Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 27-04-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (5)

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Queridos leitores, que triste sofrer do boticário Macário. Sofre a ignomínia da desonra da sua filha e por conseguinte também a sua e da sua família é afectada ao mesmo tempo. Por isso faz um luto profundo como já vos tinha dito em jornais anteriores.
O “pobre” Macário tinha cerca de cinquenta anos, era viúvo. Só tinha, que se saiba uma única filha, a Tomásia. A que morreu para o pai no dia em que se descobriu os seus encontros amorosos no seu quintal, com o jovem Vasco Marramaque, um fidalgo de vinte e seis anos.
Embora estejamos a séculos destes acontecimentos e com outras mentalidades, até compreendemos de certa maneira este sentir do pobre pai. Mas se pensarmos bem, quando há amor e se está apaixonado agimos mais com o coração do que com a cabeça. E que seria dos romances sem estas paixões em que se age mais com o coração e que na maior parte das vezes se transformam em tragédias. Para não ir mais longe vejam o amor de Romeu e Julieta. Embora para esses tenha corrido mal. Mas como estava a dizer foi tudo muito bem durante um certo tempo entre estes dois jovens. Pior foi quando o Vasco se começou a cansar daquela vidinha insípida em Agilde que não condizia nada com o seu estatuto de fidalgo que, tinha grandes aspirações, entre as quais a política. É aí que o coração da pobre Tomásia se encolhe. Apresentou-se ao Vasco a oportunidade de poder ser eleito deputado por Braga e não hesitou. Não olhou a meios para atingir os fins, que é como quem diz, comprou a consciência aos eleitores o que equivalia a dois frangos e quartinho com jantar regado com vinho à descrição. Lá ficou a Tomásia em lágrimas já com um filhinho no ventre.
Como sou uma pessoa romântica, embora não pareça, sinto-me solidária com o triste rumo que a vida de Tomásia levou. E mais não vos vou dizer. Continuem a seguir este folhetim no Ecos de Basto e não deixem de procurar as Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco.
Com a devida vénia.

O FILHO NATURAL

As angústias mais cerradas deixam sempre clareira alumiada por uma réstea de esperança. A alma opressa é engenhosa em achar fenda por onde se desafogue. Assim Tomásia, entre a carta de Vasco e a do pai, entre a desesperação de amante e o remorso de filha, amparava-se à certeza de ter uma agência bastante à sua independência.
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O fidalgo não desgostou da expressão seca e altiva da resposta de Tomásia. Como receava lamúrias e queixumes que complicassem o inevitável desenlace, foi-lhe agradável supor que ela transigiria com a separação sem violência nem escândalo. Por outra parte, a sua vaidade sentiu-se da sobranceria de Tomásia, da ombridade com que ela o tratava como de igual para igual, com a fácil transigência da mulher enfastiada. Como quer que fosse, Vasco, sacrifi¬cando o seu amor próprio, antes queria ser aborrecido que importunado pelas lástimas.
Mas as lástimas apareceram na carta do correio imediato. Que brantado o orgulho ferido, e aplacado o despeito, afluíram as lágrimas ternas e suplicantes. Tomásia, com o filho no regaço, e ainda no leito, escreveu com eloquente paixão as suas saudades, as lembranças do que Vasco lhe dissera e lhe prometera naquelas noites em que ela, corajosa como a culpa sem pudor, descia ao quintal a recebê-lo nos braços, e a lançar- -lhe aos pés a sua honra, e a honra e vida de seu pai. Implorava-lhe que não enjeitasse o seu filho, que o baptizasse em seu nome, que o fosse ver, se queria ficar preso às asas daquele pequenino anjo.
A dor era sincera nesta carta; mas a leitura de novelas fornecera-lhe bastantes frases, não menos conhecidas do deputado.
Isto inquietou-o. Havia já pedido a mão de sua prima Leonor. Devia recebê-la passados dois meses. Preocupavam-no os presentes de noivado. Precisava ir a casa buscar as jóias de sua mãe para engastar os diamantes em adereços de feitios modernos. Queria vender a um brasileiro uma quinta em Lanhoso, e a outro brasileiro os seus foros de Felgueiras. Carecia de arredondar uma dúzia de contos para estabelecer-se na corte com cocheira e salão, com parelhas e amigos. Calculava, feitas as vendas, oito contos de renda, afora umas presuntivas sucessões em vínculos e prazos. O futuro sorria-lhe como a todos os namorados e noivos com oito contos de renda; mas Tomásia era-lhe um estorvo irritante. Enquanto ela estivesse em Agilde, Vasco, se ali fosse, expunha-se a grandes sensaborias.
Nesta urgência, acudiu-lhe ao pensamento o seu velho amigo e mestre de lógica, o já conhecido abade de Pedraça.
Sentou-se e escreveu compridamente.
 
