Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-04-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO NÃO MEXE

(cont. 12)

O comandante da companhia parou mesmo à sua frente, voltado para o recruta que ocupava o lugar homólogo do seu, na primeira fila, e colocando a mão direita por baixo do queixo do rapaz, olhando-o nos olhos, disse:
- Vai fazer a barba. Tens cinco minutos para voltares aqui ao teu lugar.
O visado era um rapagão da altura do Zé, mas com dez ou doze quilos de peso a mais, isto é, devia pesar uns setenta quilos, era de Macedo de Cavaleiros e também não tinha qualquer pelo de barba que se visse, era bolachudo de rosto e tinha as faces rosadas, mesmo vermelhas. Não tinha gillette, nunca a tinha usado e não sabia, por isso, lidar com tal instrumento de barbear. Mas, na tropa, era assim. Tinha que se desenrascar. Passou pelo soldado pronto da arrecadação e pediu-lhe a sua gillette, era uma emergência e aquele cedeu-lha. Do mal o menos, podia ter sido pior. Passados os cinco minutos, apresentou-se, pedindo licença ao comandante do pelotão, o Aspirante Sérgio de Andrade, para ocupar o seu lugar. Parecia um “Cristo”, trazia a cara toda a deitar sangue, que limpava, com o lenço de bolso, de cor azul, o qual parecia já um fragmento da bandeira nacional. Alguns dos camaradas de formatura comentaram em surdina: «já que não tinha barba, cortou a pele, para fazer prova de que cumprira a ordem».
O Capitão, que entretanto prosseguira a revista, passando do quinto para o sexto pelotão, onde terminaria, deu ordens a cada um dos comandantes de pelotão para que fossem mandando destroçar, à medida que todos aqueles que foram mandados para trás tivessem regressado aos respectivos lugares na formatura.
Os três camaradas do “condomínio” do Zé foram todos passar o fim-de-semana a suas casas. Dos cerca de duzentos e cinquenta soldados que ocupavam aquela caserna, apenas ali ficaram, naquele fim-de-semana, que era o primeiro, uns vinte ou trinta. O Zé aproveitou para descansar. Na verdade, dada a sua fraca robustez física, encontrava-se verdadeiramente cansado, quase exausto. Durante todo o dia de sábado apenas saiu da caserna para as refeições, que também eram mais calmas. Todo o tempo disponível passou-o deitado em cima da cama do Juvenal, que era aquela que ficava mesmo por baixo da sua. Nestas ocasiões, estava-se melhor numa das camas do andar de baixo, era mais recatado.
No domingo de tarde ensaiou a primeira saída pela cidade. Saiu a porta de armas, virou à direita e desceu todo o percurso da estrada onde, dentro de cinco ou seis semanas, iria decorrer parte das provas do circuito automobilístico que tinha o nome da cidade, o circuito de Vila Real. Subiu a Avenida Carvalho de Araújo, passou em frente do campo do Calvário, lembrou-se, quando em Novembro de 1964, portanto cerca de ano e meio antes, ali estivera, integrado no grupo que se dirigia para a Casa de Saúde da Timpeira, para tirarem a radiografia com vista ao ingresso nos trabalhos da construção da Barragem do Vilar, no Rio Távora, em Moimenta da Beira.
Passou adiante, pelo Largo de Santa Iria, desceu a rua estreita ao lado do muro do quartel, entrou a porta de armas, fazendo uma ligeira vénia ao sentinela que ali estava, na posição de “à vontade”, com a coronha da mauser pousada no chão, ao centro do intervalo formado pelas duas pernas, que mantinha abertas, em conformidade com aquela posição (de estar à vontade) e segurando a arma pelo último terço superior do respectivo cano.
Já depois de ter transposto a porta de armas, cruzou-se com o sargento de dia a quem fez a continência, como mandavam as regras, aquele correspondeu do mesmo modo, sem dizer palavra. Regressou à caserna. Tinham-se passado três horas de passeio e estava na hora do rancho que, como todos os dias, era às seis da tarde. Deitou-se às nove horas. Apercebeu-se de que, até à meia-noite, a maioria dos camaradas foram chegando. Dos três, do seu “condomínio”, chegou o Pinto que vinha de Amarante, e o Silvestre que vinha do Porto. O Silvestre, embora fosse natural de uma freguesia do concelho de Baião, fora passar o fim-de-semana ao Porto, onde tinha uma namorada de conquista muito recente. O Juvenal viria a entrar na manhã de segunda-feira, quando eram seis horas, viera de carro ligeiro, directamente da sua terra, em Montalegre.


***

Na segunda semana, para além da ordem unida, foi dado início aos exercícios tanto de ginástica, como de aplicação militar. Quer os exercícios de ginástica, quer os de aplicação militar, eram casos bastante mais sérios de dureza e exigência física, do que aquilo que era a ordem unida. Os primeiros eram praticados em fato de ginástica e decorriam à primeira hora, logo a seguir à formatura geral. Os segundos decorriam nas horas seguintes, não estava definido um número fixo de horas para este tipo de instrução, dependia da organização estabelecida pelo respectivo comandante, mas variava entre uma e duas horas, nunca ultrapassava as duas horas, não havia ser humano que aguentasse.
A ginástica era ministrada na parada e a aplicação militar decorria no campo de obstáculos. O campo de obstáculos era aquele espaço que ficava mais a sul de todo o recinto do quartel, junto do muro que confinava com o Largo de Santo Iria e o cemitério da cidade.
Digamos que o campo de obstáculos dispunha de todo um conjunto de mobiliário fixo, próprio para a prática de todas as modalidades, que se prendiam com o exercício da aplicação militar. A sua área deveria corresponder um pouco mais ou menos a meio campo de futebol e o referido mobiliário constava de: uma malha de arame farpado, que cobria um espaço de cerca de cinquenta metros quadrados, isto é, uns dez por cinco e com a altura aproximada de trinta centímetros; uma paliçada, em madeira, com cerca de metro e meio; um muro, de betão, também com cerca de um metro; uma espécie de pórtico, quadrado, com seis a sete metros de altura e de onde pendiam diversas cordas; um tronco de árvore, ao alto, com um galho saliente; e um espaço com vários cubos de meio metro de altura, dispersos desordenadamente, por onde se fazia uma espécie de gincana, saltando de uns para os outros e onde não raras vezes se errava o pé, tendo como resultado um trambolhão com as evidentes consequências.

(continua)

Adriano Tormentelo

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.