Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-05-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (6)

foto
Caros leitores, hoje, neste número e até à conclusão deste folhetim “O Filho Natural”, das Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, não vou fazer mais introduções. O motivo é o seguinte; como esta história se está a prolongar mais do que eu contava e, tendo outras crónicas à espera de serem publicadas, decidi prescindir das minhas introduções.
Todos os contos e romances de Camilo Castelo Branco são muito acessíveis na leitura e de fácil compreensão. Penso que depois destes números que já saíram, vocês já estarão mais que entusiasmados, pelo menos os que gostam deste género.
Continuem a procurar os livros de Camilo Castelo Branco porque vale a pena.
Com a devida vénia

O FILHO NATURAL

E, pegando dele sem jeito nenhum, sentou-se, enquanto as duas mulheres conduziam a desfalecida.
– Que é do meu pequerrucho? – dizia o abade com a criança de barriguinha ao ar nas palmas das mãos. O pequeno chorava franzindo a testa em refegos escarlates. – Que queres tu, meu chorincas? Parece que tens mau génio! Psiu, psiu! Cala-te. Quem tem um néné? – E cantava-lhe um improviso, que o pequenito parecia patear rabeando com pés e mãos. – Ora esta! A minha missão acabou por ficar eu ama seca do crianço do sr. Vasco! Psiu, olha, engrimanço, pataratinha! Oh, oh, oh! – E acalentava-o, embalando-o nas mãos de cima para baixo, como quem padeja uma broa.
A criada veio buscar o pequeno, e disse alegremente que a senhora já falava e perguntara logo pelo filho.
– Pois leve-lho, que já não é sem tempo. Apre! Estou a suar! E – ouviu? – diga- -lhe que eu quero ser o padrinho dele; e que brevemente cá volto.

*
 
O abade informou o fidalgo dos sucessos ocorridos; e, depois, acrescentava que no mesmo dia, ao anoitecer, recebera um molho de pequenas chaves de gavetas que Tomásia lhe remetera, oferecendo-lhe a humilde casa onde nascera e agradecendo-lhe o favor de lhe baptizar o filho.
foto
«Meu amigo – ajuntava o padre –, V. S.a não co¬nhecia com certeza os elevados espíritos desta mulher. Este caso prova que as acções excelentes não são privilégio das castas fidalgas. Vi que ela tinha alma de mulher porque chorou; porém, quando esmagava o coração debaixo dos pés da sua dignidade, era sublime! E porque o era, sr. Vasco, ouso dizer-lhe que V. Ex.a foi cruel com esta mulher, e lá pela vida fora, se não encontrar outra semelhante, há-de recordar-se desta com pesar. Com que desplante os homens atiram aos abismos da irreparável desgraça umas criaturas que levam consigo os escondidos tesouros de felicidade que lhes rejeitaram! Quantos bens da vida íntima V. Ex.a gozaria ligado honestamente a esta mulher e a esta criancinha! Veja que nobre coração! O que ela queria era que não a julgassem mulher vendida. O casal de Paços, que V. Ex.a lhe doava, pareceu-lhe uma injúria sobre a ingratidão. O sr. Vasco, ou se enganou com ela, ou me quis enganar a mim. Devia dizer-me que esta mulher do povo tem brios que não são comuns; dissesse-mo, se o sabia, para eu me esquivar a mensagem tão alheia dos meus deveres de padre, e até de amigo que fui, e desejo continuar a ser, de V. Ex.a. Mas, olhe, senhor meu, se o mundo lhe não condena esta ruim acção, condeno-lha eu, que sou da religião de Jesus, que santificou Ma¬dalena. Escute o que lhe diz o eco da divina justiça, que nos repercute na consciência. O que eu lhe assevero é que a justiça está da parte desta infeliz mãe; e os que fazem iniquidades não são decerto os bem-aventurados...»
Prosseguia neste estilo, algum tanto de sermonário, e concluía dizendo que ia ser padrinho do menino «porque o tivera cinco minutos nas mãos; e lhe parecia que, se a mãe lho desse, o levaria consigo, aquecendo-o entre o seio e a batina, debaixo da qual só é permitido sentir pulsar no coração a piedade que Jesus Cristo sentira pelas criancinhas».

