Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-02-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Angélica Florinda (II)

Às perguntas insistentes de Frei Plácido sobre Angélica, respondia Frei João: “Ai!, senhor! (…) Tenho muito que lhe contar…aqui não…amanhã pelo caminho”. Deixemos o pobre Frei João entre soluços e demos a palavra a Camilo:
“Frei Joaquim do Sepulcro fora apanhado fulminantemente pela formusura da rapariga (…). O amor rebentou como postema na arca do largo peito de Frei Joaquim (…) Viu Angélica de perto, mais adorável, mais estimulante (…) o sitio era deserto, no recosto dum pinhal, onde a pegureira vigiava o gado. Angélica, mais irada que temerosa do insulto, lançou mão da tamanquinha ferrada e prometeu cambiar com ela as carícias do frade.” Prometeu-lhe a mão de marido, obtida a dispensa do padre Santo. Ela Retorquiu: - “Estou aqui estou a dar-lhe com uma pedra na cara. Vá-se com Deus ou com o diabo, e não me apareça mais!”. “ (…) Frei Joaquim gizou um rapto, no estilo do século XII: um assalto de servos da Gleba com alabardas, uma invasão ao santuário da família, o travar da moça chorosa, assentá-la no arção da sela, cingi-la bem aconchegada do peito, e transmontar vales e montes à desfilada.” (…) Ao mesmo tempo, como a filha de Franscisco da Teresa se queixasse do atrevimento do frade fidalgo, alvoroçaram-se os ânimos do boticário, do escrivão das sisas e do mestre-escola. O boticário, que era liberal (…) invectivou contra a desmoralização dos frades, exemplificando-a com o facto de se andar em trajes venatórios um monge bento apalpando Angélica e solicitando-a com prometimentos absurdos.
A botica constituiu-se atalaia diurna e nocturna donde a honra da moça era vigiada. Conjuraram neste zeloso conluio os três émulos”. (…) Os parentes do frade, vizinhos da casa do Picoto, haviam prometido ajudá-lo no rapto. Um dos servos convidados para o assalto, como devesse obrigações ao boticário e lhe soubesse do afecto à rapariga, segredou-lhe o plano dos fidalgos e a noite da escalada”.
(…) Às nove horas duma noite de Janeiro a jolda acaudilhada pelo frade acercou-se da casa do lavrador. Apenas apearam dos cavalos e se encaminharam para o quinteiro, o sino e a sineta da igreja paroquial tocaram a rebate ao compasso da arcabuzeria do bando do boticário, que se desemboscara do mato, em grande algazarra”.
Frei Joaquim do Sepulcro e os seus debandaram à rédea solta, por aqueles barrocais abaixo, sentindo perdida a vida se os defensores de Angélica os apanhassem.
***

Ao ouvir da boca de Frei João as peripécias do rapto abortado de Angélica, Frei Tomás de Aquino encheu-se de fúria. Viu que os dois frades inimigos o ouviam. Saíram para tirar desforço.
“Desceu o pau. Frei Tomás moveu a um lado a cabeça e recebeu a bordoada no ombro esquerdo. Entretanto, com a mão direita, escondida no hábito, arrancou dum punhal e cravou-o duas vezes no peito de Frei Joaquim. O sobrinho do abade gritava e fugia. O filho do marquês apalpava-se e despia o hábito”.
A gritaria foi medonha. Acudiram outros frades que prenderam Frei Tomás de Aquino.
“Dois dias depois, como a causa cabia a superior jurisdição, Frei Tomás de Aquino foi enviado a Tibães escoltado por doze milicianos”.
Inicia-se a devassa. As punhaladas tinham sido benignas e o “ferido não dava receios”. Mas as testemunhas não foram sérias. Mesmo assim Frei Tomás de Aquino diz simplesmente em sua defesa: “O réu Frei Tomás de S. Plácido não tem que opor ao libelo acusatório que contra ele apresenta o M.R.P. Promotor Fiscal”.
E a sentença chegou inapelável e cruel: (…) e o condenamos a que o ponham com os pés no tronco até ao 1º dia do capítulo, e daí o tirarão e levarão ao capítulo diante do convento, despido da cinta para cima, deitado o escapulário sobre a carne, e dois molhos de varas à maneira de cruz diante de si, e como entrar proste-se diante do prelado, e sendo dele repreendido, afeando-lhe seu crime e escândalo que deu assim ao convento como a quem o soube, mande a quem lhe parecer que tome um molho daquelas varas e lhe dê uma disciplina que a sinta; e dali o tornarão ao tronco, e comerá pão e água sómente, e estará preso um ano; findo o qual terá por cárcere as claustras altas, e se meterá na sua cela sem licença de falar com nenhum, e andará o derradeiro no convento, e não levantará no coro salmo, nem antífona, nem dirá verso, nem terá nenhum ofício, nem voto em nenhuma eleição, enquanto o seu prelado por misericórdia lhe não levantar a pena”.

***

Mas algo aconteceu. Milagre? Acto do demónio? Um frade de Tibães conta a história, como diz Camilo:
“Refere ele, pois, que o energúmeno colegial de Refojos sentenciado a um ano de cárcere e tronco, de jejuns e disciplinas, na véspera do dia do capítulo em que havia de ser chibatado, segundo a sentença, desaparecera do cárcere, sem ter saído pela porta nem pelo postigo cujos ferrolhos estavam fechados. Amplia o frade a diabólica magia da fuga, contando que um monge muito espiritual e contemplativo, estando na mesma noite, 15 de Junho de 1829, na janela do seu cubículo, adorando os orbes luzentíssimos do Senhor que recamavam o céu, ouvira uma pancada soturna imitante à irrupção do demónio que rompesse a casca do globo, comunicando as trevas inferiores com o mundo subsolar. Remata Frei Barnabé escrevendo que ao outro dia o leigo acostumado a ministrar água e pão ao preso fora à casa do dom abade-geral dar parte de que Frei Tomás não estava no cárcere, nem deixara diminuto vestígio de fuga”.
Aqui está compendiado o caso que Frei Barnabé de Santa Gertrudes relata em quinze páginas de folha, debaixo desta epígrafe:
“De como um frade pactuado com o demónio foi arrebatado em corpo e alma, do cárcere deste mosteiro de Tibães, pelo Anti-Cristo, na noite de 15 de Junho de 1829”.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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