Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-12-2008

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 6)
Terminados os testes psicotécnicos, e passado pouco mais de meia hora de tempo livre, chegou a hora almoço, que foi servido ao meio-dia, e com as mesmas formalidades que se verificaram aquando da primeira refeição, tomada neste ambiente, às sete da manhã. Às duas da tarde começou a ser distribuído o fardamento. Esta operação era realizada nas casernas onde os recrutas ficaram instalados. Cada caserna dispunha do seu próprio depósito de material, que incluía as peças de fardamento propriamente dito, roupa de cama e armamento. O armamento era constituído por uma espingarda mauser, um conjunto de arreios e um capacete.
O Zé foi dos primeiros a aproximar-se de uma espécie de balcão, que se encontrava logo à entrada da porta da secção a que se chamava o depósito de fardamento, ou arrecadação, com a intenção de receber as suas peças do novo vestuário que iria passar a envergar, bem como a roupa da cama. Estavam naquele espaço de distribuição dois homens, um cabo e um soldado. O cabo, com cara de pessoa importante, fixou-o bem de frente e disse-lhe:
- Olha, meu menino, o nosso capitão, o comandante desta companhia, não é para brincadeiras e deu-nos ordens expressas de que só poderíamos fazer entrega do fardamento a quem se apresentasse com o cabelo bem cortado e de banho tomado. Por isso, vai cortar esse cabelinho, toma banho e só quando aqui chegares de cabelo rapado e a cheirar a lavado é que levas a farda. Está bem?
«Está bem? Que remédio tenho eu!» - pensou o Zé, acenando com a cabeça que sim e dando meia volta.
Lá foi o rapaz para a porta da barbearia. Não obstante encontrarem-se cinco ou seis soldados barbeiros em serviço, iria demorar imenso tempo a chegar a sua vez. Eram centenas os recrutas que aguardavam, em fila, para serem submetidos à carecada da ordem. Ao cabo de algum tempo de espera, apareceu um dos que ali estavam, também para o mesmo fim, e se propôs, a troco de algumas moedas, ajudar no serviço. Cinco tostões cada cabelo e, o tempo que demorava o corte, eram dois minutos. Tratava-se de passar a máquina a zero e nada de retoques. Para o efeito, serviria muito bem. O Zé recorreu a este, gastou cinco tostões, mas foi despachado ao fim de dez minutos.
Depois foi o banho. Os balneários eram qualquer coisa de grande. A rapaziada, acabada de chegar, nunca tinha visto tal tipo de instalações. Eram duas fileiras de chuveiros, cerca de cinquenta de cada lado, separados por um murete de pouco mais ou menos dois metros de altura. Havia quem cantasse no banho. A água estava muito fria, mas o que custava eram os primeiros jactos, depois a reacção até se tornava agradável. As pessoas ficavam frescas e a cheirar a lavado. Era assim que o comandante da companhia impunha que se apresentassem para receberem todas as peças do fardamento e os lençóis, os cobertores e a fronha do travesseiro para a cama do beliche.
Após aqueles procedimentos, então sim, o nosso recruta e todos os outros receberam, em boa ordem, os bens a que, dentro em breve, viriam a saber que se chamava “o espólio”. Este termo significava, em bom rigor, aquilo que cada um recebia e que, forçosamente, teria que um dia vir a ser devolvido na sua integridade, quando terminasse o serviço militar.
O Zé apresentou-se, de novo, em frente do cabo da arrecadação, com a careca descoberta e a brilhar. Também se notava, perfeitamente, que tinha tomado banho. O cabo não pronunciou qualquer palavra prévia. Olhou para ele, pegou num cobertor, colocou-o em cima do balcão e então disse:
- Estende-o aí no chão e toma nota do que te vai ser entregue.
O recruta estendeu o cobertor no chão, que estava limpo, devia ter apenas pó que não se via, e o cabo começou a atirar para ali com peças, que enumerava:
- Mais um cobertor, com esse que aí está, são dois, dois lençóis, uma fronha, dois pares de botas (depois podes vir aqui escolher e trocar as botas caso estas não te sirvam), um par de sapatilhas (também podes vir trocá-las quando fizeres o mesmo com as botas), dois pares de meias cinza escuro para serem usadas com as botas, um par de meias brancas para serem usadas com as sapatilhas na ginástica, uns calções brancos também para a ginástica, duas camisolas interiores, dois truces (cuecas), duas camisas de sarja cinzenta, dois pares de calças, um blusão, um macacão para usar na instrução, um cinto, dois lenços de bolso, um bivaque e um capote.
Agarrado o cobertor pelas quatro pontas, tal como faziam as lavadeiras de Nogueira da Maia que, semanalmente, transportavam as roupas das senhoras da cidade do Porto, que a davam para ser lavada na Ribeira de Vermoim, à peça, assim levou, o nosso recruta, o fardo às costas, pela caserna adiante, à procura de um beliche que ainda se encontrasse desocupado. Já estava quase tudo tomado. Os militares foram-se organizando em grupos, mais ou menos conhecidos, e cada grupo tomou o seu compartimento de conveniência.
A caserna estava estruturada em compartimentos verticais relativamente ao corredor principal que se estendia desde a entrada, que ficava na extremidade norte onde se situava a arrecadação e uma pequena secretaria, até ao fundo, na extremidade sul, onde se encontravam as instalações sanitárias. Cada compartimento vertical estava dividido em duas filas de beliches, uma fila de cada lado, junto de um murete com dois metros de altura. Os beliches estavam emparelhados dois a dois, pelo que havia dois militares em baixo e dois em cima, voltados para o mesmo lado de acesso formando grupos de quatro.

(continua)

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