Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-01-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

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Com neve em Cabeceiras de Basto
VAMOS CANTAR OS REIS

Caros leitores, normalmente a minha rotina diária, logo pela manhã antes de tomar o pequeno-almoço é observar através das vidraças da minha varanda como se apresenta o tempo no centro da vila ou mais além. Primeiro verifico se a ventoinha da Senhora da Orada se movimenta, se com força ou se mais lenta, se chove ou se está enevoado, se o tempo vai continuar sombrio ou se pelo contrário se antevê que talvez o sol apareça lá por volta do meio da manhã.
Estas são as vantagens de quem mora num quarto andar de onde se consegue abranger a maior parte do centro da vila e ainda se consegue ir com o olhar mais longe e até se vêem passar os carros na auto-estrada, ali por cima da Faia, tal como se vê perfeitamente todo o Monte da Senhora da Graça e ainda outros montes circundantes, quando o tempo o permite.
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Trata-se na verdade de uma paisagem maravilhosa, a que se avista da minha varanda, que nunca me cansa e de vez em quando até traz consigo uma ou outra surpresa agradável.
Tudo isto que vos estou a contar é para vos dizer que na sexta-feira, dia 9, pela manhã cedo ao olhar lá para fora nada me dizia que um nevão como há muito não acontecia em Cabeceiras de Basto iria contribuir para tornar ainda mais bela a já de si encantadora paisagem de Cabeceiras.
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Nevar não é coisa rara na nossa terra e nas redondezas. O maior nevão de que me lembro, e disso recordo-me muitas vezes, foi quando o meu pai me foi buscar a casa do professor, em Outeiro, que na altura nos estava a preparar para fazer o exame de admissão para poder entrar no Colégio de S. Miguel de Refojos. Sei que o meu pai ia abrindo caminho à frente, pois a neve já levava cerca de quarenta centímetros e eu ia atrás no caminho aberto por ele. Tinha na altura dez a onze anos. Sem dúvida que foi o maior nevão dos últimos 50 anos
Mas, depois já aconteceram vários de maior ou menor consistência, mas como o de sexta-feira passada já há muito que não acontecia. Claro que ninguém está preparado para o caos que se instala rapidamente mas as coisas lá se compõem e, todos querem logo registar para a posteridade esses momentos tão belos.
Cantares dos Reis na casa de Paulo Marques (filho do falecido Sr. Américo Magalhães Marques)
Cantares dos Reis na casa de Paulo Marques (filho do falecido Sr. Américo Magalhães Marques)
Eu também assim fiz! E mais: apesar da neve a toda a volta e do gelo derivado do frio da noite fui cantar os reis juntamente com o Grupo dos Cavaquinhos da Raposeira do qual faço parte. Claro que fomos cantar a algumas casas já previamente combinadas que nos receberam de braços abertos e muito satisfeitos por nos poderem ouvir e connosco conviver. Em todas as casas dessas simpáticas pessoas que tão bem nos receberam havia nas mesas qualquer coisa para nos “adoçar o bico” e “lubrificar” a garganta, como manda a tradição. Era o presunto, era a broa, eram as azeitonas, os tremoços, rosquilhos, bolo-rei, mexidos e um nunca mais acabar de tentações. Para aconchegar a comida lá aparecia um bom vinho branco ou tinto, ou o vinho do Porto que alguém do Grupo teima em dizer que “faz maravilhas com a garganta, pois até se canta melhor”. Eu ainda estou para saber qual foi o médico que lhes passou essa receita…
A zona adjacente ao Mosteiro de Refojos coberta de neve
A zona adjacente ao Mosteiro de Refojos coberta de neve
E, como não podia deixar de ser, um café bem forte que também ajuda a atenuar os efeitos do tintol.
Mesmo com muita neve e gelo o grupo não esmoreceu. Cantamos canções dos reis e outras para animar a noite porque não estávamos ali para receber dinheiro. Estávamos ali para cantar até não podermos mais e, como diz o fado da Maria da Fé – “cantarei até que a voz me doa” e foi o que aconteceu comigo até que “perdi o pio” lá para a uma hora da madrugada, que é como quem diz fiquei quase afónica.
A beleza do parque das merendas na Zona Adjacente  do Mosteiro
A beleza do parque das merendas na Zona Adjacente do Mosteiro
Não posso deixar de fazer aqui uma comparação com os reis de antigamente em que íamos a todas as casas do lugar, com um “reque- reque ou com duas pinhas para fazer música com a esperança de receber algum dinheirito mas, normalmente vinham mais os figos, as maçãs e até cebolas, que e o dinheiro não se distribuía assim sem mais nem menos. Ficávamos felizes na mesma.
Hoje os tempos são outros! Também já se passou para outro século!
Neve na Rua das Acácias com o Mosteiro de Refojos ao fundo
Neve na Rua das Acácias com o Mosteiro de Refojos ao fundo
Como os caros amigos podem verificar foi um fim de semana repleto de emoções e de alguns contratempos que a neve sempre causa. Aqui deixo um agradecimento em nome do Grupo dos Cavaquinhos da Raposeira às pessoas que tão gentilmente nos receberam como já é hábito: a minha tia e madrinha, Cândida Vilela, a D. Cândida Teixeira Martins, ao meu irmão António Pereira ou “Nino” como lhe chamamos desde pequenino, ao nosso Presidente da Junta, Francisco Alves e a sua esposa D. Lurdes que como sempre nos recebem com todo o carinho e por último ao Paulo Marques e à sua esposa Ana e filhos, que como já habitual também nos receberam com toda a simpatia e boa disposição do costume.
Deixo algumas fotos, deste fim-de-semana repleto de emoções.
Um bem-haja a todos.
Cantares dos Reis na casa do  Presidente da Junta de Refojos, Francisco Alves
Cantares dos Reis na casa do Presidente da Junta de Refojos, Francisco Alves





Por: Fernanda Carneiro

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