Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Cultura

NO LUGAR DO SAMÃO
FESTAS DE S. SEBASTIÃO NO SAMÃO “PAPAS” SERVIDAS SOBRE UM MANTO DE NEVE

Apesar do período de Inverno em que anualmente se realizam as “Festas das Papas” como popularmente são conhecidas, não é habitual encontrarmos condições climatéricas tão adversas como as que encontrámos este ano no Samão, no passado dia 20 de Janeiro. Com efeito, ainda a madrugada vinha longe e os habitantes do lugar ultimavam os preparativos para a “refeição”divina” que se iria servir mais tarde a toda a gente no Campo Santo, já um intenso nevão se abatia sobre a região, situação que se manteve ao longo de quase todo o dia.

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Mas nem por isso se deixou de fazer tudo o que a tradição manda naquelas Festas em honra do Mártir S. Sebastião, o padroeiro “que nos livra da fome, da peste e da guerra”.
Manhã cedo, antes mesmo de alguns se dirigirem ao leito para recuperar algumas forças, já tudo se encontrava pronto a servir, num ritual de características únicas, um misto de religiosidade e lenda cujas origens se perdem na memória dos tempos.
Os primeiros a marcar presença, foram os naturais ausentes, aqueles que em tempos, a necessidade obrigou a partir para outras paragens, do país ou do estrangeiro, à procura de melhores vidas e de algum pecúlio. Foi-se-lhes o corpo, mas ficou-lhes a alma, que os trás de regresso ao seu torrão natal todos os anos neste período, para matar saudades e também para contribuir e ajudar nos afazeres os poucos que restam naquela aldeia.
Este sonho mítico de “dar de comer a toda a gente” concretiza-se naquele dia com a confecção e distribuição da “ementa” tradicional previamente benzida num cerimonial religioso intensamente sentido. Centenas de broas de pão misto, à base de milho e centeio, agora empilhadas em cestos de verga, foramcozidas em fornos a lenha, ao longo dos dias que antecedem a Festa. A carne gorda de porco é cozida durante a noite anterior, em enormes potes de ferro, onde de seguida se fazem as papas (com farinha milha cozida com a água onde ferveram as carnes) que, ainda quentes, são repartidas por centenas de tigelas de barro, onde depois resfriam à temperatura ambiente até à sua distribuição; Resta ainda falar do vinho, do “americano “, morangueiro da terra, vertido da pipa para canecas e malgas de barro, manchando em salpicos de sangue o manto branco que cobria o vasto Campo Santo.
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Assistimos ainda à missa e ao sermão na Igreja local que este ano não encheu.
- Faltaram as camionetas! -, Dizia-se. Mesmo assim, as ruelas da aldeia encheram-se de gente e os lameiros mais próximos que a neve branqueou, converteram-se em parque de estacionamento para muitos automóveis.
Na Casa do Santo, onde se confeccionaram as" iguarias", assistimos à bênção do pão, das carnes, das papas e do vinho, e daí se partiu em procissão desordenada, com os géneros transportados à moda antiga, em carros de bois puxados por três “juntas” de gado maronês lindamente engalanadas com campainhas tilintantes penduradas em correias cobertas de arrebiques prateados e dourados.
Assistimos depois ao ordenamento cerimonioso das pessoas em duas filas, com um corredor ao meio, por onde passou o mordomo, de vara em mão, a delimitar espaços, outro a estender a imagem do Santo para o beijo devoto, duas mulheres a abrir o grosso rolo de linho que, depois de estendido em redor do campo, se confundia com a neve. Assistimos largos minutos a espera paciente daquela multidão salpicada de flocos de neve, enquanto aguardava pela chegada da sua vez para provar os alimentos, num gesto de fé, não de fome, com a crença na “mezinha” que protege das maleitas corporais, não só das pessoas como dos animais.
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Por fim, no arrumar dos cestos, ninguém dispensou levar “o carolo”, um pedaço de pão benzido para oferecer aos seus familiares ou distribuir pelos animais de estimação.
Este ano, foi assim. Mesmo com neve, as pessoas do Samão souberam cumprir a tradição mantendo a originalidade dos seus costumes com o bairrismo e espírito comunitário que se lhes reconhece e em respeito pelos seus antepassados. Mérito esse também reconhecido pelos responsáveis do Poder Autárquico, da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal, que apesar da intempérie, acompanharam de perto todo este ritual festivo.
Para o ano, ano par, a Festa das Papas terá lugar em Gondiães e serão certamente merecedoras do mesmo brilho e dignidade.
J.L.

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