*

Esta carta não comoveu profundamente Vasco Pereira. Estranhou que o abade de Pedraça, nascido em uma das mais nobres casas do Minho, filho de capitão-mor, e neto de um chanceler, alvitrasse o casamento de um Marramaque com a filha do farmacêutico Macário! Os tópicos religiosos da epístola pareceram-lhe jesuíticos, e incompatíveis com o espírito liberal do egresso, que fora o primeiro a abandonar o mosteiro de Tibães. Aborreceu-lhe a hipocrisia caturra do seu velho mestre de filosofia moral, que em assuntos de metafísica citava, sorrindo, uma frase de Protágoras: «A respeito de deuses, não sei se eles existem nem se não existem.»
Quanto a Tomásia, sinto dizer, em desonra do meu sexo, que o noivo de D. Leonor de Mascarenhas viu em tudo aquilo que maravilhara o padre uma simples reminiscência de certa «Augusta» – personagem de um mau romance que então se lia, chamado Onde Está a Felicidade; e até lhe quis parecer que o abade de Pedraça se metera nas romanescas veleidades de imitar o outro personagem piegas que lá se chama o poeta. Com esta interpretação das agonias de Tomásia e das austeridades equívocas do egresso, Vasco Pereira ficou satisfeito.
Escreveu entretanto ao abade agradecendo-lhe os conselhos e admirando-lhe o sentimentalismo – isto com uns períodos facetamente arredondados, e umas agudezas de espírito-forte que deram em resultado passar a carta feita pedaços das mãos do padre às asas do vento. Mas, como o fidalgo dizia vir na próxima semana a Basto, e ir por Pedraça receber as chaves, deu-se pressa o abade em avisá-lo que procurasse as chaves em casa do seu reitor. Às graçolas não redarguiu. O egresso, como era de nobilíssima linhagem, olhava sem preconceito para fidalgos, e no de Agilde não achava ressalva que o estremasse do comum dos homens indignos da sua estima.
Do que ele curou foi de baptizar o filho de Tomásia. Deu-lhe o seu nome, o sobrenome de seu avô boticário e o apelido de sua avô materna. Chamou-se o menino – Álvaro Afonso da Granja.
A mãe assistiu à cerimónia, por instâncias do compadre, que a levou a casa em companhia de sua irmã, madrinha do menino. Dizia esta senhora que enquanto se não demonstrasse que as mulheres seduziam os homens, havia de ser indulgente com as seduzidas. Tinha amado, tinha chorado e encanecido aos vinte e cinco anos. Cativou-se tanto da resignada paixão de Tomásia que a visitava amiúdo, e a levava consigo para Pedraça.
 
*
 
O noivo queria as jóias da mãe, queria vender a quinta de Lanhoso e os foros de Felgueiras. Era forçoso ir.
Entrou por uma noite feia em Agilde. Recebeu do reitor as chaves das cómodas e dos contadores. Encontrou o feitor no patamal da larga escadaria com uma lanterna de luz mortiça; parecia um vulto de granito a alumiar a porta de um jazigo enorme. Quando entrou na sala de espera sentiu-se incomodamente impressionado. Por aquela vasta quadra zuniam nos forros as correntes da ventania.
– Acendam velas! – exclamou ele com desabrimento. – Que é das criadas?
– Minha mulher está doente...
– E as outras?
– Quando a senhora se foi embora, elas foram também – respondeu o feitor.
– Quem me há-de servir?
– Se V. Ex.a mandasse dizer que vinha, eu teria arranjado criadas; mas só já de noite o sr. vigário me mandou avisar. Amanhã se arranjará tudo.
Passando de sala em sala chegou à saleta do seu quarto de dormir. À entrada, tropeçou em um móvel.
– Que é isto? Alumie, António!
Era um berço de mogno, suspenso em colunatas com dossel e cortina de mousseline. Este berço enviara-o ele de Lisboa, logo que ali chegara, prometendo ser o primeiro que embalasse o seu filho. Deteve-se dois segundos a olhar para o berço.
Recordava-se; mas não saberia dizer o que recordava; talvez estivesse escutando o sibilar do vento que parecia um concerto de gemidos.
Entrou no quarto, acendeu as velas dos castiçais e fechou a porta. Atirou-se para uma das camas. Sobre uma banqueta próxima do leito, em que se reclinara, estava papel, tinteiro e duas cartas abertas; uma, era a última que ele escrevera a Tomásia; e a outra carta inclusa nas duas páginas era a primeira que Vasco lhe es¬crevera, jurando-lhe por alma de sua mãe ser ela o primeiro, o infinito amor da sua vida. Esteve alguns minutos como absorvido na contemplação da luz da vela, com as duas cartas entre os dedos. Parecia contrariado. Ergueu-se, fez um gesto de repugnância, sacudindo com a mão o que quer que era que lhe fazia pressão na testa. Abriu as gavetas de um contador preto com lavores metálicos. Tirou um cofre de jóias, cuja tampa de prata dourada tinha brasão esculpido.
No côncavo dos relevos do escudo estavam dois anéis de diamantes miúdos, que ele dera a Tomásia. Examinou-os um momento, abriu o cofre e juntou-os às outras jóias, que não examinou. Relançou os olhos em redor. Pendentes de cabides de pau estavam dois vestidos de Tomásia. A sua guarda-roupa era modestíssima. Como não pusera pé fora daquela casa desde que entrara até que saíra para sempre, recusara-se a aceitar atavios inúteis. Levara consigo os vestidos que o ajudante da botica lhe remetera, quando o pai se retirou.
Perguntam-me se Vasco Pereira Marramaque já enxugou três, ou ao menos duas lágrimas?
Quando chamou o escudeiro e lhe perguntou se estava pronta a ceia, tinha os olhos enxutos; mas isto nada prova contra as suas qualidades sensitivas. O querer cear também não demonstra insensibilidade nem míngua de aflição. D. Fernando, duque de Bragança,
quando passou do oratório para o cadafalso, pediu figos e vinho. Comer é uma brutalidade fisiológica independente da alma. Deixar-se morrer de fome para extinguir os elementos da dor moral é hoje impossível. Só se morre de fome nas condições de Ugolino. A mitologia tem muitos casos como o do marido de Andrómeda; na história da Roma Imperial há muitos como o de Diocleciano e de Júlia, mãe de Caracala, e na história lendária alguns como Gabriela de Vergy. Ora Vasco era nosso contemporâneo. Ceou, dormiu, e, ao outro dia, mandou avisar os brasileiros, com quem tratou os seus negócios, e, realizadas as vendas, foi para a corte.
 
