Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-11-2008

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

foto
Eusébio Macário (I)

Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda como quem tira um balde de cisterna. É assim que Camilo começa o seu celebrado romance Eusébio Macário, que sub-intitulou história natural e social de uma família no tempo dos Cabrais. Dá-nos assim já uma indicação sobre a época em que se vai desenrolar o enredo. Os Cabrais foram uma família pertencente à ala moderada dos setembristas que tinham ocupado o poder em 1836 após a celebrada Revolução de Setembro. Os Cabrais começaram-se a destacar dos restantes setembristas quando em 1840 obtiveram um bom resultado eleitoral e em 1842, comandados pelo mano António Bernardino, ocuparam o poder, rasgando a Constituição e proclamando a Carta. Em 1846 a revolta da Maria da Fonte, começada na Póvoa de Lanhoso e que se estendeu a vários concelhos do norte, entre eles o de Cabeceiras, afastou-os do poder e expulsou-os para Espanha. Regressaram, aguentaram a Patuleia, com o auxílio do exército espanhol do general Concha e só em 1851 se viram definitivamente arredados do poder, exilados novamente em Espanha e começava em Portugal o período chamado da Regeneração. É assim neste período conturbado da nossa história que se desenrola a história de Eusébio e sua família. Mas, no momento em que principia o romance, Camilo nada nos diz expressamente sobre Eusébio, sobre a época em que nos surge nem sobre os lugares onde a acção se vai desenrolar. Tudo isso nos será dado a conta-gotas. Para já Camilo deixa-nos ouvir as badaladas das três horas que soaram ríspidas como as pancadas vibrantes, cavas das caldeiras de Hécate de Shakespeare e apresenta-nos o farmacêutico Eusébio Macário, sentado, espapado, com as carnes desfalecidas, à porta, num largo mocho de cerdeira com assento de junco roto, espipado, com uns esbeiçamentos de palhoça muito amarelada do atrito. O leitor sente que se está nos fins da Primavera, já que o romancista nos declara havia um grande calor enervante. O sol punha nas grandes clareiras faiscantes, cenas. Da maneira que Camilo nos descreve a natureza que rodeia Eusébio naquela tarde calmosa em que as cerejas bicais vermelhavam as suas provocações sorridentes como beiços rubros de mulheres; (…) pêssegos abeberados de sucos doces penujavam; varas de porcos com grunhidos regalados esforçavam nas esterqueiras, (…) raparigas esguedelhadas, de narizes arrebitados, com as caras fuliginosas de suor e poeira, muito escaneladas (…) davam gritos de um timbre muito agudo que punham eco nas colinas batidas do largo sol, adivinhamos que estamos num recanto maravilhoso da província velha de Entre Douro e Minho. Eusébio Macário, ofegava, enxugava com o lenço de Alcobaça, pulvurento de meio-grosso em pastas esmoncadas, as roscas do pescoço que porejavam as exsudações da carne opilada de um forte jantar. Ele tinha feito anos neste dia e enchera-se de capão com arroz açafroado e de muito vinho de Amarante, com muita aletria engrossada de ovos e letras de canela. E aqui Camilo nada mais nos diz sobre Eiusébio, quantos anos fazia, se era casado ou solteiro e qual o lugar onde cabeceava com sono, mercê do arroz de capão e do vinho de Amarante.
Sabemos, sim, que Camilo é farmacêutico e logo de seguida sabemos que tem dois filhos: a Custódia e o José Macário.
A filha, a Custódia, era uma rapariga pimpona, de muito seio e braços grossos, roliços, com pregas de carnação mole nos cotovelos, uma penugem de frutas mimosas que lhe punha umas tonalidades cupidíneas, irritantes. Ela andava cheia de desejos animais; queria feiras e romarias com bailados de saracoteios desnalgados, pelintras; pedia socas de ponteira de verniz, manchetadas de amarelo, com palmilhas de um escarlate de carne viva e casibeques sarapantões de listras rubras e amarelas; lavava as pernas, brancas como pedaços de marfim polido das velhas imagens e maciezas cetinosas, nos riachos, com grande desfaçatez e presunção; boleava-se num quebrar de quadris reles de sevilheta; tinha cheiros de mulher suspeita com grandes lampejos crus de óleos de amêndoas doces nos cabelos em bandós e muitos ardores. Tal era ela.
Passemos agora ao filho:
O filho de Macário, o José Fístula, era caçador e fadista de tavernas sertanejas. Tinha andado para padre e esbanjara a herança materna em Braga, em orgias de frigideiras e na boémia das Travessas, onde mulheres de saias engomadas que rugem, esfervilham, de penteados muito altos, untados, com muita caspa e fitas azuis, arrastam chinelos de ligas, com os calcanhares de fora a esbeiçarem, com clavículas e esqueléticas mordidas das herpes e dos vampiros das noites vinolentas, cheias de delírios devassos e indigestos de iscas de cebolada. Ele tornou para o pai com grande humildade faminta, de lázaro maltrapilho, com a camisa roída de imundície e a cara chupada de deboches e bebedeiras.
- Que se fazia ladrão de estrada – ameaçava se o pai o não sustentasse; que estava pronto a labutar na botica, pisando drogas no almofariz, e iria às ervas para os xaropes que as conhecia muito bem. Pois não conhecia? Havia de ler a Farmacopeia do doutor Pereira Reis, e até – resumia – tinha tineta para boticário.
E o pai:
- Pra burro, pra burro é que a tens!
Deste arrazoado açafroado de capão e muito vinho de Amarante, só ficamos a saber que a mãe de José Macário e de Custódia e esposa de Eusébio tinha morrido, pois que o filho tinha dado cabo em Braga, onde fizera de conta que estudara para padre, da herança materna. Nada mais sabemos, a não ser que Camilo trata logo de nos elucidar sobre a regeneração que o nosso Fístula vai dar à sua vida. Depois, o Fístula portou-se bem, laborioso, inteligente. Ia à colheita das ervas na estação própria, e fazia manipulações, aviava receitas com limpeza, assobiando fados cheios de saudade das Travessas e dos seus condiscípulos malandros. E segue-se uma lição de botânica própria de um cientista, onde se fala do funcho e da malva, da erva cidreira e da erva-moura, da hortelã vermelha e da tília, para os chás das velhas que impam e arrotam com grandes borbariguros de gazes, e dizem que têm flato.
Deixemos Eusébio satisfeito com o filho e apresentemos duas novas personagens: O Padre Justino de Padornelos e a sua doce amásia, a Felícia.

Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.