Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (99)

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A SACRISTIA VELHA

Eu sei que há, muito naturalmente, um elevado número de pessoas que conhecem, muito bem, aquela parte da Igreja do Mosteiro de S. Miguel de Refojos a que se chamava a Sacristia Velha.
Lembro-me de ouvir o meu pai a falar daquele espaço quando se referia aos tempos em que, quando jovem, com dezasseis ou dezassete anos de idade, fora moço de servir em casa de um dos caseiros da Quinta do Mosteiro.
O caseiro, de que ele falava, chamava-se “O Braguês”. Ele, o meu pai, não sabia ao certo a razão da alcunha, mas que deveria provir, muito provavelmente, do facto de o referido caseiro ter vindo dos lados de Braga para granjear uma das lavouras da Quinta.
Se repararem bem, verão que aquele espaço tem duas entradas: uma que dá para os claustros, mesmo no vértice nascente/sul; a outra que dá para um largo, actualmente um parque de estacionamento, que fica entre o edifício do Mosteiro e o ribeiro. Ainda se pode ver, também, um pontilhão que atravessa o referido ribeiro, fazendo a ligação entre o largo e os quinteiros do casario velho do outro lado, outrora habitações de todo o conjunto de quatro ou cinco caseiros da Quinta.
Ora, no tempo em que “O Braguês” era um daqueles quatro ou cinco caseiros, a divisão a que se chamava Sacristia Velha terá sido utilizada como uma espécie de abegoaria, isto é, terá servido para guardar ali alguns dos utensílios e alfaias agrícolas, como cangas, jugos, cambões, arados, manguais, engaços, gadanhas e muitos outros.
Penso que, ainda hoje, é muito fácil de compreender que o espaço constituído pelo casario (dos caseiros) era demasiado restrito para que pudessem guardar, em boa ordem, todo o conjunto de utensílios e alfaias agrícolas de quatro ou cinco casas de gente de trabalho no campo. O recurso ao espaço da Sacristia Velha para arrumos não repugnará, portanto, coisa por aí além.
O “Braguês” não tinha filhos rapazes. A sua descendência era constituída por um grupo de três vistosas, bem nutridas e simpáticas raparigas. Quem o assegurava, tempos mais tarde, quando eu era já uma criança que compreendia, era o meu pai que, na altura a que este relato se reporta, teria dezasseis ou dezassete anos e as três filhas do “Braguês” teriam entre os vinte e os vinte e cinco. Como é bom de ver, não seriam fruta para o meu pai.
Aconteceu, porém, que as três pensaram em aprender o ofício de tecedeiras. Compraram um tear e lançaram-se na aprendizagem. A coisa feita a três até seria fácil, cada uma daria o seu contributo, e acabariam por aprender sem necessidade de recorrerem a uma mestra. Na casa de habitação, que era uma das da banda, como todas voltada para o quinteiro e para o ribeiro, que passava um pouco mais à frente, não havia espaço para instalar o tear, e a solução foi colocá-lo na sacristia velha, naquela área mais ampla, tipo nave, que fica mesmo em frente do altar, entre as duas alas de armários, que se encontram de cada um dos lados encostadas às paredes.
Durante todo o Inverno, daquele ano em que o meu pai serviu na casa do “Braguês”, os serões das três raparigas foram passados na Sacristia Velha, junto do tear, e o meu pai era convidado para lhes fazer companhia, alegando elas que tinham medo dos santos que se encontravam arrumados, juntos aos cantos, carregados de pó e de teias de aranha. No fim de cada sessão, faziam café, que todos tomavam com broa, fazendo “migota” (migas). O meu pai gostava da iniciativa. Acrescentava ele, ainda, que a mais velha das irmãs, a Maria, uma vez ou outra, lhe dava uns apertões. Ele, envergonhado, olhava para o chão.
Também eu, quando tinha seis anos, e frequentava a catequese com todos os que eram da minha idade, ali na Igreja, por mais do que uma vez, quando a catequista, a Senhora Mariquinhas, tinha que se ausentar deixando-nos a sós por alguns instantes e a porta daquele lado estava aberta, nos escapulíamos escadas abaixo, em direcção ao esconderijo, como se fossemos um rebanho de cabritos da raça bravia. O espaço tinha pouca luz, viam-se vultos de razoável porte junto das paredes e eu tinha grande medo.
Como acabo de referir, tinha seis anos e nunca mais lá voltei, ao interior da Sacristia Velha.
E, todo este naco de prosa vem a propósito, e a modos de explicação, para a nota que deixei escrita, no passado dia oito do corrente mês de Janeiro de 2009, no livro de visitas: «Dou os meus parabéns à organização. Desta vez não tive medo…», no final de uma visita guiada pela Dra. Ana Paula Assunção, em que tive a honra de participar, conjuntamente com um grupo de doze convidados, todos empresários das mais diversas áreas de negócio e com estabelecimentos na Praça da República.
Não tive medo, antes pelo contrário, fiquei francamente bem impressionado. Refiro-me, como todos já devem ter reparado, ao Núcleo Museológico do Baixo Tâmega, instalado, muito recentemente, no espaço que tenho vindo a referir como sendo conhecido por Sacristia Velha.
Ali, pode apreciar-se um pouco de quatro das principais áreas da arte: a arquitectura, a pintura, a escultura e o mobiliário litúrgico. Para aqueles que já visitaram museus como o Louvre, o Britânico, ou o Hermitage, acharão, muito naturalmente, pouco. Trata-se, não devemos esquecê-lo, de questões apenas e tão-só, de dimensão. O Núcleo Museológico do Baixo Tâmega, à sua dimensão é, na verdade, um espaço digno de ser visto e apreciado.
Da minha parte, confesso que não sou conhecedor de áreas como a pintura ou a escultura, gosto de ver, direi se acho bom ou menos bom, mas não comento. Quanto à arquitectura, penso que poderei dar opinião minimamente válida. Assim, recomendo que passem por lá e reparem na arquitectura de todo o conjunto desde a pia baptismal, passando pelo lavatório e depois, não deixem de apreciar, muito particularmente, a abóbada.
Não quero terminar este texto sem citar uma frase, de uma das senhoras que integrou o grupo da visita em que participei, dirigindo-se à apresentadora: «Eu via a senhora e não reparava em si, não sabia quem era. Agora, passarei a reparar em si, de modo diferente, e a admirá-la».

Por: José Costa Oliveira

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