Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-10-2008

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Por: Adriano Tormentelo
(cont. 4)

Entre os anos de 1964 e 1974, o Regimento de Infantaria n.º 13 funcionou, em permanência, como Centro de Instrução Básica. Neste período, de dez anos, o regimento formou sessenta e nove mil militares que, na sua maioria, foram enviados para as províncias ultramarinas, muito em particular, para Angola, Moçambique e Guiné.
As estatísticas costumam bater certo. Se em dez anos foram formados sessenta e nove mil militares, isto dá cerca de seis mil e novecentos por ano. Se em cada ano havia quatro turnos de incorporação, logo, cada turno tinha um número que rondaria entre os mil e setecentos e os mil e oitocentos. O turno de Maio de 1966 devia ter exactamente esse número.
***
Depois de uma longa espera, em formatura a três, frente às instalações dos parques auto, sob um forte calor que se fez sentir naquela tarde de dois de Maio, já o sol se escondia por trás do morro da serra do Alvão, chegou a vez do José de Paiva Couceiro. Entregou as guias que tinha recebido na Secretaria da Câmara Municipal, na sexta-feira anterior, e recebeu um pequeno rectângulo de papel com o seu número de matrícula. Era o número 089984/66. Os seis algarismos à esquerda da barra formavam o número de ordem anual, propriamente dito, do recruta, e os dois algarismos à direita da barra referiam-se ao ano de incorporação. Convenhamos que não era número que se decorasse com muita facilidade. Impunha-se, portanto, que tivesse o máximo de cuidado em não perder o papelinho.
Os procedimentos do dia ficaram-se por ali. Foi-lhes transmitida a informação de que, para aquela primeira noite, e mediante a entrega do papelinho onde estava o número de cada um deles inscrito, poderiam levantar um ou dois cobertores para se cobrirem, e que procurassem cama na caserna que pertencesse à companhia, que também já estava inscrita no referido pequeno rectângulo de papel.
Assim foi. O Zé, tal como todos os que tinham como destino a segunda companhia, dirigiu-se à arrecadação da terceira caserna, do lado esquerdo da parada, onde levantou um cobertor, deixando, como caução, o papelinho que tinha os seus dois números, o de matrícula e o da companhia a que passara a pertencer.
Comeu o resto da merenda que a mãe lhe tinha metido na maleta antes de sair de casa, manhã cedo, e deitou-se no primeiro beliche, dos da parte de cima, que viu vago mais ou menos a meio da caserna. Deitou-se vestido, só com o cobertor por cima. Apenas duas palavras com um dos parceiros mais próximos que disse ser de Mogadouro, o Zé informou que era de Cabeceiras de Basto. Estavam ambos estafados de terem passado a tarde inteira, em pé, na formatura, a apanhar sol bem quente na cabeça. Adormeceram de seguida.
A noite passou-se num instante. Durante todo o dia anterior já se tinham habituado a ouvir, de hora a hora, os toques da corneta. O corneteiro postava-se ao fundo da parada, mesmo no centro daquele lado, de costas voltadas para a entrada principal do refeitório das praças e de frente para a porta principal do edifício do comando que dava para este lado, para o lado da parada. O toque soava bem forte, ouvia-se perfeitamente em todo o recinto do quartel.
Os toques verificavam-se a todas as horas e aos dez minutos sequentes. A música dos toques das horas era ligeiramente diferente da música dos toques dos dez minutos seguintes. Porém, os de cada uma das séries eram sempre iguais. Por enquanto ainda ninguém conseguia identificar ou estabelecer qualquer relação com as actividades diárias, no interior da unidade, que tivesse a ver com os sons difundidos através daquele precioso instrumento musical.
Acordaram ao primeiro toque da manhã, eram seis horas e trinta minutos do dia três de Maio. Devia ser o toque de alvorada. Desta designação já quase todos tinham ouvido falar, mas não identificavam a música. Uma voz forte soou, bem alto, mais ou menos a meio da caserna, para que pudesse ser bem ouvida por todos:
- Meus senhores, todo o pessoal deve estar formado, aqui ao lado desta companhia, cinco minutos antes das sete. Às sete horas, em ponto, é o pequeno-almoço, no refeitório, e às oito todos têm que estar novamente formados junto dos parques auto, no mesmo local onde ontem à tarde receberam os vossos números de matrícula – era o sargento de dia, que envergava uma braçadeira de cor azul, no braço direito, e uma pistola à cinta, enfiada no respectivo coldre, seguro do cinturão, bastante caído, quase pelo meio da coxa da perna direita.
Às sete horas em ponto, todos trajando ainda à civil, reuniram-se e formaram a três, em frente da caserna da segunda companhia em que tinham passado a noite. Dois cabos milicianos encaminharam-nos, em formatura, no sentido das três portas grandes da parte central do refeitório. Os recrutas da primeira companhia entraram pela porta do lado esquerdo, os da segunda entraram pela porta do centro, e os da terceira entraram pela porta do lado direito. Entrou todo o pessoal ao mesmo tempo, em devida ordem. A primeira companhia ocupou as cerca de cinquenta mesas do lado sul, a segunda ocupou as cinquenta da parte central, e a terceira ocupou as outras cinquenta do lado norte. Cada mesa tinha dez lugares, cinco de cada um dos lados.
(Continua)

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