Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-05-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (104)
FIADORES E AVALISTAS

Eu penso, muito sinceramente, que ninguém terá dúvidas de que a minha postura, perante a vida, se pauta pela preocupação de tentar dar sempre o meu melhor no sentido de contribuir para o bem comum.
Bom, quanto à hipótese de alguém poder ter ou não ter dúvidas sobre a verdade das minhas preocupações cívicas e, porque não dizê-lo, filantrópicas, devo adiantar que essa é a minha convicção, e que faço tudo o que está ao meu alcance para não defraudar tal presunção. Por exemplo, tenho o cuidado de colocar, uma vez por semana, no respectivo vidrão da minha área de residência, todas as embalagens de vidro depois de me certificar que nenhuma delas contém rolha ou tampa. Poderia deixar aqui outros exemplos, como aquele de nunca ter tido, nem manifestar intenções de vir a ter, um cão, só para evitar que o mesmo tenha que andar, por aí, a largar sujidades nos passeios e outros espaços públicos.
Entrando no assunto mais sério, não quero dizer que o que acabo de referir não seja sério, muito provavelmente até será o mais sério, mas, para o comum da sociedade, pode parecer que não é tão sério assim. Muito bem, falemos de dois tipos de problemas, muito concretos, com que um razoável número de cidadãos se debate, e agora mais do que nunca.
O título desta crónica não foi colocado aí por acaso, e é desse que pretendo falar – os problemas com que se debatem aquelas pessoas que, por norma inadvertidamente, se metem numa enormíssima carga de trabalhos, apenas pela simples razão de colocarem a sua assinatura, na frente, ou no verso, de um papel. A maior parte das vezes, é mesmo no verso do dito papel. Sabem o que é uma livrança? Pois é, os bancos gostam muito que haja um incauto que coloque a sua assinatura no verso, ou então na frente, de conveniência atravessada, do lado esquerdo do respectivo papel que costuma ter a forma de um pequeno rectângulo e já vem timbrado pelo banco.
No caso acabado de referir estamos em presença da figura do avalista. A figura do fiador é exactamente a mesma coisa, só que, por norma, assina um qualquer contrato, por exemplo um contrato de compra e venda com mútuo e hipoteca, ou um contrato de arrendamento, ou qualquer outro que envolva a obrigação de uma prestação única ou periódica e que um amigo, é sempre um amigo, pretende que ela garanta, na sua falta, o pagamento ao respectivo credor.
Eu tinha dois exemplos, decorrentes da minha prática de vida, que aqui iria relatar, em que duas pessoas que eu conheci, uma das quais penso ter evitado que se lançasse do tabuleiro superior da Ponte de D. Luís para as águas frias, de Janeiro, do Rio Douro, em virtude de um processo que lhe fora movido por um banco e que conduziu a que tivesse que vender todos os seus bens, inclusive uma moradia que adquirira com enormes sacrifícios, para pagar a dívida de um amigo de quem ficara de fiador e que acabou por não a pagar e desaparecer do país sem deixar rasto. O pior de tudo ainda foi que, para além de lhe penhorarem e venderem todos os seus bens, por fim, como ainda existia saldo da dívida por pagar, penhoraram-lhe um terço do vencimento que auferia na empresa onde trabalhava.
Foi um momento muito difícil para aquela família de fiadores, mas também o foi para mim, que me vi na obrigação de lhe dar apoio moral e convencê-lo, ao marido, de que o salto da Ponte de D. Luís era demasiado arriscado e que muito dificilmente teria a possibilidade de regressar à margem.
Mas, nem de propósito, no telejornal da RTP1 das vinte horas do dia 22 de Abril do corrente ano, de 2009, ouvi, muito atentamente, o caso do Senhor Mano Silva, presidente do Grupo Desportivo Ericeirense, que se encontra em greve de fome. Pelas informações que entretanto recolhi, o Ericeirense é o clube de futebol da Ericeira, concelho de Mafra, e milita na Divisão de Honra da Distrital de Futebol de Lisboa.
Porque é que o Senhor Mano Silva entrou em greve de fome e garante que irá até ao fim? Ir até ao fim quer dizer que, muito provavelmente, virá a morrer de fome. A razão deste seu dramático e drástico protesto é que está a ver todos os seus bens penhorados e vendidos para pagamento de dívidas do clube, do qual é presidente, e que, nessa qualidade, avalizara: «Já vendi dois apartamentos para honrar os compromissos do clube e está em execução a penhora de um prédio de quatro pisos, um apartamento e um terreno. Corro ainda o risco de ficar sem a casa onde vivo, em Maio, e sem quaisquer outros bens», referiu o Senhor Mano Silva aos jornalistas que o interrogaram no local onde se encontra, noite e dia, no estádio do Ericeirense, ingerindo apenas água e um chá com açúcar.
Há uns dias, bastante poucos, uma pessoa, minha amiga, ficou altamente surpreendida com a resposta que lhe dei: «não faça isso», quando me questionou, no sentido de lhe dar a minha opinião, acerca da posição que ela deveria tomar, relativamente ao pedido de uma amiga, sua, para que fosse avalista, na concretização de um empréstimo bancário, não sei bem para o que fins. E, para que não duvidasse do meu parecer, acrescentei: «olhe, eu nem ao meu próprio filho fio ou avalizo, seja o que for, prefiro emprestar-lhe o dinheiro, se o tiver. É que, fiando, uma pessoa nunca sabe o montante das quantias que poderá vir a ser chamado a pagar. A dívida avalizada, que hoje poderá ser de cem, amanhã já será de cento e vinte e em pouco tempo duplica, triplica, e por aí além…».
Todo aquele que tenha bens registados em seu nome, só sendo tolo, é que avaliza, seja o que for. Se não tiver nada de seu, nem receio que lhe penhorem o vencimento, o que, logicamente, também não deverá ter, então faça-se fiador e avalista de tudo e de todos. Pode, e deve, avalizar à vontade. Porém, qual será o credor, muito particularmente, o banco, que vai nessa?

Por: José Costa Oliveira

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