Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 22-12-2008

SECÇÃO: Opinião

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VANTAGENS COMPARATIVAS (96)
SEISCENTOS MILHÕES DE EUROS

Mesmo o Cristiano Ronaldo que, como alguns dizem, ganha muito bem, teria que trabalhar durante oitocentos meses, ou seja, sessenta e seis anos e oito meses, para ganhar o equivalente àquilo que o Dr. Miguel Cadilhe pretendia que o Estado Português adiantasse para uma hipotética salvação da solvabilidade do BPN (Banco Português de Negócios).
As contas, sobre o rendimento do Cristiano Ronaldo, foram feitas com base naquilo que os jornais dizem relativamente ao seu salário, que será de setecentos e cinquenta mil euros por mês.
A propósito do que ganha o nosso futebolista, actualmente a trabalhar no Manchester United, e elemento preponderante da selecção nacional portuguesa, e ao contrário de variadas vozes que por aí se ouvem, eu estou totalmente de acordo que ele aufira um tal salário, que seja pago a peso de ouro.
Em minha opinião, julgo muito mais justa a remuneração de um futebolista, que ninguém consegue imitar em temos de capacidade e técnica profissional, do que a remuneração de um qualquer administrador bancário, como Teixeira Pinto, Mira Amaral, Jardim Gonçalves, Miguel Cadilhe e, porque não, mesmo Victor Constâncio. Todos estes são alguns, de entre muitos, que fazem parte de uma clique, que se protege reciprocamente. Tudo gente do chamado Bloco Central. Ora estão uns, ora estão outros, em lugares onde os salários são de verdadeiros craques desportivos e, além disso, asseguram PPRs (Planos de Poupança Reforma) e indemnizações, tudo na ordem das dezenas de milhões.
Mais, uma significativa parte das remunerações destes gestores que, maioritariamente são do sector bancário, mas também os há de grandes empresas de outros sectores, nomeadamente empresas de capitais públicos, são formadas com base nas chamadas “bolhas financeiras”, ligadas à valorização do capital das empresas. A valorização é, quase sempre, fictícia, daí ter-lhe sido dado o nome de bolha. Tais gestores, todos altamente qualificados, entre aspas, a qualificação vem-lhe do compadrio e da clique em que se movem, engrandecem a bolha, asseguram milhões em vencimentos, planos de reforma e indemnizações e, quando a bolha está prestes a rebentar, põem-se de fora.
Ouvi, com muita expectativa e alguma atenção, as declarações de Miguel Cadilhe no decorrer da conferência de imprensa que convocou para as nove horas da noite do passado dia 03-11-2008. Confesso que fiquei francamente desiludido e até revoltado. Eu, que antes da conferência de imprensa tinha comentado, com alguém que se encontrava junto de mim: «admira-me o Dr. Miguel Cadilhe aparecer envolvido neste caso, das duas, uma: ou não sabia a verdadeira situação do banco, e caiu numa armadilha, o que me parece muito estranho, ele ter-se deixado enganar; ou sabia de tudo, e então está a fazer parte de um qualquer esquema, que não consigo vislumbrar à primeira vista». Residia em mim uma séria expectativa relativamente à postura do Dr. Miguel Cadilhe.
Ao fim da primeira meia dúzia de palavras, da referida conferência de imprensa, fiquei de imediato esclarecido. O Dr. Miguel Cadilhe pretendia passar o “conto do vigário” ao governo. Melhor dito, ao Estado, às finanças públicas, a mim e a muitos como eu que, ganhando muito pouco, são quem paga mais impostos. Segundo a tese do Dr. Cadilhe o governo deveria ter entrado com seiscentos milhões de euros para o BPN, sem qualquer certeza de que tal entrada garantiria a solvabilidade do banco. Depois destes seiscentos milhões poderia muito bem ser preciso avançar com outro tanto e, quem sabe, muito possivelmente, mais outro tanto ainda…
Parece-me que aqui o governo terá agido da melhor forma possível. Cortou o mal pela raiz, e fica o aviso para outros administradores bancários que, apesar de tudo, deverão, muito provavelmente, continuar a engordar o conjunto das suas próprias benesses à custa das “bolhas” que, mais cedo ou mais tarde, rebentarão.
Da proposta do Dr. Cadilhe, constava que o Estado, pela mão do Governo, deveria injectar os seiscentos milhões de euros no BPN, recebendo como contrapartida um lote de acções do banco, acções de uma especial categoria, «acções preferências sem direito de voto». Sabem o que são acções preferenciais sem direito de voto? Eu explico: são acções que poderão dar direito a receber um determinado dividendo, quando e se houver lucro, mas o seu titular não tem direito de voto nas assembleias gerais. Não vota a nomeação dos administradores e não vota quanto à aplicação dos resultados. Muito interessante! O Dr. Cadilhe foi, não sei se agora ainda o é, professor de economia...
Aquele mal-estar do Dr. Cadilhe, relativamente à posição tomada pelo governo de, em vez de emprestar dinheiro ao banco sem qualquer garantia de sucesso, ter optado pela nacionalização pura e simples tinha, em minha opinião, duas razões: a primeira é que o Dr. Cadilhe é muito vaidoso e, talvez, orgulhoso, e não gostou de ver uma sua proposta rejeitada; a segunda é que parece que estava a ver em risco um plano de PPR no valor de dez milhões de euros, em seu favor, que tinha imposto aos accionistas aquando da sua entrada para o conselho de administração do banco.
Apesar de tudo, e diga-se em abono da verdade, estes dez milhões (os do PPR do Dr. Cadilhe!) não são assim tanto dinheiro, o Cristiano Ronaldo ganhá-los-á em pouco mais de um ano.
Há milhões, quando se fala de vencimentos, que ainda poderão justificar-se, mas os das mordomias dos gestores bancários, que levam bancos à falência, são uma verdadeira afronta a todos aqueles que trabalham, honradamente, e ao fim de cada mês se contentam com o “salário comum português”.
A proposta do Dr. Cadilhe, quanto ao financiamento da solvabilidade do BPN, é, para mim, ainda mais estranha. Eu tenho presente que o Dr. Cadilhe pertence àquele grupo de pessoas notáveis, também conhecidas por barões, que se opõem, com elevadíssimo vigor, ao plano de obras públicas que o Estado se propõe levar a cabo e que o Governo tem em carteira. Lembro que há uma corrente de economistas, os Keynesianos, que defende exactamente essa saída, um arrojado plano de obras públicas. Faz parte dos manuais de economia, em momentos de crise os governos devem apostar em arrojados planos de obras públicas (Keynes propunha que se colocasse, em momentos de crise, os trabalhadores a abrir buracos nas ruas apenas com a finalidade de depois terem que os tapar de novo - teoria do pleno emprego).
Para o Dr. Cadilhe, e para os seus pares, o projecto do novo aeroporto, assim como o projecto do TGV, são dois disparates. Mas, aplicar o mesmo dinheiro na recuperação de um qualquer banco falido, isso é uma obrigação social.
Quem tiver capacidade para tanto, que entenda…

Por: José Costa Oliveira

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