Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Opinião

RECORDAÇÕES DA MINHA ADOLESCÊNCIA

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Os caseiros daquele tempo vendiam o vinho que colhiam para comprar pão para os filhos, e quando não tinham vinho para vender, pediam dinheiro aos lavradores mais abastados e quando vendessem qualquer animal iam pagar a dívida em questão.
- Um destes dias ao fim da semana, entendi rever o álbum das minhas recordações e encontrei uma fotografia tirada no final da década de 60 do século passado, já lá vão 40 anos. Fiquei comovido porque os anos passam e mal damos pela sua passagem. Por outro lado fez-me lembrar a fome e os trabalhos forçados a que fui submetido a partir dos 11 anos de idade, altura em que concluí o ensino primário.
- Reportando-me a esta última parte, contava eu 14 anos de idade, morava numa quinta situada no lugar da Soalheira, freguesia de Refojos, concelho de Cabeceiras de Basto, quando fui com o meu pai para o lugar de Agra, concelho de Vieira do Minho, carrear madeira com o carro de bois, onde andei dois meses, naqueles montes com o sol abrasador. O proprietário da madeira, cujo nome não vou revelar, vinha diariamente na sua camioneta pernoitar à sua residência, bem como os restantes trabalhadores. Eu e o meu pai tínhamos de ficar lá para dar a alimentação aos animais à noite e ao amanhecer, ainda o sol não nascera. Este proprietário era um homem culto, educado e amigo dos pobres, e como sabia que nós não tínhamos que comer, nem onde comprar, levava diariamente duas postas médias de bacalhau frito e duas fatias de pão para nós os dois, eu e o meu pai comermos ao meio dia.
A Senhora Emília  de Oliveira a meter o pão ao forno
A Senhora Emília de Oliveira a meter o pão ao forno
- Continuando no referido trabalho até à noite sem comer mais nada, sabendo que só voltávamos a comer no dia seguinte à mesma hora, íamos dormir para um palheiro com a roupa que trazíamos vestida. Vida dolorosa, arrepiante e sacrificada. As lágrimas muitas vezes me correram no rosto, pelo facto de me doer o estômago com fome, mas nunca dei a conhecer ao meu pai o meu sofrimento, porque ele de vez em quando chorava, eu nada podia fazer, ele também sofria porque à fome não se resistia.
- Para esta missão saíamos de casa às 4 horas da manhã de segunda-feira, para chegar ao local de trabalho às 8 horas, para dar início a mais uma semana de dor, angústia e sofrimento, mas com esperança de chegar a sexta-feira à noite e regressar a casa para saciar o estômago que tanto se esgotava.
- Voltando ao início do texto e falando da fotografia que localizei, mostra uma cozinha degradante, flugenta e com o chão em terra batida, a qual fazia parte integrante de uma casa onde viveram diversos caseiros nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado. Mostra ainda a Sr.ª Emília de Oliveira, esposa do Sr. Inácio de Araújo, ambos falecidos, numa difícil e muito trabalhosa tarefa que era cozer o pão. Embora fosse ela que tivesse de realizar toda a vida de casa, porque todo o agregado familiar se dedicava exclusivamente no trabalho do campo, podemos vê-la descalça e com um sorriso e boa disposição. Esta fotografia mostra também os utensílios de cozinha que se usavam naquele tempo, mas o mais impressionante é ver a maceira, onde se amassava o pão, forrada na parte da frente com um simples pano e na parte superior com papel de jornal. Era nesta situação que viviam os pobres caseiros, e ainda sem água e sem luz. Os caseiros daquele tempo vendiam o vinho que colhiam para comprar pão para os filhos, e quando não tinham vinho para vender, pediam dinheiro aos lavradores mais abastados apesar de haver poucos e quando vendessem qualquer animal iam pagar a dívida em questão.
- Em conversa formal com alguns jovens sobre os factos de que faço referência, tirei conclusões diferentes: uma boa parte lamentou as dificuldades e o esforço exagerado para se viver naquele tempo; enquanto que outros disseram que o que eu estava a dizer não era verdade porque não se podia viver daquele modo. A minha educação apesar de ofendida manteve-se inabalável, mas referi: “Vivemos numa sociedade livre e solidária e só espero que o 24 de Abril de 1974 não volte ao nosso país”.

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