*
 
Nos salões do conde de Cabril pesava desde 1833 o luto silencioso de uma sociedade extinta. Os estofos de damasco haviam desbotado debaixo das lonas apresilhadas de laços escarlates; o oiro dos tremós João V tinha a cor esmaiada dos velhos altares. O conde fugia daquelas salas onde se lhe representavam à pugentíssima saudade os fantasmas de tantas mulheres formosas que instantaneamente se sumiram na obscuridade e envelheceram na pobreza; de tantos homens ilustres que, num lance de desfortuna política, resvalaram da altura de sete séculos. D. Leonor lembrava-se de ver ali, na cadeira de um trono móvel, D. Miguel, e de brincar entre os braços das sereníssimas infantas que a beijavam. Os filhos do velho camarista de D. Carlota Joaquina, mais idosos que a irmã, memoravam a ida de D. Miguel à sua cavalariça, e estar encostado ao ombro do conde a ver marcar a ferro na anca um cavalo de Alter; lembravam-se também de o ver jogar a barra com uma alavanca em Salvaterra, segurar um touro pela cauda, etc., e, cheios de saudade do seu rei, exclamavam: «Era um grande pândego!» Contavam então as brincadeiras predilectas daquele senhor, e lá vinha o caso de sua alteza real em pequenino furar a barriga das galinhas com um saca-rolhas, facto restabelecido e autorizado pelo sr. dr. bispo António Aires de Gouveia, no seu livro da Reforma das prisões.
Destes casos e tempos felizes parecia estarem-se carpindo na vasta sala, eufonicamente chamada d’armas, os lugentes retratos, todos autênticos como o de Leovigildo, primeiro rei visigodo na Lusitânia. Fitavam os seus olhos pávidos nos guadalmecins esflorados e puídos, onde a espaços se viam os heróis do assédio de Tróia, Príamo e Aquiles, e os mais, com os olhos furados e as bocas rasgadas até às orelhas – recreações infantis dos meninos do conde, quando se exercitavam no jogo da navalha.
Eis que, um dia, abertas de par em par todas as janelas e portas do vasto palácio, o sol, o ar, a alegria, as decorações modernas, entraram naquelas salas, com grande faina de estucadores, de estofadores e de marceneiros.
Dir-se-ia que tinha chegado à Ajuda o sr. D. Miguel I e que o conde de Cabril levantara do cofre da fazenda – que os liberais deixaram cheio, como era de esperar – os primeiros cem contos por indemnizações, autorizando-se com os ilustres exemplos dos seus primos Terceira e Saldanha.
A causa dessa transformação não pertencia ao número das calamidades sociais. Tudo aquilo era obra do amor conjugal e de doze contos de réis.
Vasco Pereira Marramaque estava em Sintra com sua esposa, com seu sogro e com seus cunhados, enquanto se preparava o palácio de Andaluz para os bailes de inverno.
 
SEGUNDA PARTE

As aparências, que deixavam supor em Tomásia uma alma ou muito briosa ou muito despegada, eram fingimentos que secretamente lhe custavam ásperas pelejas. Enquanto a saudade não cedesse ao ódio, qualquer ostentação de desprezo ou de submissa conformidade devia ser-lhe uma frecha, tanto mais entranhada no coração quanto a ofendida abafava em si o desafogo dos queixumes. Nas doenças de amor, a peçonha do ciúme supurando pelas palavras desabridas deixa muitas vezes a alma curada.
Tomásia velava as noites à beira do berço do filho. Aconchegava-se dele como se a criança lhe fosse alívio e defesa de uns pavores que a estremeciam naquele quarto onde, pela última vez, ouvira a voz aflita do pai que a chamava. O administrador da farmácia, que dormia por baixo, aplicava o ouvido e escutava soluços. Erguia-se de pé sobre o leito e ajustava a orelha à parede, por onde se lhe coavam os rumores do pavimento.
Esta curiosidade tresnoitava Dionísio José Braga.
Era um sujeito entre trinta e trinta e quatro anos. Praticava na botica do hospital de Braga, e tinha o curso farmacêutico na escola do Porto.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.