Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 9)
O Cabo Miliciano Peixoto, que acabara de ser indicado pelo comandante do pelotão para dar início aos trabalhos, exactamente por ser mais antigo na tropa do que o seu colega, o Cabo Miliciano Rodrigues, começou assim:
- Meus Senhores, como todos sabemos, hoje é quarta-feira, e vocês já andam por aqui desde antes de ontem, melhor dizendo, desde segunda-feira, mas, efectivamente, é hoje o vosso primeiro dia de tropa, e esta é a vossa primeira hora de instrução, não é verdade?... Pois bem, a primeira nota que queremos que fique bem assente nas vossas cabeças é de que aqui, e de hoje em diante, todos passamos a ser camaradas. Muita atenção! Aqui não há colegas. Colegas são as “putas”. Quando vamos às “putas”, ou quando as ouvimos falar umas com as outras, é que se nota muito frequentemente esse tipo de vocabulário. Entre elas é: “a minha colega, isto, a minha colega, aquilo, e etc., e etc.” Aqui a palavra colega não existe, nós somos todos camaradas uns dos outros. Entendido, meus Senhores?…
Todos os setenta e cinco rapazes do pelotão acenaram com a cabeça que sim, e o Cabo Miliciano Peixoto continuou:
- Agora o Nosso Cabo Miliciano Rodrigues vai dar-vos uma primeira ideia sobre as denominações de todos os postos da hierarquia militar e quais os sinais que distinguem cada um deles, melhor dizendo, as respectivas divisas e galões de cada qual – e acenou ao Cabo Miliciano Rodrigues para que tomasse a palavra.
O Cabo Miliciano Rodrigues começou então:
- Na tropa temos os seguintes postos, partindo do mais baixo para o mais alto: o soldado, que começa por ser recruta e depois passa a pronto; o Segundo-Cabo; o Primeiro-Cabo; o Primeiro-Cabo Miliciano; o Furriel; o Segundo-Sargento; o Primeiro-Sargento; o Aspirante; o Alferes; o Tenente; o Capitão; o Major; o Tenente-Coronel; o Coronel; o Brigadeiro; e o General. Há ainda o posto de Marechal, mas o facto é que actualmente não há qualquer Marechal, nem no Exército, nem na Força Aérea. Quanto às divisas e aos galões temos o seguinte: o soldado raso não usa qualquer divisa; o Segundo-Cabo tem uma divisa de cor vermelha com o vértice voltado para cima; o Primeiro-Cabo tem duas divisas de cor vermelha com o vértice voltado para cima; o Primeiro-Cabo Miliciano, que ao fim de um determinado período de tempo é graduado em Furriel, tem duas divisas de cor vermelha com o vértice voltado para cima e uma com o vértice voltado para baixo, da mesma cor, que são estas que vêm aqui nos meus ombros; o Furriel tem três divisas de cor amarela com o vértice voltado para baixo; o Segundo Sargento tem três divisas de cor amarela com o vértice voltado para cima; o Primeiro-Sargento tem quatro divisas de cor amarela com o vértice voltado para cima; o Aspirante, que ao fim de um determinado período de tempo é graduado em Alferes, tem um galão, em diagonal, apenas num dos ombros, no ombro direito, como podem ver ali o do nosso Aspirante Sérgio de Andrade; o Alferes tem um galão transversal, isto é, atravessado, há galões largos e estreitos, o galão de alferes é largo; o Tenente tem dois galões estreitos; o capitão tem três galões estreitos; o Major tem um galão largo e um estreito; o Tenente-Coronel tem um galão largo e dois estreitos; e o Coronel, que é a patente máxima em qualquer quartel, é o caso do nosso comandante, tem um galão largo e três estreitos. Depois, vem a classe dos Oficiais Generais… Ah! Que me esquecia!... Todos os postos que acabei de lhes referir estão agrupados por classes: soldados e cabos pertencem à classe de Praças; Cabos Milicianos, Furriéis e Sargentos pertencem à classe de Sargentos; os oficiais de Aspirante até Tenente pertencem à classe de Oficiais Subalternos; os Capitães formam uma classe, que é a classe de Capitães; e os restantes oficiais desde Major até Coronel pertencem à classe de Oficiais Superiores. Já vai longa a exposição, não vai, pá…
Neste momento, já se ouvia o toque da corneta que indicava o fim daquela primeira hora de instrução, eram dez horas, e era o sinal de que iria haver dez minutos de intervalo. O Cabo Miliciano Rodrigues não tinha chegado à descrição dos sinais que identificavam os postos dos Oficiais Generais, ficaria para a próxima hora. Então disse aos recrutas:
- Estão a ouvir este toque? Este toque significa que terminou o período de instrução que estava a decorrer, daqui a dez minutos soará um toque ligeiramente diferente, mas com a mesma melodia, que é como quem diz, a mesma música, é o toque para voltarmos à forma, portanto, têm dez minutos de intervalo para irem aos lavabos, à casa do soldado, ou onde quiserem. Daqui a dez minutos, ao soar do novo toque, todo o pessoal estará aqui, neste mesmo sítio, entendido pá? Ok, vamos lá…
Aqueles dez minutos devem ter sido os mais curtos dez minutos da vida daquelas centenas de recrutas da totalidade dos dezoito pelotões. Ao toque da corneta todos estavam no mesmo sítio de onde há pouco tinham saído. Alguns foram aos lavabos, mas a grande maioria não se arredou mais do que dez ou vinte passadas em redor.
Iniciou-se o segundo período de instrução às dez horas e dez minutos em ponto, e agora foi a vez do Cabo Miliciano Peixoto dar seguimento à prelecção que tinha sido interrompida, pelo Cabo Miliciano Rodrigues, no início do intervalo. O Cabo Miliciano Peixoto prosseguiu:
- Alguém tem dúvidas sobre o que o meu camarada Rodrigues acabou de explanar até à hora do intervalo?
(continua)

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