Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 22-12-2008

SECÇÃO: Opinião

Dois livros de Fernanda Carneiro

Na manhã do primeiro dia de Dezembro – comemorativo da Restauração de Portugal, em 1640, do jugo Filipino dos Espanhóis – não pude atravessar Cabeceiras de Basto, como quase todos os fins de semana o faço, entre Guimarães (onde vivo) e Montalegre (onde nasci e mantenho casa).A neve não o permitiu. Esta progressiva Vila de Basto, que chegou a ser epicentro da politica Portuguesa, entre 1376 e 1380, quando D. Nuno Álvares Pereira casou com a Barrosã, Leonor Alvim, viúva do alcaide do Castelo de Montalegre, tem uma história carregada de simbolismo. Ainda hoje se perpetua a fama das Terras de Basto, simbolizada da escultura humana que a vila tem e que deveria recolocar no melhor espaço urbano. Se possível ao lado do Mosteiro de Refojos, onde foi sepultado Frei Diogo de Murça, fundador da Universidade de Guimarães, em 1537-1952, (onde hoje existe a Pousada de Stª Marinha da Costa). Dali foi transferido para reavivar a Universidade de Coimbra que nunca mais perdeu a dinâmica que ainda tem.
Mas Nuno Álvares Pereira, beato desde 1918, por Bento XV e a ser, brevemente, canonizado por Bento XVI, passou em Pedraça, no Solar da Família Alvim, dez anos de vida, onde nasceu e foi criada a filha Brites que viria a casar em 1401, com D. Afonso, Fundador da poderosa Casa de Bragança. E o rei D. João I, mais velho 3 anos e sogro da filha de Nuno Álvares, tinha como braço direito precisamente Nuno Álvares Pereira, cujo Pai, D. Álvaro Gonçalves Pereira (Prior do Crato), era oriundo das Terras de Basto. Nada fazia o rei sem consultar o marido de Leonor Alvim, pelo que muitas vezes foi o Solar de Pedraça epicentro da influência régia. Também por isso Cabeceiras de Basto faria bem colocar nesse velho solar que foi pertença do Engº Machado, Barrosão da Venda Nova, há poucos anos falecido, no roteiro dos lugares de visita obrigatória e placas indicativas em todos os trajectos que ali conduzem o visitante.
Ocorre-me abordar neste intróito, este pedaço da História de Portugal que tive de investigar e editar em vários opúsculos, sobre a Casa de Bragança, quando fui (1990-1995) director do Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães. Visitei esse Solar, inseri fotos nesses opúsculos e visitei todos os seus recantos, pela amizade que tinha com o saudoso Engº Machado. Falo nisso, frequentemente, com o Carlos Fraga Lopes Pereira, da Casa da Raposeira, um orgulhoso Barrosão, filho do Morgado do Telhado e de uma nobre Senhora de Teixugueira.
Mas volto ao tema do título desta crónica.
Teve Fernanda Carneiro a amabilidade de me enviar, com amável dedicatória, dois livros, bem escritos, bem acabados e deliciosos no seu conteúdo. Chamou a um «Tempo de Memórias» e a outro pôs o nome de «Album de Recordações». O primeiro a ver a luz do dia foi o «Album de Recordações». Tem 250 páginas, um excelente aspecto gráfico e muitas fotos que ajudam a explicar aquilo que o título simboliza, perfeitamente. Na nota do Autor, Fernanda Carneiro é clara: «Com estas crónicas, escritas com toda a simplicidade, pretendo acima de tudo registar para a História Cabeceirense as vivências de um povo que contribuiu para o engrandecimento da sua terra...Não revelam só tristezas, elas falam de tradição, de folclore, de cultura e de saberes».
O segundo livro mereceu um prefácio de Isabel Coutinho. E aí identifica a autora: «a sua forma calorosa e comunicativa de estar na vida permitiu-lhe um lugar de destaque em Cabeceiras de Basto, pois de Gondiães a Bucos, o seu nome é conhecido e respeitado em todo o concelho. Depois de criar os filhos, resolveu concretizar um sonho «calado» tanto tempo no coração: -Escrever».
Esse sonho já produziu dois saborosos frutos, tão genuínos e doces como aqueles que o chão de «Basto» dá, umas vezes espontâneos, outras vezes cultivados.
Seja como for, Fernanda Carneiro sabe pôr a render os talentos que Deus lhe deu. Com simplicidade, com naturalidade e com amor telúrico. Tem uma vocação indesmentível para a escrita que lhe flui nas veias, carregadas de húmus e de fertilidade literária. Não é uma prosa tensa, forçada, impenetrável. É – isso sim – uma linguagem corrente, simples como a natureza que a inspira, sugestiva como o cenário que descreve, doce como o ar puro das montanhas que rodeiam o palco dessas permanentes cogitações.
É um privilégio ter intra-muros uma artista da palavra como Fernanda Carneiro para dar testemunho de uma Terra onde vale a pena dizer, como reza a tradição: «aqui basto eu». Não no sentido ditatorial, mas na simbologia do reconhecimento ao Criador que dotou as Terras de Basto de uma grandeza incomparável. No bom caminho está Fernanda Carneiro. E, uma vez firmada e confirmada a sua vocação, resta esperar que muitas outras obras apareçam para gáudio dos seus muitos e fiéis leitores.

Barroso da Fonte
(Director do jornal Poetas & Trovadores)

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