*
 
Tomásia não recebera resposta à carta das lágrimas humildes. Sentia-se outra vez em reacção de orgulho. Punha todo o seu coração nos lábios que beijavam a criança, e pensava, outra vez, no contentamento de ter uma casa sua com uma farmácia acreditada. Pesava já sobre ela esta atmosfera crassa e brusca do positivismo moderno. Gostava de ter de seu. Não lhe metiam medo os senhorios, nem a carestia dos comestíveis, nem o desprezo sovina de parentes. Tinha seguro o pão de seu filho. Começava a odiar o pai dessa criança tão linda; mas de súbito marejavam-lhe as lágrimas, lembrando-se do prazer que sentiria Vasco se sentisse nas mãos o seu filhinho...
Em um destes lances, anunciou-se o abade de Pedraça, que queria falar à sr.ª Tomasinha.
Ela estremeceu. Aquele padre nunca lhe falara nem a cumprimentara, tendo-a encontrado de passagem quando procurava o fidalgo. Era um clérigo severo, egresso da ordem de S. Bento, liberal, mas de costumes austeros, e talvez acintemente exagerados para demonstrar que liberdade não é licença, e que somente o clero estúpido é desculpável de ser devasso.
Foi a trémula Tomásia à sala, onde o abade passeava com estrondosos passos e rijas pontuadas da bengala no tabuado.
– Viva, sr.ª Tomásia – disse ele quando a viu erguer o reposteiro de baeta escarlate com armas.
– Sr. abade... – murmurou ela – Passou bem?
– Graças a Deus, bem; e como está a menina?
– Muito agradecida...
– Com licença – e sentou-se. – Faz favor de sentar-se que temos que conversar. Por aqui não está nenhuma curiosa que nos escute? Veja lá...
– Esteja V. S.a descansado que não está ninguém. – E foi fechar a porta por onde entrara, recomendando para dentro que a chamassem, se o menino chorasse.
Esta recomendação sem rebuço escandalizou algum tanto o padre, severizando-lhe o aspeito.
– Ora, senhora – disse ele –, já que falou no menino, comecemos por aí. O sr. Vasco Pereira não pode reconhecê-lo no acto do baptismo, isto é, não quer, porque, reconhecendo-o, prepara complicações e dificuldades aos filhos legítimos, se os tiver. E é natural que os tenha, porque o sr. Vasco é rapaz, é rico, é fidalgo, e, mais hoje mais amanhã, casa.
Rosou-se ligeiramente o rosto de Tomásia, e sentiu uma forte e súbita opressão no respirar.
O abade, que por falta de vista não dera tino da comoção, agourou favoravelmente da apatia de Tomásia, e prosseguiu:
– Devo ser franco, senhora; com meias palavras não fazemos nada: o sr. Vasco vai casar com uma sua prima, filha do sr. conde de Cabril.
Tomásia ergueu-se soberanamente, admiravelmente, e disse:
– Não tem mais nada que me dizer? Dê-me licença, e queira esperar um pouco, enquanto eu vou buscar as chaves das gavetas do sr. Vasco para lhas entregar.
– A mim?
– Pois a quem? Eu vou sair desta casa com o meu filho. O sr. abade vem despedir—me, e portanto há-de ser testemunha de que eu saio desta casa como entrei...
– Eu não venho despedi-la, senhora! – volveu ele sentindo-se apoucado diante daquele gentil e arrogante desprendimento. – Faz favor de me ouvir. Sente-se...
Tomásia sentou-se, com os olhos entumecidos de borbotões de lágrimas, represadas pela força da vontade.
– O sr. Vasco Pereira – continuou, pausando as palavras que proferia e acentuava com inflexões mais respeitosas – quer que a senhora e seu filho tenham o necessário, e até mesmo o supérfluo à sua subsistência...
