Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 27-04-2009

SECÇÃO: Informação

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 13)
A aplicação militar constava de rastejar por baixo da malha de arame farpado, transpor a paliçada formando uma cambalhota à saída, saltar o muro em pés juntos, subir as cordas para cima do pórtico a pulso e saltar ao galho a partir de uma plataforma que se encontrava a razoável distância daquele. Depois, correr, em todos os sentidos, e reunir num dado ponto para onde se deslocava o instrutor. O último a chegar ao local de reunião era sempre “premiado” com um dado número de flexões, ou abdominais, para que da próxima vez fosse mais rápido e conseguisse não ser o último a reunir. Infelizmente, teria que haver sempre um último.
O que mais custava ao Zé era saltar o muro de um metro de altura a pés juntos, sempre ali tocava com as biqueiras das botas quando não era com as canelas. Saltar para o galho também era coisa que atemorizava a maioria dos recrutas. Certo dia, em que o comandante da companhia assistia aos exercícios, houve um rapaz que hesitou e não conseguia saltar. Em cima da plataforma, de onde deveria formar o salto, tremia como um vara. O Capitão subiu a plataforma, chegou-se junto dele e disse:
- Se não saltas para a frente, tens que saltar para baixo, agora escolhe e tens dez segundos.
O rapaz saltou para baixo. Eram quatro ou cinco metros de altura. Porém, e para evitar acidentes mais graves, em redor da base do tronco havia um circulo de areia destinada exactamente a amortecer a queda de todo aquele que falhasse o salto e se estatelasse no chão, pelo que o sujeito, embora batesse com os pés e com as mãos no solo, não se magoou coisa de maior.
Diariamente, passados os períodos da ginástica e da aplicação militar, eram os tempos de se aprender o manejo da arma e as suas componentes, isto é, os nomes de todas as peças e a finalidade que cada uma tinha no todo. A arma em apreciação e com a qual era ministrada toda a instrução de manejo era a mauser modelo trinta e nove e calibre de sete virgula nove milímetros. Quanto às suas componentes, entre algumas outras, eram: a coronha; o fuste; a bandoleira; a câmara de munições; a caixa da culatra; a culatra; e o gatilho.
O manejo de armas partia de algumas posições já conhecidas como as posições de “à vontade”, de “firme” e de “sentido”. A partir da posição de sentido é que havia novas posições como a de “ombro armas”, a de “apresentar armas” e a de “arma ao solo”. Com a arma nunca se podia fazer qualquer movimento numa formatura sem que se estivesse na posição de sentido, e nunca se podia iniciar uma marcha sem que se estivesse na posição de ombro armas.
A partir da quarta semana começou a fazer-se tiro com a espingarda mauser, na carreira de tiro do interior do quartel, que ficava logo a seguir ao campo de obstáculos, e a pontaria era feita no sentido poente, na direcção da serra do Alvão. Qualquer um, que tenha cumprido o serviço militar no tempo em que se fazia tiro com uma espingarda mauser, sabe, perfeitamente, que esta arma não é muito meiga, e que, sempre que é disparada, dá um grande coice, em particular se o atirador não está ciente da sua dureza. Foi exactamente o que aconteceu ao Zé e a muitos dos seus camaradas, nos primeiros dias que dispararam a “canhota” na carreira de tiro do interior do quartel.
Não tinham o cuidado suficiente de a apertar bem contra o ombro, no momento do disparo, e esta dava o respectivo coice, uma pancada bem seca da base da coronha contra a clavícula do atirador. Ficaram com esta parte do ombro bem negra durante mais de uma semana. Depois de se habituarem, tudo regressou ao normal e a mancha negra desapareceu.
Fez-se também tiro com duas metralhadoras ligeiras: a bren que era municiada a partir de um carregador; e a borsing que era municiada a partir de uma fita. Com a mauser o Zé obteve a segunda classe de tiro ao alvo. Com a bren e a borsing obteve a classificação de tiro de primeira classe. Pode verificar-se estes dados consultando a sua nota de acentos.
A espingarda ligeira automática G-3 viria a aparecer já no fim desta escola de recrutas, pelo que, quanto a esta, apenas foi recebida alguma instrução teórica relativa à sua composição e funcionamento. Não foi feito qualquer treino de fogo com a G-3, uma vez que, em princípio, a pontaria não era questão essencial. Esta arma destinava-se a ser utilizada em teatro de guerrilha efectiva e a finalidade do tiro era o tiro instintivo, que quer dizer muitos tiros na direcção do objectivo sem preocupações de pontaria.
De qualquer modo, uma questão foi considerada fundamental, que era a de suprir, em efectivo teatro de guerrilha, qualquer avaria que surgisse e mesmo no escuro da noite, pelo que estes militares obtiveram instrução nesse sentido. A maior parte deles ficou a ser capaz de desmontar e voltar a montar a arma, na totalidade das suas trinta e duas peças componentes, de olhos completamente vendados. A espingarda ligeira automática G-3 era constituída por um total de trinta e duas peças.
Também ninguém veio a ter uma G-3 distribuída. A arma que sempre tiveram a seu cargo, durante todo o período de instrução, que duraria dois meses, até ao dia do juramento de bandeira, foi a mauser, que cada um vigiava, com o máximo de preocupação, no armeiro da caserna, sempre que não a transportava ao ombro ou em bandoleira. As G-3 eram levantadas na respectiva arrecadação de material de guerra, pelos instrutores, apenas para a formação teórica que era ministrada a todo o pelotão em formação de conjunto.

(continua)

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