Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO
Angélica Florinda (I)

“Angélica Florinda era a tentação dos homens e dos anjos”. Vimo-la descer da freguesia de S. Pedro de Alvite, do lugar do Picoto, da casa de seus pais, assente num outeirinho; vem descendo para a Igreja do Mosteiro, nesse domingo de Verão que se adivinha cálido e ardente. Era uma belíssima rapariga de 17 anos: “Alta, reforçada, nalgas e espáduas boleadas, breve cintura separando os tumentes seios das ancas maciças e rotundas, cabelos em ondas lustrosas de azeviche, as sobrancelhas cerradas e indistintas, olhos pestanudos e piscos, dentes de imaculado esmalte, o beiço superior orlado de um debrum penugento, e o inferior carnoso cor de cravelina”. Resumindo diz Camilo: “Eu não sei se este debuxo dá a perceber os mais donairosos, engraçados e louçãos dezassete anos de rapariga do concelho de Cabeceiras de Basto”.
Dezassete anos e já estava prometida a um tio materno, “estabelecido em Pernambuco (…) que a vira, quando veio à terra, tendo doze anos a moça, e prometera vir casar com a sobrinha, assim que ela perfizesse os dezanove”. Este prometimento nada impedia: “os casquilhos do concelho e os lavradores solteiros não desistiam de enviar-se à esposa prometida do brasileiro”. (…) O capitão-mor de Cabeceiras de Basto morria por ela. Dois frades bentos de São Miguel de Refojos, o juiz dos órfãos, o escrivão das sisas, o boticário e o mestre-escola farejavam-na”. Camilo até os monges desculpa: “Pobres moços!, nenhum ainda tinha vinte e seis anos. Espadaúdos, vermelhaços, beiços grossos e rosados, narizes de água, sadios como duas montanhas! … frades, sem fé, sem excepção, sem caridade”.
O pai da Angélica, conhecido como o tio Joaquim da Teresa, já tinha deitado os olhos aos pretendentes e dizia à boca pequena: “ – Se ela não estivesse ajustada com o tio quem na levava era o Barnabé da botica. Aquilo é que é modo de vida! Com um gigo de ervas e seis garrafões de água da fonte arranja caroço daquela casta! Anda aí o escrivão das sisas atrás da moça: também não é mau modo de vida, escrivão, mas eu ladrões cá na minha família não nos admito. O mestre-escola é bom sujeito (…) mas o pobre homem não tem tábua sua onde caia, se não for na cadeira…” . E acentuava as virtudes da filha Angélica: “Vocês vem sabem que ela não vai a espadeladas nem festas de ninguém. Romarias é lá uma ano a ano. O seu regalo é ir às festas da igreja do mosteiro. Isso vai a todas, e raro é o mês que lá se não confessa”.
Mas o pai andava enganado, no artigo confissão: “Angélica Florinda não exercitava tão louváveis espiritualidades. Às festas, ia; mas, fora da Quaresma e Jubileus, a moça parece que andava armazenando fazenda pecaminosa que assoalhasse no confessionário”.
Temos assim Angélica Florinda à porta da Igreja do Mosteiro. Estamos em 1828, reina em Lisboa D. Miguel. Fora nomeado Regente do Reino por D. Pedro I, imperador do Brasil, na menoridade de sua filha a princesa D. Maria, com quem o tio D. Miguel prometeu casar. Este desembarca vindo de Londres, jura a Carta, nomeia novos comandantes militares, dissolve as Cortes, reprime a revolta liberal do Porto e faz votar o Assento dos Três Estados que lhe confirmam os seus direitos de Rei absoluto de Portugal. Tem a seu lado nestas manobras o conselheiro José António de Oliveira Leite de Barros, natural de S. Gens, concelho de Montelongo (Fafe) que dois anos depois é feito Conde de Basto.
A igreja rejubila com este monarca pois via as ideias do liberalismo a cercear-lhe os alicerces. O mosteiro beneditino de S. Miguel de Refojos é a cabeça do couto do seu nome. Mais que o centro administrativo e judicial do couto, nesta data reduzido à freguesia de Refojos, o mosteiro é o centro religioso da região. A igreja, um notável monumento erguido cerca de 1700 sobre as ruínas da primitiva igreja do cenóbio beneditino, cheia de sepulturas com inscrições, é célebre pela imponência das suas festas religiosas e missas campais e na cerca realizava-se a já célebre “Feira de Basto” que chamava compradores de todo o Norte. Evidentemente que em 1828, já não era tão rico como outrora o fora nem já albergava grande número de religiosos, mas mesmo assim não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Angélica Florinda entrara pela rudimentar ponte que transpunha o ribeiro de Penoutas, dominada pela não menos rudimentar estátua de Basto. Dirigiu-se para o átrio empedrado, sobre cujas lages repousavam corpos nas suas campas, e atravessou a porta majestosa da Igreja, seguida pelos olhares gulosos dalguns homens que aguardavam a hora da celebração.
