Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-01-2009

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 8)
Com este lanche improvisado, mas do melhor que se pode apreciar em qualquer aldeia de Trás-os-Montes, os quatro selaram ali uma fraterna amizade que viria a prolongar-se por largos anos, não obstante o facto de cada um deles ter ido parar a locais bem diferentes, desde a Guiné até Timor, no percurso da vida militar. Mas, como muito bem dissera o Juvenal, no início deste pequeno convívio, eles foram, durante dois meses, os moradores daquele condomínio.

***

Dia quatro de Maio, quarta-feira de manhã. Primeira formatura de toda a classe de instrução. Três companhias com dezoito pelotões, mais de mil e quinhentos homens. A parada estava completamente povoada de recrutas que envergavam uma farda, de cor cinzenta, e formavam pela primeira vez. Deste pequeno grupo de quatro rapazes, de que temos vindo a falar, foi cada qual para um pelotão diferente: o Pinto foi para o primeiro; o Silvestre para o terceiro; o Juvenal para o quarto; e o Zé foi parar ao quinto pelotão.
Nesta data, comandava o Regimento de Infantaria número 13 o Coronel de Infantaria Carlos José Vences e Costa; o Director da Instrução era o Major Lobato de Faria; o Comandante da Segunda Companhia de Instrução era o Capitão Manuel Granjo de Matos; comandava o Quinto Pelotão o Aspirante Miliciano Sérgio de Andrade; e eram Instrutores deste mesmo Pelotão os Cabos Milicianos António Peixoto e Fernando Rodrigues.
Como constava da respectiva Ordem de Serviço, as três companhias de instrução deveriam estar devidamente formadas, na parada, às oito horas, para que fosse dada a abertura solene dos trabalhos de instrução deste novo corpo de recrutas.
Sob a orientação, ainda em modos totalmente informais, dos comandantes e dos instrutores de cada um dos dezoito pelotões, todo o regimento formou por alturas, da esquerda para a direita. Formar por alturas significava que, reparando-se de lado, se veria a cara de todos os elementos do pelotão, a começar pelos mais baixos. Era como que uma espécie de rampa. Em marcha, os mais baixos marchariam sempre à frente, e os mais altos marchariam sempre atrás. Estando as três companhias formadas por alturas, a parada, observada do lado da frente ou do lado da retaguarda, dava o aspecto de três águas da cobertura de uma qualquer instalação fabril.
Estando todo o Regimento formado, voltado para o Edifício do Comando, cada Pelotão tinha ao seu lado esquerdo os dois Monitores que eram dois Cabos Milicianos, em alguns casos havia Furriéis; à frente da cada Pelotão estava o seu Comandante, quase todos Aspirantes Milicianos, mas também havia dois ou Três Alferes; à frente de cada Companhia estava o seu Comandante, eram três Capitães, o Comandante da Segunda Companhia era o Capitão Manuel Granjo de Matos; e à frente de todo o Regimento, como que fechando um vértice, estava o Director da Instrução, o Major Lobato de Faria.
O Comandante da Unidade, que desceu do Edifício do Comando acompanhado pelo Oficial de Dia, que era um Capitão, e pelo Sargento de Dia, que era um Primeiro-Sargento, declarou abertos os trabalhos da instrução quando eram oito horas e trinta minutos.
Os dezoito pelotões, obedecendo às ordens dos respectivos instrutores, dispersaram-se pela parada e pelos espaços adjacentes, quer do lado do campo de obstáculos e da carreira de tido, quer do lado dos parques auto e do campo de jogos.
Os primeiros dias iriam ser dedicados à aprendizagem das ordens e vozes de comando, às designações dos postos da hierarquia militar, ao modo como os militares devem dirigir-se e tratar cada um dos seus superiores hierárquicos e, sobretudo, à ordem unida. Ordem unida é um termo genérico que engloba todo um conjunto de ensinamentos e práticas tais como: a posição como se deve estar numa formatura; como se marca passo sem sair do mesmo sítio; e como se marca passo em marcha. Esta pode ser normal ou acelerada. Há ainda o passo de corrida, o cross e a marcha lenta e à vontade.
O quinto pelotão, da segunda companhia, acomodou-se junto do vértice poente sul da parada, mesmo em frente da extremidade sul do grande refeitório das praças, e onde havia já árvores de razoável porte. Estas árvores deveriam ter uns catorze anos de idade, terão sido plantadas aquando da inauguração do quartel que ocorrera em 1952, como já se sabe.
Eram nove horas e dez minutos e soou o toque para mais cinquenta minutos de trabalhos. Tal como em qualquer estabelecimento de ensino, os períodos de instrução militar decorriam por horas com dez minutos de intervalo em cada hora. Estes iriam ser os primeiros cinquenta minutos de instrução de todo o corpo de recrutas.
O Aspirante Miliciano Sérgio de Andrade, sem quaisquer palavras introdutórias, fez a sua própria apresentação e a dos seus dois colaboradores, os Cabos Milicianos António Peixoto e Fernando Rodrigues. De imediato, passou a palavra ao Cabo Miliciano Peixoto, dizendo:
- Nosso Cabo, faça favor…

(continua)

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