Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-03-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Ninguém tinha dúvidas, por enquanto, e o Cabo Miliciano Rodrigues prosseguiu:
- Então pá, já que ninguém tem dúvidas… Parece que quem começa a ter dúvidas sou eu… Será que estou a ser tão claro que toda a gente fica a perceber à primeira? Veremos daqui a pouco… Então, já que ninguém tem dúvidas, vamos continuar. Outra posição, esta muito especial, que qualquer militar deve saber assumir com o máximo de perfeição, é a “continência”. Os militares cumprimentam-se fazendo a continência. O gesto parte sempre do militar que tem o posto inferior relativamente aquele com quem se encontra, ou, muito simplesmente, se cruza. O inferior faz a continência e o superior corresponde com o mesmo gesto. Esta posição, a posição de continência, parte sempre da posição de “sentido”, nunca se pode fazer a continência seja a quem for e em qualquer local que se esteja, sem antes se postar numa posição correcta de sentido. A continência faz-se elevando o braço direito na vertical relativamente ao ombro e com a mão bem aberta, os dedos bem estendidos e unidos, com a palma voltada para a frente e a tocar com as pontas dos dedos na extremidade da testa sobre o olho direito. Os esquerdinos, ou “canhotos”, revelarão algumas dificuldades ao ensaiar tais gestos e movimentos, mas, com a atenção que baste, penso que rapidamente se adaptarão ao gesto…
Muito rapidamente, e ainda antes que tocasse para o rancho do meio-dia, iniciou-se o ensaio das vozes de comando para cada uma das posições acabadas de descrever. Desta vez, e dado que o Cabo Miliciano Peixoto tinha um tom de voz mais forte que o camarada Rodrigues, coube aquele, ao Peixoto, dar início a esta nova fase da instrução. De frente para o pelotão, e executando ele próprio todos os movimentos, começou:
- Atençãão, pelotãão, “firme” (toda a gente esticou os braços com a mão direita entrelaçada na esquerda para a frente, um palmo adiante dos testículos). Depois, “cêê…hop” (toda a gente, num gesto único, juntou as pernas e esticou os dois braços, ao longo do corpo, com as palmas das mãos bem esticadas e junto às coxas). A seguir, “direiita voolver” (toda a gente deu um quarto de volta rodando sobre o tacão da bota direita e a biqueira da bota esquerda, e o pelotão ficou voltado para o lado direito com os Cabos Milicianos e o Aspirante à esquerda do mesmo). Finalmente, “deestrooçar” (toda a gente deu uma batida com a bota esquerda no alcatrão da parada e ficou à vontade, desfazendo-se, de imediato, a formatura).
Parecia estar-se em presença de um pelotão verdadeiramente exemplar. Ao fim de três horas de instrução, essencialmente teórica, acabava de sair um ensaio quase perfeito quanto ao modo de formar e destroçar de uma formatura. Formatura que não tem nada a ver com qualquer grau académico. Esta formatura é a designação que se dá a um qualquer corpo de tropas devidamente enquadrado.
Passou-se a hora do almoço e de tarde foi já o início de marcar passo. Era esquerdo, direito, hoop dois; esquerdo, direito, hoop dois; e assim se passaram os últimos três dias daquela primeira semana do mês de Maio.
Na sexta-feira, dia seis, o período normal de instrução terminou quando eram cinco da tarde. Ia ter início o primeiro fim-de-semana. Em princípio, todo o pessoal teria direito a ir passá-lo à sua terra de origem, ou a qualquer outro local das suas preferências. Neste primeiro fim-de-semana, ainda não havia qualquer recruta escalado para ficar no quartel a fazer serviços de faxina. Também não constava que alguém o tivesse que fazer por motivo de qualquer castigo. Ninguém ainda tinha sido punido com o vulgar corte do fim-de-semana.
Havia uma formalidade, que era da competência de cada um dos comandantes de companhia, e se traduzia na obrigação de uma formatura geral, e respectiva revista, antes do início do período de fim-de-semana. Neste particular, o Capitão Granjo de Matos era muito rigoroso e a segunda companhia parece ter sido a única que teve formatura geral obrigatória, logo naquela sexta-feira de início do primeiro fim-de-semana.
De modos que assim foi. Terminado o período de instrução às cinco horas, a ordem foi que haveria formatura geral para revista pelo comandante da companhia, a todo o pessoal, às cinco e meia, quer optassem por sair do quartel, para o que deveriam ter já solicitado a respectiva guia na secretaria da companhia, quer se decidissem por ficar ali durante todo o fim-de-semana.
A verdade era que, para a revista, toda a companhia se devia apresentar devidamente fardada com o fardamento de saída, as botas devidamente engraxadas, a brilhar, e as barbas rigorosamente feitas.
Formada toda a segunda companhia, os seis pelotões ocupavam aquele espaço da parada que fica do lado direito para quem está voltado para o edifício do comando, o Capitão Granjo de Matos iniciou a revista passando pela frente de cada uma das três filas de cada um dos seis pelotões. De vez em quando parava, e via-se, cá do quinto pelotão, que, de quase todos as vezes que parava, havia um militar que saía da formatura e seguia, em passo de corrida, na direcção da caserna.
O Zé, que como sabemos incorporava o quinto pelotão, e que, formando por alturas, se posicionava mais para o lado direito, sendo, porém, indiferente a sua posição em termos de fila, ora ficava na da frente, ora ficava na do meio, ora ficava na de trás. Dependia sempre do processo de reunião em termos de formatura. Neste particular momento, estava na fila do meio e, como já se sabe, ligeiramente para o lado direito. Muito embora não tivesse mesmo nenhuma barba, teve o cuidado de se munir de uma gillette (da mesma forma de que tudo o que era máquinas fotográficas se chamava kodak, também tudo o que era aparelho de barbear se chamava gillette) e tinha rapado, pelo menos, a pelugem branca que tinha no queixo e por baixo do nariz, onde se esperava que, mais cedo ou mais tarde, surgisse um bigode.

(continua)

Adriano Tormentelo

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.