“A moça, depois que rezou à virgem da sua devoção, sentou-se à espera da missa. A espaços relançava ao coro a vista com o recato e a modo de assustada (…) .Reconheceu Frei Tomás algum tanto afastado de dois monges que também a lobrigavam por entre o gradeado de madeira”.
Quem é este Frei Tomás? Custa-me dizê-lo, mas temos que o saber! É aquele a quem Angélica Florinda ama e que por ele é amada.
*
É “Tomás de Aquino, filho de gente afidalgada de Basto, e vizinho da casa do Picoto”, e “era a saudade infantil e o amor do coração adulto de Angélica (…). Tomás gracejava com ela sem resguardo de seus pais que eram padrinhos da galante pequena”. Como filho segundo, “estava destinado ao mosteiro (…)Noviciou Tomás em Tibães. Findo o ano, professou e chamou-se Frei Tomás de S. Plácido. De Tibães transferiu-se para S. Miguel de Refojos a estudar Humanidades”.
Quem eram os dois monges que também a lobrigavam por entre o gradeado de madeira? Já adivinharam, naturalmente. Nada mais que os “dois frades bentos de S. Miguel de Refojos [que] andavam energúmenos desde que a lobrigaram na sua igreja”. E são inimigos acérrimos de Frei Tomás, espiões e delatores das suas palavras e dos seus gestos. “Um chamava-se Frei Joaquim de Sepulcro e o outro Frei António do Vale. O primeiro era sobrinho do abade; bajulavam-no todos em lisonja do tio. O segundo era filho bastardo do marquês de Ponte de Lima (…). Irmanavam os dois a primor de bestas consumadas, andavam como presos e ajoujados pelo tamanho das orelhas. (…) Frei António do Vale, filho de uma fidalga da Vila da Barca, recebia semanalmente de sua mãe uma canastra recheada de garrafas de óptimo “Douro”, de fiambre de Melgaço, de frigideiras bracarenses e salmões de Viana no tempo, de todas as famigeradas comezainas de cada terra. O dom abade aquinhoava destas lambarices e mandava a sua paternal bênção à mãe de frei António”.
Como é de calcular, os dois frades eram bem vistos pelo abade. Tinham em tempos acusado Frei Tomás de ímpio e blasfemo. O frade não lhes perdoou e desprezou-os, o que lhes acendeu a raiva. E o dom abade recebeu a denúncia de “que uma bela moça de S. Pedro de Alvite estivera em colóquio amoroso de olhos com o colegial Frei Tomás de S. Plácido”. A reacção deste foi violenta, chegando a ofender o leigo despenseiro do convento, um dos dois únicos amigos que ali tinha. “Chamavam-lhe Frei João do Socorro. Vestia a túnica de Saragoça e escapulário de estamenha no mosteiro de Refojos para assim viver e acabar sob as telhas em que vivia Frei Tomás, o menino que ele vira nascer. O sexagenário Frei João servira cinquenta anos os avós e pais do monge”.
Este barafustou desabridamente: “A voz do frade subia ao compasso da ira. Aos corredores dos dormitórios ia já saindo das celas a fradaria espantada, afilando a orelha” (…) Tomás, levado de sua raiva aos escutadores, chegou ao limiar da cela, alongou a vista coruscante na extensão do dormitório e viu que os espias mais convizinhos eram Frei António do Vale e Frei Joaquim do Sepulcro”.
O leigo dispenseiro consegue, aos repuxões no hábito, tirar Frei Plácido da entrada da cela dos frades denunciantes.
Frei Tomás não ouve os conselhos de João Socorro nem de Frei Jacinto de Deus, o outro amigo que tinha no convento. É-lhe instaurado um processo. As suas respostas ao Dom Abade são irónicas e contundentes. “ O abade limpava as camarinhas do suor. Que o frade colegial afrontasse Deus, rei e altar, inda vá; atrever-se porém a matraquear a discrição do prelado, estorcegando-lhe a unhadas de ironia o amor próprio, era essa uma injúria imemorial, inédita e sobre-horrenda no cenóbio de S. Miguel de Refojos”.
A sentença é impiedosa. Frei Tomás de S. Plácido sofreu pena de seis meses de prisão que sofreu no cárcere de mosteiro. Cumprida esta “recebeu ordem de (…) mudar para o Convento de Santo Tirso”.
Frei João do Socorro, o leigo dispenseiro, é o encarregado de acompanhar Frei Tomás a Santo Tirso. Mas quando este pergunta ao seu velho amigo por Angélica vê-o tremer, confundir-se, não querendo dizer nada.
Que se passará com Angélica?

(continua)

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