Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-01-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (98)

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O PIRILAU DO CABO CARNEIRO

O Cabo Carneiro era um alfacinha muito parecido com o Vasco Santana (o actor), tanto no físico, como na fisionomia e mais ainda no feitio, os mesmos dentes e a mesma “pança”. Poderá dizer-se que, sem qualquer favor, era uma cópia do Vasco Santana.
Se calhar até terá sido mesmo por isso, quem sabe, que, quando cumpria o seu serviço militar obrigatório numa unidade da capital e tinha o posto de Primeiro-Cabo Miliciano, portanto, um futuro Furriel Miliciano, seria apenas uma questão de tempo, apanhou uma “porrada” (era assim que se designava, na tropa, uma sanção disciplinar), foi despromovido ao posto imediatamente inferior, ou seja, muito simplesmente Primeiro-Cabo, e foi mobilizado para Timor.
Até aqui, do mal o menos, ficou colocado em Dili, na Companhia de Caçadores 11, fazia o seu serviço de escala na mais calma das rotinas e, nas horas livres, frequentava, com elevado índice de assiduidade, as praias da capital timorense.
Mas, um mal nunca vem só, e, na sequência de um incidente fronteiriço ocorrido no enclave do Oé-Cussi Ambeno, a Companhia de Caçadores 11 foi deslocada, com carácter de emergência, no primeiro dia de Novembro de 1966, para o local de conflito. Homens, armas, equipamento e viaturas (um jeep e três unimogs), viajaram durante toda a noite, a bordo do navio Arbiru, entre o porto de Dili e a praia do Oé-Cussi ao largo de Pante Makassar.
Passado o período de tensão, que não foi muito para além de um mês, o território continuou a viver em paz e o Cabo Carneiro, à semelhança do que fazia em Dili, e sempre que não estava de serviço, passava o seu tempo na praia de Pante Makassar, que também era de areias brancas e águas azuis e transparentes.
O aglomerado urbano de Pante Makassar era de dimensões muito reduzidas, apenas meia dúzia de casas, construídas de materiais de palapeira, ladeavam a marginal junto à praia. Construídas com paredes de betão e cobertura de chapa ondulada de zinco, havia apenas a casa do administrador do distrito e as instalações da missão. Missão era um colégio de meninas, administrado por irmãs de uma ordem religiosa, que usavam hábito branco de freira e lenço preto que lhes cobria o cabelo e toda a parte lateral das faces.
Todos os dias, ao cair da tarde, um grupo de meninas, internas da missão, todas trajando blusa branca e saia preta por baixo do joelho, acompanhado por duas das irmãs religiosas, fazia um passeio pela praia. Todas caminhavam descalças, na praia caminha-se descalço. Desciam da missão, voltavam à esquerda e seguiam até à extremidade poente. De seguida davam meia volta e, caminhando junto à água, seguiam até à extremidade nascente. Ali, voltavam para trás e vinham até ao alinhamento da entrada da missão, voltavam à esquerda e subiam para o interior das instalações. Este passeio durava, todos os dias, cerca de uma hora, meia hora para cada um dos lados do trajecto, cuja extensão deveria ser de aproximadamente um quilómetro. Uma vez ou outra, antes da subida para a missão, as meninas davam ainda meia dúzia de pequenas voltas ali mesmo em frente e brincavam atirando pedrinhas de godo para a água.
Numa daquelas tardes de calmaria, tanto no mar como em terra, estava eu, acompanhado pelo Semanas e pelo Cardoso, também a contemplar o passeio das meninas da missão, fazendo de conta que olhávamos para a ilha de Solor, que ficava mesmo em frente de Pante Makassar, mas que só se via um pequeno vestígio de montanha lá no termo do horizonte.
O Carneiro estava estendido na praia, aí a uns quatro metros da água, e fingia que dormia. Era um daqueles dias em que as religiosas resolveram parar um pouco, a conversar, e deixaram as meninas a distraírem-se atirando pequenas pedras de godo para a água que esparrinhava para o ar. Reparámos, os três, que as meninas não paravam de passar, para lá e para cá, no espaço de quatro ou cinco metros que separava o Carneiro, estendido na areia, da água, cujas arremetidas pelo areal não iam além da extensão de dois ou três metros. O mar estava terrivelmente calmo.
As meninas passavam para lá, e voltavam a passar para cá, sempre a mirar, o mais discretamente que podiam, mesmo como quem não olhava, o homem branco deitado na areia. Que será que tem o Carneiro, que está a enfeitiçar as meninas, disse o Cardoso que era de Matosinhos. Se calhar algum caranguejo a subir-lhe por uma das pernas, disse eu. Deixai-as recolher que eu vou já interrogar o amigo Carneiro, concluiu o Semanas.
Entretanto, todas as meninas, cerca de trinta, seguidas pelas duas religiosas saíram da praia e encaminharam-se para as instalações da missão, atravessando apenas a estrada que era de terra batida. Nós, os três, contemplámos as meninas, algumas já teriam mais de dezasseis anos, e fizemos uma vénia às duas religiosas, tudo debaixo do maior respeito.
De seguida, fomos ter com o Carneiro que, também se deverá ter apercebido da nossa curiosidade, pelo que se manteve na mesmíssima posição em que estivera durante todo o tempo em que por ali passarinharam as meninas. Foi o Cardoso quem reparou e o desmascarou: «eu vi logo que só poderia ter sido isso!». E era, o Carneiro tinha uma das pernas, do calção, encolhida, dobrada mesmo junto à virilha e o pirilau, meio em repouso, mas devidamente nutrido, ao longo da coxa do mesmo lado, quase até meio.

Por: José Costa Oliveira

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