Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 22-12-2008

SECÇÃO: Opinião

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NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO
Eusébio Macário (I)

Permitam-me que vos recorde as palavras de Camilo: “o egresso logo depois foi colado abade nas terras ubérimas de Basto, em uma freguesia muito rendosa, S. Tiago da Faia, rica de passais, fregueses pouco trabalhosos, mulheres encharcadas no pecado, nem místicas, nem hipócritas, inimigas do confessionário e de maçadas ao domingo na igreja”. Estas palavras são unicamente para dar cor ao romance, não têm nada que ver com a realidade da época. Lembremo-nos que este é o primeiro romance realista que Camilo escreveu, estilo literário que detestava e que lhe serviu “para prosseguir na guerrilha contra os inovadores e as ideias que propalavam: o republicanismo, a libertação da mulher e, em suma, uma nova concepção das regras sociais. Acrescente-se ainda que a chacota dos “romances facetas” não resultava de um pretendido “reaccionarismo” de Camilo, mas era a represália à agressividade que lhe moviam os mais jovens e prestigiados escritores (Dic Cam. p.261)”. O grande romancista serviu-se assim da chacota e do sarcasmo para rebaixar os cultores da nova escola e daí a razão das personagens do “Eusébio Macário” e da “Corja” serem figuras de moral rebaixada, sacerdotes afastados de Deus e da religião, mulheres adúlteras e outros em que “predominam brasileiros endinheirados e as mancebias que se entrecruzam com uma naturalidade que tem algo de aberrante.(Dic. Cam. p.202)”. Assim o seu dom de sarcasmo permitiu-lhe abrir caminho para o adultério de Custódia, para as aventuras eróticas da Rosa Canelas, mulher do boticário, para as madurezas da viúva gaiteira da fidalga do Castelo de Celorico, os arroubos da Felícia, os pecadilhos da “Eufémia Troncha, a costureira que, em tempos remotos” tinha concedido ao padre Justino “pequenas brincadeiras na Romaria da Senhora do Pilar”.
Aos seus defeitos morais Camilo acrescenta sempre características físicas que as desfeiam. Vejamos, por exemplo, o retrato físico e moral da Eufémia Troncha que dentro em pouco estará costurando o vestido de noiva da Custódia:
“Era uma gorda, na volta dos quarenta, com dois panachos crespos de barba no queixo de baixo, e as sobrancelhas pretas, cerradas; esbamboando-se nas polpas flácidas das espáduas e dos encontros como uma peça colossal de gelatina que flutua e badaleja. Tinha má nota quanto a costumes, muito boa tesoura para vestidos e garibáldis, e emprestava, com usura de ladra, dinheiro herdado de um brasileiro gotoso que lhe morrera nos braços. Ela também se lembrava da romaria; e, às vezes quando estava costurando, sozinha, na saleta, se o abade saía da alcova a manquejar do tornozelo, tirava um suspiro que lhe ondeava as conchas do seio, e cantarolava baixinho, com saudade infinita, o verso de Palmeirim:
Ai! Amor, ai! Amor, ai! Amor.
Eram recordações dos seus vinte e cinco anos, gozados com o ardor impetuoso, gentílico das máximas da Roma dissoluta, que circulavam em Cabeceiras de Basto, como os pardaus no tempo de Sá de Miranda. O abade, sorvendo fumegando pelo nariz o fumo do cigarro, quebrava a cinza na sola do chinelo de tapete, cruzado sobre a coxa e dizia de si consigo, olhando-a de soslaio: Ainda mostras o que foste – uma boa praça…”.
Agora que o Padre Justino de Padornelos se encontra paroquiando a Faia e o farmacêutico ressona, sentado no seu banco de cerdeira à porta da botica, numa tarde quente de fim de Primavera, princípio de Verão, vão-nos surgindo alguns apontamentos da pena de Camilo sobre as personagens que apresentamos – Eusébio, Custódia, Fístula, Padre e Felícia – e sobre alguns factos que entretanto se vão desenrolando. Assim a “Felícia governava a casa, criava cevados, muito atarefada, videira, moureja em teias, recolhida consigo, não mexericava, não conhecia ninguém, e tinha ralações de ciúmes. O abade, na pujança da idade, muito sadio, dava trela aos instintos frascários; as freguesas eram um rebanho muito gafo de ovelhas tinhosas, desgarradas do redil da castidade, à semelhança da Canelas, mulher do Eusébio da Botica. Que o abade também colaborara nas ossificações notáveis do farmacêutico, rosnava-se. O cirurgião, o tísico, pagara por todos, dizia-se”.
Eusébio “estava viúvo havia dez anos; não pensara mais em casar-se”. Quando soube da traição da mulher com o cirurgião Viegas a quem “doente que lhes caísse nas unhas era defunto”, internou-a na Tamanca, num recolhimento de Braga, onde morrera. O Viegas, “o contuso a fueiro”, dizia à Rosa Canelas “que o marido era um lorpa impagável. Mas na cura das obstruções, isso era um malho: curava-as com pós da ponta de corno de boi e do queixo esquerdo de certo quadrúpede; e daí veio dizer o clínico, espancado por mais de um motivo justo, que o boticário não precisava de comprar as drogas com que desobstruía os seus clientes”.
Já o Fístula queria ir para médico. O pai Eusébio “queria que o filho fosse praticar a cirurgia no Hostpital de S. Marcos, com cirurgiões antigos, experientes, que conheciam as ervas medicinais. Depois, tencionava dar-lhe as suas receitas, e ensiná-lo a distinguir as variadas almorreimas, a natureza das impigens, os cursos diversos, a bicha solitária, as obstruções das mulheres, as quebraduras, as hérnias, estilicídios, dores de rins, acrimónias, e o mais que tinha escrito no livro que era uma mina, que não o dava por um conto e quinhentos, gabava-se”.
Eusébio não tinha bons pressentimentos quanto à filha. “De Custódia dizia que era da casta da mãe quanto a luxos: exigia chitas caras, jaqués de veludinho, puxava para a grande, tinha muito palanfrório, espevitava-se (…) Ah, bom arrocho” e pedia à Felícia:
“- Vossemecê, que é mulher de juízo, tire-lhe do miolo as aranhas, meta-a cá por casa; diga-lhe que (…) bote teias, que trabalhe, que castigue o corpo com a canseira da casa, que eu não a criei para senhora, percebe? Eu ainda posso comer o que tenho – ajuntava explosindo arrotos aziumados de salpicão”.
Mas que se passa agora? Há muito povo à entrada da aldeia: “mulheres com as mãos cruzadas sobre as barrigas numa imobilidade pascácia; rapazitos em fralda suja e esfarrapada de tomentos, coçando as pernas picadas pelas moscas, e repuxando as saias das mães (…); homens que vinham das malhadas sentavam-se no cruzeiro, com as calças brancas arregaçadas até à coxa, e esfregavam com delícia as pernas cabeludas mordidas pela pojeira do palhiço e dos eirados”. De repente estouraram no ar seis bombas reais, dois sinos repicaram a um tempo, subiram ao ar dúzias de foguetes de três respostas e “doze morteiros que retumbavam nos ecos da corda de serras com fragor alegre”.
Numa égua, resfolegando, rodeado pelo Macário e pela Felícia, entrava em cena o senhor comendador Bento José Pereira Montalegre, brasileiro de torna-viagem, irmão de Felícia, futuro Barão do Rabaçal, que vem dar novo alento à nossa história.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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