Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-04-2009

SECÇÃO: Opinião

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ARTES E OFÍCIOS

Os Pedreiros

Os velhos pedreiros de Cavez que outrora foram uma classe dominante de grandes profissionais na arte de trabalhar a pedra e em reconhecimento aos seus méritos, a freguesia com toda a justiça mandou erguer em sua honra um momento original no Souto da Aldeia, perpetuando assim a memória desses valorosos trabalhadores.
Entre eles destacou-se o mestre Manuel Joaquim Teixeira, (meu avô), que ao meu tempo parece ter desbaratado uma pequena fortuna, em parte devido às suas convicções políticas. Fervoroso defensor da monarquia, grande admirador de Paiva Couceiro, companheiro leal e seguidor do famoso Pe. Domingos que foi nesta região um combatente acérrimo da continuação da causa monárquica.
O mestre Manuel Joaquim, juntamente com os seus filhos entre eles o Sebastião que era o meu pai, foram os autores de algumas obras emblemáticas nomeadamente a casa do Loureiro. O cruzeiro do Pedral, a estrada e ponte que liga Agunchos a Asnela, o muro do Cemitério, e a estrada que liga a EN 206 a Moimenta.
Nasci portanto no seio de uma família de pedreiros de que muito me orgulho, dado que eram homens honrados, trabalhadores e sabedores do seu ofício.
Nesses tempos não havia muito por onde escolher salvo raras excepções ou se era pedreiro ou cavador de enxada. E foi a pedra que fez deles homens valentes de temperamento rijo, tão rijo como o granito que eles próprios trabalhava. Era uma profissão ao tempo penosa, dura e até cruel, mas não havia volta a dar, as famílias clamavam por sustento. Os ordenados nessa altura rondavam os três escudos, estou recordado de ter ouvido falar disso. Os mestres como era mais tarde o caso do meu pai que começou a ajustar obras por sua conta estavam um pouco acima dessa situação, mas seja como for eram sempre tempos difíceis.
Foi a partir daí que comecei a entender embora muito pequenito a luta pela sobrevivência que essa gente travava diariamente. Era tudo feito à força do braço. Os furos eram feitos manualmente por brocas e marretas, os blocos rachados através de guilhos e martelões, a pedra deslocada em roletas de madeira e carregado por varais, a grua eram três eucaliptos ou pinheiros ao alto e içada por cordas e roldanas era tudo uma questão de engenho cantando e falando com as pedras, “ou pedrinha ou “.
Muitos desses homens viviam no limiar da miséria. Não propriamente "Os Miseráveis" de Vítor Hugo, mas os nossos miseráveis. De manhã muito cedinho lá iam para o monte cortar pedra. Enfiados numa velha samarra, chapéu desabado, nos pés umas pesadas chancas soladas a pneu, calças tão remendadas com tantas chapas que já ninguém sabia qual o pano primitivo. Picos às costas, mãos rebentadas e na sacola da fome pouco mais que uma mão cheia de nada. Uma cebola, um pepino, um tomate, uma laranja e às vezes uma sardinha remelosa assada na ramasca das videiras ou um cibo de bacalhau frito. Comida pobre em calorias e nutrientes para quem tanto puxava pelo corpo. À noite de regresso aos seus tristes casebres quantas vezes com a roupa encharcada que tinha que ser enxuta ao lume para vestir no dia seguinte.
A ceia era quase sempre um caldo de couves ou labrestos com alguns feijões a boiar um naco de broa seca tirada do galheiro e pouco mais. Uma sardinha dava para dois ou três e as batatas quase nunca viam azeite.
Nada de fantasias nesta narrativa. Eu conheci gente a viver assim!... por mal dos meus pecados eram nossos vizinhos e os seus filhos rondavam constantemente a nossa porta porque sabiam que a bondade da minha mãe sempre tinha uns cibinhos de comida para dar a essas pobres crianças. Não são mencionados nomes para não ferir os sentimentos dos seus familiares vivos.
Desde sempre o homem esteve ligado à pedra. Os povos primitivos usavam as cavernas para se proteger das feras e dos rigores do tempo. Habitavam em castros ou debaixo de antas. Começaram depois a fazer abrigos em pedra solta e só quando apareceram as primeiras ferramentas em ferro é que a pedra começou a ser trabalhada até atingir a perfeição total.
Quem visitar o nosso imponente Mosteiro poderá ver dentro e fora peças em pedra trabalhada que são autênticas esculturas. As grandiosas obras em pedra quantos dramas escondem até à sua conclusão final?... Muitos certamente!...

Por: Alexandre Teixeira

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