Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-02-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 10)
Ninguém abriu a boca. Muito embora se notasse, perfeitamente, pelo semblante de todos e de cada um, que as dúvidas eram mais que muitas. A verdade, porém, foi que ninguém arriscou a questionar fosse o que quer que fosse. E o Cabo Miliciano Peixoto continuou:
- Muito bem. Vê-se, perfeitamente, que ninguém tem dúvidas (a ironia era mais do que evidente!). Então, continuando ainda com os postos cá do pessoal da tropa, temos, a seguir à classe dos Oficiais Superiores, a classe dos Oficiais Generais. Esta comporta duas designações, e a sua identificação é por estrelas que são fixadas sobre uma base vermelha. Ah! Não foi referido há pouco, pelo Cabo Miliciano Rodrigues, que as bases, aquelas placazinhas de tecido, onde são colocadas as divisas ou os galões, cujo nome técnico é “platinas”, são também de cores e de tecidos diferentes, em conformidade com cada uma das classes. Assim, as platinas das divisas dos Cabos e dos Sargentos são da cor do respectivo fardamento e as platinas dos galões de todas as classes de oficiais, tanto podem ser da cor do próprio fardamento, como podem ser de cor preta. E, como dizia, as platinas das estrelas dos Brigadeiros e dos Generais são vermelhas. O Brigadeiro tem duas estrelas, e o General tem três estrelas. No que respeita aos Generais, estes podem ter ainda quatro estrelas, quando possuem o Curso de Chefia de Estado-Maior.
Passada esta última parte da prelecção, relativa aos postos e à forma como eram identificados, isto é, divisas, galões e estrelas, feita pelo Cabo Miliciano Peixoto, e ainda durante esta segunda hora de instrução, houve já alguns recrutas, um pouco mais destemidos, que começaram logo por questionar. O primeiro, que se identificou pelo respectivo número de matrícula e acrescentou chamar-se Rogério Pinto Leite, ser natural de Boticas e estar empregado num restaurante em Lisboa, no Bairro Alto, há quatro anos, até ao dia em que veio para a tropa, pediu a devida autorização ao Cabo Miliciano Peixoto e questionou:
- Nosso Cabo Miliciano, (já se sabia que os cabos eram tratados por “Nosso” e que, a partir de Furriel, o tratamento que partisse de qualquer inferior era por “Meu”). Foi por isso que o Rogério de Boticas disse: - Nosso Cabo Miliciano, eu, como já referi, tenho estado em Lisboa, por um período de um pouco mais de quatro anos e tenho verificado que é muito perigoso para todo aquele que ouse, em qualquer circunstância, pronunciar a palavra “camarada”. Eu nunca fui incomodado, mas tenho conhecimento de que há quem tenha ido parar à PIDE só porque tratou alguém por camarada, dizem que a PIDE entende que todos os que assim falam são comunistas. E o Nosso Cabo Miliciano acaba de nos dizer que, de ora em diante, aqui nos deveremos tratar, a todos, por camaradas. Não lhe parece estranho…
- De facto assim é, amigo Rogério. Lá fora é preciso ter algum cuidado. Mas a tropa é uma instituição muito antiga, e esta forma de tratamento, entre militares, é muito anterior à existência, entre nós, diga-se em abono da verdade, de quaisquer conotações terminológicas de carácter político e ideológico. Portanto, por muito que custe ao regime, na tropa tratamo-nos por camaradas. Colegas são, como há bocado dizia o Nosso Cabo Miliciano Rodrigues, as “putas”… Satisfeito?
- Sim, sim, muito obrigado, Nosso Cabo Miliciano Peixoto – respondeu o recruta que vinha de Lisboa e era natural de Boticas.
Terminara, entretanto, este segundo período de instrução e, ao fim do respectivo intervalo de dez minutos, deu-se início ao terceiro e último antes da hora do rancho do meio-dia, em termos civis, a hora do almoço. Passou-se para a formatura e iniciação à ordem unida.
Foi o Cabo Miliciano Rodrigues quem deu início aos trabalhos:
- Meus senhores, vamos lá a formar como deve ser – estendeu o braço esquerdo à altura do ombro e com o braço direito estendido à mesma altura, formando um ângulo recto com os dois braços estendidos e levantados, voltado para a parte central da parada, continuou:
- Vamos lá, a três, daqui para acolá. Os mais baixos primeiro, os mais altos a seguir, como quem forma uma rampa. Correcto? Pá…
Depois de devidamente alinhados, em três filas, separadas entre si pela distância de um passo, os dois Cabos Milicianos à frente, a uns três ou quatro passos, o Aspirante Sérgio de Andrade a uns dez metros de distância, para quem o observasse numa linha enviesada a partir da extremidade do lado direito do pelotão, o Cabo Miliciano Rodrigues, depois de dar dois passos na lateral, para o lado direito, começou a exemplificar as posições como se deve estar numa formatura:
- Primeiro, a posição de “à vontade” que é com o tronco direito na vertical, as pernas ligeiramente abertas, quarenta a cinquenta centímetros, dependendo da altura do individuo e os braços para a frente com a mão direita sobre a esquerda entrelaçadas pelos dois dedos polegares. Esta é a posição correcta de “à vontade”, pá. Depois, a posição de “firme” que é exactamente a partir da posição anterior, mas com os braços esticadas para diante a uma distância de cerca de quinze centímetros para a frente dos “tomates”, ou dos “quilhões” (colhões), se preferirem. Notem que esta segunda designação é bastante mais própria para o nosso meio, na tropa quer-se gente com “quilhões” bem grandes. A seguir à posição de “firme” vem a posição de “sentido”, que é com as pernas unidas e alinhadas pelos tacões e pelas biqueiras das botas e os braços esticados ao longo do corpo, com as palmas das mãos bem abertas, bem esticadas e bem juntas às coxas.
O Cabo Miliciano Rodrigues fez uma pausa e questionou:
- Dúvidas? Militares, alguém tem dúvidas, pá?

(continua)

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