Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-11-2008

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

A louça do refeitório das praças, terrinas, jarros, pratos, copos e talheres, era toda em alumínio ou aço inoxidável. O pequeno-almoço constava de café com leite previamente adoçado e “casqueiro”. Casqueiro era, em terminologia militar, pão de trigo ligeiramente grosso, um pouco mais ou menos aquilo que na vida civil se chamava sêmea. Cada militar tinha direito a meio casqueiro e um copo de café com leite.
Antes da grande avalanche de novos recrutas dar entrada no refeitório, já o efectivo da faxina tinha colocado, em cima de cada uma das mesas, o seu jarro de café com leite e as dez metades de casqueiro. Eram cerca de cinquenta os faxinas e cozinheiros, e neste momento estavam perfilados ao centro do amplo espaço, junto de uma das entradas de acesso à copa e às cozinhas. A tarefa de orientar os novos recrutas no sentido de ocuparem as mesas a partir de um dado sítio, ordenadamente, coube ao cabo de dia e ao cabo do rancho, sob a supervisão do sargento de dia.
Quando todo a tropa se encontrava junto das mesas, pouco mais que cinco minutos após o início da entrada, o sargento de dia ordenou, ainda sem aquele típico tom de voz de comando, que todos se deviam postar em sentido. Fez-se silêncio absoluto e todos se encontravam na posição aproximada daquilo que viria a ser, na verdade, a verdadeira posição de sentido. Entrou então o oficial de dia, um capitão, envergando uma braçadeira vermelha, no braço direito, e pistola suspensa do cinturão. O sargento de dia voltou-se para o oficial, na posição de continência, e disse:
- O regimento encontra-se pronto para tomar o pequeno-almoço. Vossa Senhoria, Meu Capitão, dá licença que se sentem?
- Sim, pode dar ordem para que se sentem – respondeu o oficial de dia, fazendo também a continência.
O sargento de dia deu meia volta, rodando sobre a biqueira da bota esquerda e o tacão da bota direita, isto é, deu meia volta para a direita, e disse, com voz de segundo sargento, voz rouca e a inspirar autoridade:
- Façam favor de se sentar e de se servirem, tudo em boa ordem, pá.
Às sete e meia já todo o pessoal tinha tomado o pequeno-almoço. Às oito formaram, já por companhias, junto dos parques auto, no mesmo local onde, na tarde do dia anterior, lhes tinha sido atribuído o seu número de matrícula. Desta vez cada uma das companhias formou à entrada de um dado pavilhão. Tratou-se de um nova inspecção. Todos despidos, de alto a baixo, a passar em frente de uma secretária onde estavam sentados três graduados: um capitão, que cedo veio a saber-se que era o comandante da respectiva companhia, um alferes e um furriel.
A passagem foi rápida. Tratava-se apenas de verificar se todos tinham dois “tomates” e uma “verga”, como alguém sussurrava, baixinho, lá para o fundo da formatura. Se os “tomates” eram robustos, ou se a “verga” era grande, isso não interessava. Em boa verdade, nestas ocasiões quase toda a “fruta” se apresenta murcha e de dimensões pouco apreciáveis. A ideia era, muito simplesmente, verificar que não se encontrasse ali ninguém com deficiência grave ou muito grave.
Veio a concluir-se que todos estavam em forma, ninguém teve a sorte, ou o azar, de ser liminarmente reenviado para casa dos paizinhos. A vida iria começar a ser um pouco dura, disso parece que ninguém já nutria qualquer dúvida.
Quando eram dez horas, e o refeitório já se encontrava totalmente arrumado e limpo do pequeno-almoço, com todas as mesas disponíveis, os recrutas da segunda companhia foram levados para ali a fim de realizarem testes psicotécnicos. No decurso dos testes todos estavam muito próximos uns dos outros, mas, quanto a copiarem, as hipóteses eram nulas. Havia três enunciados diferentes e foram distribuídos alternadamente aos recrutas, pelo que, cada um deles tinha dois colegas de cada lado com enunciado diferente, podia copiar à vontade, só que estaria a copiar tudo o que não lhe interessava. Mesmo assim, houve muitos que copiaram, porém, de nada lhe valendo. Coisas de quem era mesmo ignorante…
Os enunciados dos testes psicotécnicos eram uma espécie de desenhos e figuras, de certo modo estranhos, mas que deveriam encaixar num conjunto de outras figuras e desenhos de outra folha, identificados por números, que deveriam combinar com os da primeira que eram referenciados por letras. Muito simplesmente, testes psicotécnicos, disseram alguns, com ironia, no fim das provas. A verdade foi também que a maioria dos recrutas nem sequer esboçou qualquer tipo de resposta. Deixaram as folhas em branco. Tinha sido anunciado que ninguém seria punido por tal facto.
O Zé, muito embora não fizesse a mais pequena ideia sobre o conteúdo daquilo que acabava de lhe ser colocado pela frente, não era pessoa para desistir ao primeiro impacto. Passados alguns minutos de concentração e, com alguma certeza, ou sem ela, utilizou todo o tempo disponível, que não era muito, pouco mais do que meia hora e tentou responder ao máximo de questões. Cedo engrenou no esquema e deve ter feito um dos melhores testes de toda a companhia, mais adiante veremos que sim.
Era sobejamente sabido que, quando se iniciava a vida da tropa tinha que se usar o cabelo bem curtinho. Aqueles que se apresentassem com o cabelo grande eram mandados à barbearia para que lho cortassem à máquina zero. Por isso, na semana anterior, depois de ter levantado as guias de marcha na Câmara Municipal, o Zé passou pelo barbeiro, o “Cinco Reis”, no Souto Longal, e pediu que lhe cortasse o cabelo, insinuando: «assim a modos que passe na apresentação, na tropa, à escovinha, sabe como é, Senhor José?». Pensou que assim, quando chegasse ao quartel, ninguém o obrigaria a fazer qualquer novo corte.
(Continua)

Por Adriano Tormentelo

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