Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 22-12-2008

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Para guardar os seus haveres, cada recruta dispunha de uma caixa de madeira, de formato rectangular, um paralelepípedo recto, com cerca de um metro de comprimento, cinquenta centímetros de largura e uns quarenta de altura. A caixa abria e fechava através de metade da tampa de uma das suas faces de maior área, tinha duas dobradiças a meio dessa tampa, e os encaixes para ser usado um aloquete, ou cadeado, na aresta da extremidade oposta ao ponto das dobradiças.
No meio de tantos rapazes, e no que respeita a feitios e maneiras de ser, havia, inevitavelmente, um pouco de tudo. Uns mais alegres, outros mais tristes e sorumbáticos. Uns mais faladores, outros mais calados. Gabarolas alguns, recatados e simplesmente humildes muitos outros e, por aí adiante…
Fossem quais fossem os estilos, era inevitável a troca de conhecimentos, de identidades, descrição de onde eram e o que faziam, tudo naquele momento, antes de iniciarem uma das mais peculiares tarefas da vida militar, que era fazer, pela primeira vez, a sua própria cama. Refira-se, antes de mais, que muito em breve todos iriam ficar a saber que havia regras claras de como devia ser feita a cama, de cada um, ali naquele espaço que era a caserna número um da segunda companhia. Neste primeiro dia, a cama seria feita de qualquer maneira.
Os quatro, daquele compartimento onde fora parar o Zé, apresentaram-se reciprocamente e eram: o próprio, José do Rego Capelo, natural e residente em Cabeceiras de Basto, donde nunca tinha saído e sempre trabalhara no campo ou nas obras; o Joaquim Ferreira Pinto, natural e residente na freguesia de Fridão, concelho de Amarante, donde também nunca tinha saído e trabalhara no campo e alguns meses, sem qualquer vínculo especial, nas fábricas da Tabopan; o António de Oliveira Silvestre, natural da freguesia de Santa Marinha do Zêzere, concelho de Baião, tinha ido para a cidade do Porto, para caixeiro, logo que fizera a quarta classe e quando foi chamado para a tropa era empregado da Casa Africana, na Rua de Costa Cabral; e o Juvenal Almeida de Pereira Coutinho, natural da freguesia de Ferral, concelho de Montalegre, tinha ido para Lisboa, para criado de um hotel, aos dezasseis anos e, quando foi chamado para a tropa, era recepcionista no Hotel Ritz.
Feitas as camas, guardadas todas as peças do fardamento, nas respectivas caixas, já começava a escurecer. Tinha entretanto tocado para o rancho, mas não deram por isso, e veio a saber-se que, dos novos recrutas, foram muito poucos aqueles que se apresentaram na formatura para a refeição da noite. Neste primeiro dia, ainda não havia a marcação de qualquer tipo de falta. Daqui em diante, a coisa passaria a ser mais séria, mesmo muito séria!
O Juvenal, que se despedira do Ritz no início da semana anterior, tinha passado os últimos seis dias em Ferral, junto da família. Antes de se meter ao caminho, para apanhar a camioneta da Viação Automotora de Braga até Chaves, e depois uma outra, da Empresa de Transportes Cabanelas, de Chaves até Vila Real, o seu pai fizera questão que ele levasse um naco de cerca de meio quilo de presunto, um pedaço de pão misto de milho e de centeio, com um pouco mais ou menos três quilos e ainda duas garrafas de vinho da Adega Cooperativa de Boticas: «Nunca se sabe como é que irão correr os primeiros dias e assim levas alguma coisa para o primeiro impacto» - terá proferido o pai do Juvenal, enquanto dava ordens à mulher para que preparasse o farnel do rapaz, que estava habituado a ser muito bem tratado no Hotel Ritz, em Lisboa.
Todos os quatro sentaram-se, ao nível das camas do rés-do-chão, como quem se prepara para jogar uma partida de cartas, os dois inquilinos das camas de baixo, o Pinto e o Juvenal, cada um na sua própria cama, meio encolhidos, para não darem com a cabeça nas camas de cima, e os outros dois, os das camas superiores, que eram o Zé e o Silvestre, cada qual sentado sobre o tampo da sua própria caixa.
É justo referir-se que o Juvenal, apesar de ter estado por Lisboa mais de quatro anos, mantinha o coração e o feitio de um verdadeiro transmontano. Dos quatro, parecia que nenhum tinha levado coisa que se visse, ou, melhor dizendo, que se pudesse comer. Em boa verdade, o Zé levava uma saquinha de amostras de pano com duas tigelas de cerejas bicais, no interior da maleta, mas ainda não lhe tinha deitado a mão. Não porque tivesse qualquer intenção de não manifestar tal disponibilidade, mas porque ainda não se tinha proporcionado a ocasião. Entretanto o Juvenal disse:
- Meus amigos, penso que já nos conhecemos o suficiente e parece que, pelo menos durante os próximos dois meses, vamos ser os moradores deste condomínio, é ou não é verdade?
- Lá isso é verdade… - responderam os outros três, quase em uníssono.
- Então vamos distribuir, irmãmente, este pouco que aqui trago.
Tirou da sacola um paninho branco de linho, estendeu-o em cima de uma terceira caixa que colocaram entre as duas onde dois deles estavam sentados e colocou em cima o naco do presunto, o pedaço de broa e as duas garrafas de vinho. Tinha um canivete tipo suíço equipado com saca-rolhas. Partiu o pão em pedaços, fez o mesmo ao presunto e abriu a primeira garrafa.
- Vamos a isto, não façam qualquer cerimónia, isto é para hoje, amanhã não se sabe o que irá acontecer – assim falou o Juvenal.
A merenda foi bem suficiente para os quatro. Escoaram as duas garrafas, o que deu quase meio litro para cada um. Quanto ao pão e ao presunto ainda sobrou coisa que daria para um bom lanche de uma pessoa. No fim o Zé ofereceu as cerejas, eram de bical vermelho e estavam com um belíssimo aspecto. Foi a sobremesa, todos comeram e também apreciaram elogiando a superior qualidade da fruta. Também sobraram algumas que viriam a estragar-se, dentro da caixa, por o Zé se ter esquecido delas durante dois dias.

(continua)
Adriano Tormentelo

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.