Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-12-2008

SECÇÃO: Cultura

Neste Natal, não se esqueça das meias de lã de Bucos à sua lareira, nos seus pés, como uma bela prenda

Esta é uma história escrita com novelos de lã, 4 ou 5 agulhas finas e pequenas como a minha mão e com outras mãos, maiores, mais quentes, mais trabalhadas, que imaginam desenhos para embelezar uma tão aparentemente banal peça de vestuário - meias – neste período de frio e de natal, noites de verdadeiro caramelo, como falam outras histórias da noite do nascimento do Menino.
É quase um recuar no tempo mas contado no presente porque tudo o que irei falar, aqui se faz, hoje.
Bucos é o cenário e estas as pequenas histórias que se podem colocar perante um par de meias de lã.
Primeiro, a meia começa pelo cano, sabia?
A lã, a quantidade de lã, já em novelo, corresponderá ao peso que a meia, as meias, terão no fim.

Das ovelhas - Lindas, assim chamadas - ou dos carneiros - mais Vaidosos - criados nos pastos verdes de Bucos , uma das mais belas aldeias de Cabeceiras de Basto ( de onde se irão contar muitas mais histórias) saiu a lã, tosquiados que foram em Maio, por mãos maioritariamente femininas, lã mais branca ou preta, esta mais rara.
E meias se puseram as mulheres a fazer e muitas mais coisas.
Mas hoje, falaremos de meias.

Meias lisas ou grades: lisas, como o nome dizem, sem desenhos; grades com todos os feitios possíveis, tradicionais, também: corações abertos, dobrados, espinha de peixe, com tranças, em fentas (em forma de S).
Meias que se fazem do número 36 ao 42.Ou por encomenda!
Trabalham-se com 5 agulhas para grade porque é mais fácil para dividir as malhas; com 4 agulhas é mais difícil.
Estas agulhas são pequenas e finas e trabalha-se à roda.
O cano, o começo, pode ser canelado ou liso ou de grade também, com motivos.
Para uma meia, contam-se, em média, 42 pares de malhas.

Depois, conta-se um palmo até ao canelado, a altura é uma mão-travessa.
O calcanhar é desenhado ao apanhar as cunhas, a seguir o tamanho é calculado pela mão aberta; segue-se o fecho,”matando-se” até ao final, que se arremata.

E a meia está feita.
Esta história não é ficção.
Bucos existe: tem pessoas, prados, espigueiros, casas antigas de granito, outras nem tanto, memórias de pisões e gostosos enchidos.
Mas sobretudo, o que quisemos trazer - vos foi uma reflexão em voz alta.
Fala-se tanto de ecologia, do ambiente e aqui está a prova do que podemos usar, vestir e valorizar o que da natureza mais pura nos vem.
Fala-se particularmente de produtos biológicos, dos produtos nacionais e eles aqui estão.
Mais: com um valor acrescentado.
Com estas meias caminham mulheres de corpo inteiro, e portadoras de uma tradição que não pretendem deixar morrer.
Finalmente, Cabeceirenses, que melhor prova de amor à nossa Terra, senão a de conhecermos o que somos, o que nos distingue, o que nos promove e eleva?
Estas linhas servem para relembrar…
Para pegar em nós e irmos a Bucos e encontrar as tecedeiras e para além das meias, descobrir mantas, tapetes, cachecóis, sacos, …

Não sendo a favor do Natal construído nos centros comerciais, mas pelo dos gestos naturais e dos objectos que trazem a marca do afecto e da tradição com que foram feitos e que se transportam para quem os recebe de nós, tenho a certeza que o pretexto do par de meias talvez não fique sem eco.
Eu tenho a certeza que estas notas, tipo carta já com selo, vão chegar até à Lapónia e que o Pai Natal não deixará de calçar um belo par de meias para ir quentinho por aí abaixo, deitando alegria a tantas crianças que tanto dela precisam.
E sei que a marca dessas meias será BUCOS.
Como espero que sejam as suas!


Ana Paula Assunção


Contacto: Posto de Turismo, Cabeceiras de Basto

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.