– Isso temos nós, sr. abade – interrompeu ela. – Tenho a minha casa e a minha botica.
– Não obstante, o sr. Vasco Pereira quer fazer à sr.ª Tomasi¬nha doação do casal de Paços, que anda arrendado por dez carros de milho...
Levantou-se ela de golpe outra vez, e exclamou atropeladamente:
– Não dou direito a V. S.a nem mesmo ao sr. Vasco a ofenderem-me. Eu não me aluguei nem me vendi a esse senhor. Também não entrei nesta casa como criada, e por isso não quero ordenado. Já lhe disse que tenho com que viver sem esmolas; e, se precisasse delas, não as pediria ao sr. Vasco. Enfim, eu vou sair imediatamente daqui. Se V. S.a quer tomar conta dos objectos de valor que aí estão, receba as chaves; se não quer, vou entregar tudo com testemunhas ao feitor.
– A menina destempera! – redarguiu o abade. – Ora venha cá, menina! Que necessidade temos nós de levantar aí por essas aldeias uma poeira escandalosa que vai dar pasto aos dentes da calúnia? Lembre-se que tem um filho, e que esse menino pode ser que ainda venha a ser considerado por seu pai. Não rejeite a doação, porque o casal de Paços é um bonito património para o seu filho, se o quiser ordenar; e, quer ordene quer não, é uma legítima que o habilita a casar-se vantajosamente... Pense, sr.ª Tomásia, pense...
– Tenho pensado, sr. abade... Tenho pensado... Vou sair... Que sou eu aqui?... Ó meu Deus! Quem me diria há dois anos!... Como eu vivi enganada... Que ingratidão...
Estas palavras balbuciadas entre soluços romperam a represa das lágrimas. Tomou-se de uma grande convulsão, arquejando, debatendo-se como em ânsias de estrangulada. Rasgava o decote do vestido, expedia gritos histéricos, e resvalava da cadeira ao pavimento quando o abade a tomou nos braços, desmaiada, álgida, e a recostou no espaldar de uma poltrona. Acudiu aos brados uma criada com a criança no colo. Tomásia cravara os olhos pávidos no filho; mas parecia fitá-lo com o íris imóvel como na amaurose. A criada chegava-lhe a criança ao rosto, e com alto choro perguntava se a senhora tinha morrido.
O abade, que só conhecia os ataques levemente nervosos de algumas confessadas, estava assustado, confuso e compadecido.
– Mal hajam os vícios, mal hajam as paixões! – murmurava o egresso, tomando- -lhe o pulso, com o receio de ter sido o portador da morte àquela pobre mulher que deixava orfanado um filho de quinze dias.
A mulher do feitor, que havia sido criada da fidalga, mãe de Vasco, senhora histérica, disse que conhecia aquela doença que atacava a sua ama, quando se afligia com o fidalgo por causa das fêmeas. (Em Basto – permitam o parêntesis – as mulheres que motivam desmaios nas damas casadas chamam-se fêmeas. Parece que a intenção é aviltá-las à baixa condição das espécies em que há machos).
– Vamos levá-la para a cama – disse ela –; é preciso desapertá-la e pôr-lhe a cabeça bem alta. Janelas todas abertas, e vinagre na testa com água fria, e sinapismos bem fortes nos pés. Ajude-me a levá-la, sr.ª Rosa.
– E o menino? – disse a criada.
– Dê cá o menino – acudiu o abade.
– V. S.a não o deixe cair – recomendou a Rosa.
– Você é tola, mulher! Eu deixo lá cair este passarico!

fernandacarneiro52@hotmail.com



Por: Fernanda Carneiro

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