavam, o Zé questionou:
- Olha lá, ó Silvestre, para que será aquilo que a gente foi fazer esta manhã? Aquilo dos apitos?
O Silvestre respondeu:
- Eu não sei muito bem, mas já ouvi dizer que isto tem a ver com a arma das transmissões, são os radiotelegrafistas. No ultramar, cada companhia leva pelo menos um radiotelegrafista, que se ocupa das comunicações com as outras companhias e com o comando geral que ficará instalado numa cidade, talvez na capital.
- Ah! Está bem. Mas nesse caso terá que levar um rádio às costas. E a arma?
- Pois é. Aí é que está o problema. É que o radiotelegrafista, para além de “alombar” com a arma para se defender, como todos os outros, tem ainda que carregar com o rádio que não pesará tão pouco como isso… E, a propósito, como é que te correu o teste?
- Parece que não me correu muito mal, falhei uma meia dúzia de letras no princípio, mas, a partir do quarto grupo de cinco letras, acho que as acertei todas.
- A mim também não me correu mal, penso que acertei quase tudo – respondeu o Silvestre, que concluiu – se calhar ainda vamos os dois para radiotelegrafistas… Quem sabe?...
- Isso é que era bom, pelo menos já éramos dois conhecidos – respondeu o Zé, que prosseguiu – ainda te lembras dos apitos?

(continua)

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