Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-04-2009

SECÇÃO: Opinião

foto
O 25 de Abril de 1974

Saliento a detenção do Capitão Maltez Soares, comandante da 3ª divisão da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, entre outros, que foram levados para a prisão de Caxias, onde foram torturados. Este Capitão após ter sido posto em liberdade, faleceu dois dias depois, vítima de tortura enquanto esteve preso.
A 25 de Abril de 1974, o movimento das forças armadas libertou Portugal da ditadura, iniciou uma viragem histórica da sociedade portuguesa e abriu caminho rumo à democracia. No entanto foi no dia 11 de Março de 1975 que trouxe as nacionalizações em massa. Foi também aí que se gerou a constituição e o “caminho para o socialismo”. Foi aí que começou o grande ataque ao poder desencadeado pelo Partido Comunista.
Ou seja, a ideia que na altura fizeram passar de se tratar de uma tentativa de golpe de estado da direita portuguesa não passou de ficção. Por isso lhe chamaram a “Inventona”. É que aquela foi a melhor forma de, à custa da direita que estava desorganizada, sem liderança e absolutamente incapaz de se movimentar e o Partido Socialista sozinho também não conseguia impor-se à investida daquele partido apoiado pelas forças militares revolucionárias comandadas pelo Otelo Saraiva de Carvalho, inofensivas numa palavra, a esquerda radical e fundamentalista se apropriar da revolução e acelerar o processo revolucionário que encaminharia Portugal para um regime totalitário à esquerda. Ao serviço do bloco de leste que tinha forte implantação no movimento. A esta distância os que o viveram intensamente e sentiram já são capazes de se rir do que passaram. Mas não esquecem. É que em relação a esta fase da nossa revolução há como que uma espécie de tabu em que todos parecem querer ignorar e esconder o que se passou.
Para a memória não se deve ocultar o comportamento de quem detinha os comandos do país e permitiu a tortura desenfreada a quem não era da cor política. As sevícias, os mandados de captura em branco para serem executados a bel-prazer dos agentes da revolução no terreno, como eu presenciei, com o mais despudorado alheamento do poder político que virava a cara para o lado. Saliento a detenção do Capitão Maltez Soares, comandante da 3ª divisão da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, entre outros, que foram levados para a prisão de Caxias, onde foram torturados. Este Capitão após ter sido posto em liberdade, faleceu dois dias depois, vítima de tortura enquanto esteve preso. Os familiares e amigos deste oficial no dia do seu funeral reiteravam este motivo pela sua morte.
A propósito, fiquei a saber que o General Pinheiro de Azevedo mandou fazer um relatório sobre as perseguições e sevícias ocorridas no sentido de o Estado assumir as suas responsabilidades desses despautérios. Muitos foram os que prestaram depoimento para esse documento. Quase todos acabaram perseguidos por ameaças de morte e foram mesmo vítimas de atentados à bomba. Infelizmente exemplares do relatório nunca existiram para consulta pública. No meu entender foram destruídos, para não se conhecerem os agentes activos daquelas práticas.


A caminhada rumo ao socialismo


No dia 25 de Abril de 1974, após o derrube da ditadura, surgiu a Junta de Salvação Nacional, a qual acumulou poderes presidenciais e ministeriais, presidida por António de Spínola até 15 de Maio de 1974, seguida da seguinte governação:

I Governo Provisório: a 16 de Maio de 1974 tomava posse este Governo presidido por um democrata moderado, o advogado Adelino da Palma Carlos. Integrando no seu governo representantes das principais forças políticas da oposição - da esfera comunista à democrata liberal. No seu programa de governo tentou nas suas linhas de rumo um Portugal na busca de uma sociedade nova, mais justa para todos os portugueses. A 8 de Julho de 1974 é formado o comando operacional do Continente (COPCON) e Otelo Saraiva de Carvalho, seu comandante, utilizando-o no período revolucionário como instrumento político-militar das forças mais radicais. A queda deste Governo está relacionada com divergências entre Spínola e o M. F. A. sobre o processo de descolonização e outros factores. Palma Carlos pede, então, a sua demissão.
II Governo Provisório: este governo presidido pelo General Vasco Gonçalves, iniciou funções em 18 de Julho de 1974, procedeu às primeiras nacionalizações nomeadamente do Banco Nacional Ultramarino e Banco de Angola.
III Governo Provisório: o General Vasco Gonçalves, prosseguiu na governação do país até 26 de Março de 1975. Foi neste governo que foi criado o conselho da Revolução substituindo a Junta de Salvação Nacional e o Conselho de Estado. São decretadas nacionalizações nos sectores mais importantes da economia portuguesa como: “Banca, seguros, transportes, cimentos, petróleo, indústrias químicas e siderurgia”.
IV Governo Provisório: presidido também pelo General Vasco Gonçalves, o qual esteve em funções até 8 de Agosto de 1975. São desta época as primeiras ocupações de terras no Alentejo e Ribatejo. Foi a célebre reforma agrária.
V Governo Provisório: também presidido pelo General Vasco Gonçalves, manteve-se em funções até 25 de Setembro de 1975. Neste Governo só tinha representantes do MDP/CDE, PCP, independentes e militares. As divisões entre militares agudizaram-se. Aos militares revolucionários opunham-se os militares moderados, em que recusavam a sociedade socialista de influência soviética. Em suma: o II, III, IV e V Governos Provisórios, presididos pelo então Coronel, depois Brigadeiro e finalmente General Vasco Gonçalves, cobrem um período particularmente agitado da vida política portuguesa, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Em termos genéricos, este período ficou largamente conhecido por “Gonçalvismo” e o verão de 75 por “Verão Quente”.
VI Governo Provisório: este governo iniciou funções em 25 de Setembro de 1975, presidido pelo General Pinheiro de Azevedo, largamente apoiado por PS, PSD e comedidamente pelo PCP. Os conflitos políticos agudizaram-se com a ocorrência de ataques a sedes de sindicatos e partidos da esquerda comunista e revolucionária e com o cerco feito à Assembleia Constituinte, hoje Assembleia da República. A 25 de Novembro de 1975, foi o dia da verdadeira revolução, ocorreu o confronto entre militares mais radicais e os mais moderados. Com a vitória dos segundos o país pôde encetar um período de maior acalmia, estabilidade política e recuperação da economia. Foi nesta data que iniciou a caminhada rumo à estabilidade e ao verdadeiro socialismo que vivemos hoje. Nasceu a III República iniciando-se o ciclo dos governos constitucionais democraticamente eleitos, apesar do nosso país viver este espaço de tempo de muita insegurança e destruição da nossa economia.

Por: Manuel Sousa

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.