Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-03-2009

SECÇÃO: Opinião

ARTES E OFÍCIO

foto
À medida que os tempos foram mudando, foi-se introduzindo nos nossos hábitos o conceito da modernização duma sociedade de consumo e assim se foram perdendo muitas coisas do antigamente, nomeadamente certas profissões e ofícios. Porém, acresce dizer que nem todas foram extintas porquanto numa escala muito reduzida há uma ou outra que ainda vai resistindo aos tempos modernos e é dessas que vamos falar.
Os Ferreiros

Os ferreiros como sabemos eram ou são os homens que trabalham o ferro, contudo a designação de ferreiro praticamente desapareceu e os mesmos são chamados agora de serralheiros. Mas importa mais falar dos antigos e da forma como dominavam a sua arte que, sendo pesada e suja, era por eles manejada com grande perícia.
As suas oficinas eram normalmente uns cardanhos com pouco espaço muito atacadas com ferramentas, forja, bigorna martelos, tenaz, fole, recipiente com água para temperar o ferro, carvão, obra dos fregueses e muitas coisas mais.
Os ferreiros arranjavam as ferramentas e utensílios da lavoura como; cutelos, fouces, foicinhas, machados, sacholas, pontas dos arados, trempes, espetos para esquiçar o fogo, suportes para caldeiras, gadanhas, grades, portões, portas e todas as ferramentas dos pedreiros e mais uma infinidade de coisas como ramadas e bardos e em tempos medievais até faziam armaduras e armas para os guerreiros. É portanto uma profissão muito antiga e ainda hoje podemos ver nas grandes quintas portões artisticamente trabalhados por esses velhos ferreiros que moldavam o ferro para todas as situações.
Nos meus tempos de rapazote havia em Cavez alguns ferreiros. O Sr. Albino da Trofa, o Barbosa e o Sr. Manuel Pimenta que era nosso vizinho.
Do Sr. Albino pouco ou nada me recordo mas os outros dois recordo-me muito bem e até me ocorre contar alguns factos passados com eles.
O Ferreiro Sr. Barbosa tinha a sua oficina no Outeiro, nos fundos da casa onde vive hoje o Joaquim gato por sinal meu parente. Era um homem perrote, gorducho e mal atracado senhor dum grande bigode do tipo monárquico, assim ao geito de D. Carlos. Vivia em regime de bigamia dado que tinha duas mulheres, a Emília com quem era casado e a Bernardina era a concubina. Além de ferreiro o Barbosa também era barbeiro mas ao que consta um barbeiro mal amanhado. Um dia foi a casa dum respeitável senhor cortar-lhe o cabelo e fazer-lhe a barba e quando se apanhou só na sala e viu uma garrafa que lhe pareceu conter aguardente meteu a garrafa aos queixos e vira abaixo, só que o conteúdo era tóxico e ia mandando o Barbosa para o maneta. Não foi para o maneta, mas foi expulso de casa do dito senhor para nunca mais.
A outra faceta do Barbosa era ser chefe dum grupo de Zés Pereiras ou trampolineiros. Era um gosto ver o Barbosa à frente do seu grupo, metido no seu dolman de boné na cabeça e bigode retorcido com uma moca na mão enfeitada com fitinhas a marcar o compasso dos bombos e das caixas, Rana catrapana pana catrapana pana catrapana pana.
Um dia a mulher do Barbosa morreu!... No dia do enterro e já no cemitério, quando o saudoso Arcipreste Barreto procedia à leitura do último acto religioso antes de fechar o caixão a Bernardina lança-se sobre o caixão da defunta Emília e em grande pranto e desespero teatral pede perdão à finada Emília por todo o mal que lhe causou em vida. Acontece que os presentes incluindo o Padre todos sabiam da história das duas mulheres do Barbosa e toca a fungar um para cada lado num riso mal disfarçado e assim a pobre Emília baixou finalmente à terra fria livrando-se para sempre daquela que lhe havia roubado o marido.
Apesar do espalhafate feito no cemitério pela Bernardina, talvez o seu arrependimento fosse sincero tendo em conta que o povo de Cavez cantava uma cantiguinha que a certa altura dizia; “ O Barbosa a tocar tambor e a Bernardina a espalhar terror.”
Quanto ao Sr. Manuel Pimenta era um ferreiro sabedor do seu ofício, que trabalhava o ferro primorosamente. Tinha a sua casa e oficina em Trás-do-Alto. A oficina era um espaço acanhado onde tinha a forja, a bigorna em cima dum cepo, um grande fole, a água para dar a têmpera, os martelos e outras ferramentas.
Nessa altura eu tinha um arco em ferro que tocava com uma gancheta de arame, mas com as correrias batia com ele nas pedras e partia-o. A choramingar lá ia ter com o Sr. Pimenta que cheio de paciência soldava o arco sem levar nada pelo trabalho.
Quem o ajudava no seu trabalho era a sua mulher Alexandrina, tocava o fole para espevitar o fogo e quando as peças eram grandes malhava o ferro juntamente com o marido de forma calhada. Ele tirava o ferro do fogo com uma tenaz e punha-o em cima da bigorna, pegava no martelo de bola e a Alexandrina no martelo grande e de forma treinada e rápida malhavam o ferro produzindo dois sons, agudo e grave e nós os putos ao som dos martelos ia-mos dizendo “ quero pagar tem tempo – “quero pagar tem tempo” – quero pagar tem tempo”…
O Sr. Manuel gostava da pingota e quando estava com um grão na asa moía a Alexandrina com porrada, mas esta quando elas lhe caiam nos fagotes largava martelo, fole e tudo e fugia para nossa casa galgando os calços dumas leirotas que separavam as nossas casas. A minha mãe lá lhe punha a asa por cima até que a tempestade se fosse.
O Abílio era filho deles e muito queria namoriscar a minha irmã Palmira mas ela não lhe ligava pevide.!... Então o Abílio para a conquistar punha-se a tocar sanfona nas tais leirotas debaixo duma oliveira, tari tari tari tum e não passava disso o que irritava o meu pai solenemente que ia sempre dizendo!.. lá está aquele gajo a tocar a música do “caga cão”…

Por: Alexandre Teixeira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.