Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-11-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (16)

foto
O Continente Africano, tem sido ao longo dos séculos a terra que parece nunca ter sido abençoado pela mão do Criador. Escravatura, fome, miséria, guerra, doenças, calamidades, epidemias, tudo acontece e esse povo sofrido.
Quando essas terras eram ocupadas por povos brancos, tudo isso era um pouco atenuado porque as potências administrantes tinham recursos.
Com o advento das independências e com o retorno dos brancos às suas terras de origem, tudo se complicou para esse novos países. Uns envolveram-se em guerras, outros regrediram e ainda outros pararam no tempo. As doenças têm sido um flagelo constante principalmente a malária ou paludismo, a cólera e a sida. Quanto às outras moléstias são menos agressivas e eles lá as vão combatendo como podem.
Eu próprio apanhei malária e bilargioze duas doenças terríveis que me podiam levar à morte. Foi tão forte o paludismo que me atacou que passei uma noite inteira a vomitar uma borra verde sinal de que já estava muito adiantado, fiquei tão debilitado que dificilmente me recompus. Essas malditas febres provenientes de picadas de mosquitos, eram combatidas por um preventivo chamado quinino e posteriormente surgiram outros mais eficazes.
Quanto à bilargioze dizem que é proveniente de ovos de caracóis que há nos rios africanos e diz-se também que essa doença entra no nosso organismo através do ânus.
Em dado momento das nossas vidas todos nós comentemos actos mais ou menos condenáveis. Assim aconteceu comigo!...
Um certo dia eu e mais quatro colegas com as respectivas famílias fomos fazer um pic-nic à beira do rio. Em dada altura dinamitamos o rio e logo que os peixes vieram à tona da água, há que saltar para dentro da água para os apanhar. Passados dias apareceram vestígios de sangue nas nossas urinas. Prescrito por um médico o devido tratamento que era aplicado nas veias e aumentando em cada dose gradualmente, três de nós aguentamos o tratamento total. O mesmo não aconteceu com o colega Nogueira que pagou com a vida a irresponsabilidade do nosso acto.
A matakenha é uma espécie de pulga que se aloja nos pés debaixo do dedo polegar provocando grande comichão e foi isso que um dia me aconteceu. Foi um africano com a ponta de um canivete e muito paciência a conseguiu remover.
Depois veio a filaria que atacava o peito dos pés fazendo um micro-túnel e só a aplicação repetida de gelo a fazia desaparecer. Como é óbvio também apanhei a febre da carraça. Tratava-se de uma carraça pequena que quando em contacto com o nosso corpo entranhava-se na carne provocando febres altas e por vezes difícil de detectar o local onde estava alojada, os pretos tinham muito jeitinho para extrai-las porque a cabeça não podia ficar no corpo senão acontecia grande infecção.
As crianças eram as mais flageladas pelos mosquitos e por uma mosca do tipo varejeira que deixava os ovos na roupa quando estava a secar, como a carne das crianças era tenra e em contacto com o corpo quente desenvolvia um pequeno tumor que quando maduro e espremido deitava para fora um pequeno morcão. Enquanto isto não acontecia a criança sofria bastante.
Na área onde eu vivia não existia a formiga talako nem a mosca do sono que quando infectada e picava as pessoas provocava-lhes grande sonolência.
Contudo havia muitas cobras e lacraus. A picada dos lacraus é dolorosa mas não mortal. Com as cobras era preciso muito cuidado porque são quase todas venenosas, mas quando alguém era mordido havia que pedir imediatamente socorro porque os pretos normalmente tinham no bolso quase sempre uma navalha e com muita destreza faziam um corte em cruz no sítio da mordedura chupavam o sangue e o veneno e rapidamente o cuspiam fora tendo o cuidado de não engolir nada. De seguida procuravam o hospital.
Mas voltemos ao paludismo; um dia uma jovem mulher entrou na cantina para comprar qualquer coisa. Trazia às costas uma criança de tenra idade com a cabecita caída sobre o corpo da mãe, mostrando sinais de estar muito doente. Pus-lhe a mão na testa, a pobre criança ardia em febre, como a mulher não falava português perguntei-lhe em dialecto local porque não ia ao médico com o filho?... respondeu-me que queria ir a um médico da Rodésia mas que não tinha dinheiro, prontifiquei-me a emprestar-lhe a quantia de que precisava e mandei-a ir tratar o filho sem demora.
Talvez dois anos depois surge na cantina a dita mulher e perguntou-me se a conhecia?. respondi que não… então ela logo contou a história, vinha agradecer e pagar a dívida porque só agora tinha conseguido o dinheiro. Não aceitei o pagamento da dívida e gostei de ver a criança já grandinha e muito esperta e até lhe dei rebuçados.
Então a mulher contou a história a todos os presente e a coisa terminou com uma salva de palmas e todos exclamaram – Mezungo zakanaka maningue (branco é muito bom )…
Com este trabalho chego ao fim das Histórias de África . A todos quantos se dignaram prestar alguma atenção à simplicidade da minha escrita o meu “muito obrigado”. Talvez volte brevemente, mas com outros temas e outras histórias .

Por: Alexandre Teixeira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.