Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Camilo e Basto: boticas, boticários e boticadas (III)

Eusébio Macário, boticário com botica na Faia, deu o seu nome a um dos mais conhecidos romances de Camilo. Na minha opinião só o “Amor de Perdição” lhe leva a palma. Camilo escreveu “Eusébio Macário” por desfastio. O próprio o declara no prefácio da 2ª edição em que reputa este romance como “o mais banal, mais oco e mais insignificante romance que alinhavou para as fancarias da literatura de pacotilha.” Pretendia pôr a ridículo os conceitos da nova escola realista que fazia furor nos meios literários do país, com Eça de Queiroz à cabeça, que Camilo começara a combater no ano de 1879 no seu “Cancioneiro Alegre”. Mas o êxito do E. M., misturado com algum escândalo, que não esperava, obriga-o a publicar “A Corja”, onde se repetem “as personagens que giram à volta da família do boticário Eusébio. Além do cabecilha do clã, o próprio Macário, e seus filhos, Custódia e José, cognominado o “Fístula”, surgem de novo, a concluírem as suas rábulas: O barão do Rabaçal (Bento José Pereira Montalegre, casado com Custódia Macário); o Padre Justino, padreador competente desta novíssima espécie de heroínas romanescas; o casal Trigueiros (o comendador João Baptista e a Pascoela); alguns barões mais: o de S. Cucufate e o da Corujeira. Resumindo: uma galeria de gente que se acotovela e se mistura, em torpe promiscuidade, com a ralé: a Felícia, a Eugénia Troncha, a Luísa Casca (Dic. Camilo, p. 202).”
António dos Reis Ribeiro que escreveu “O Padre Casimiro e Camilo” (este é o Padre Casimiro José Vieira, de Vieira do Minho, que se envolveu na revolta da “Maria da Fonte”, reunindo à sua volta cerca de 30.000 homens que se auto-intitulava “Defensor da Pátria” e “Defensor das Cinco Chagas” e que tão mal foi recebido em Cabeceiras de Basto), dizia de Eusébio e dos filhos: “ O Eusébio Macário, acomodatício e cínico, talvez a figura mais completa da galeria camiliana; o filho, o José Fístula, um garoto desbragado, digno filho de um tal pai; a filha, a alegre Custódia, fresca e bonita, que mais tarde tinha que dar em droga, como deu, ou ela não fosse filha de boticário”…
Este Eusébio é muito diferente do Macário Afonso, boticário de Agilde que, já viúvo, ao constatar a desonra da filha Tomásia, razão da sua vida de pai, se veste de luto, manda fechar as portadas das janelas e se exila numa terra distante. Eusébio é diferente. Não pensara mais em casar-se desde que a mulher, a Rosa Canelas, o corneara com o Padre Justino e com o cirurgião Viegas, que lhe gastava da “botica e da mulher”. Felizmente que ela já esticara o pernil no recolhimento da Tamanca, em Braga. Vingava-se, “comendo à tripa-forra”, cevando-se à larga, como desforra, e dormindo sonos apoplécticos, muito roncados, à hora da sesta”. Era político. Partidário da Carta e de D. Maria II, aguardava a chegada do rei legítimo, D. Miguel. Defende os Cabrais e entra com “muitos bons pintos para comes e bebes eleitorais”. Gosta de falar nos comícios e aí “dizia aos lavradores o que é a república, a pouca-vergonha dos comunistas, uns ladrões que querem a repartição do que nos custou a ganhar”. Para ele os adversários políticos de Costa Cabral são “uma canalha, uma corja de vadios que não têm onde cair mortos”.
A Rosa Canelas deixara-o com dois filhos. A rapariga, a Custódia, era uma “rapariga pingona, de muito seio e braços grossos, roliços, (…), queria feiras e romarias com bailados de saracoteios desnalgados, pelintras; (…) puxava para a grande, tinha muito palanfrório”. A chegada dum rico brasileiro, Bento José Pereira Montalegre, de onde era natural, feito barão do Rabaçal, é a oportunidade para Custódia que sempre desejara casar com um brasileiro, “um velho que fosse”.
O filho é o Zé Macário, de alcunha “o Fístula”, caçador e fadista de tabernas sertanejas; (…) tinha andado para padre, e esbanjara a herança materna em Braga, em orgias de frigideiras”. Regressado à Faia parece dar indícios de regeneração e dedica-se à botica do pai. Apoia o casamento da irmã Custódia com o brasileiro.
O casamento faz-se e vão todos viver para o Porto, Eusébio Macário incluído, que deixara a farmácia da Faia arrendada.
Eusébio Macário é feliz. Vive com a filha no palacete do genro. Escreve cartas políticas aos influentes de Basto, prometendo, a uns, futuras comendas, a outros, aos padres, igrejas, e até traçava estradas”; frequenta o Palheiro da Assembleia, aspira a um lugar na Câmara Municipal. Ganha “um verniz que lhe ocultava os laivos da ignorância e da bruteza aldeã”. O adultério da filha Custódia custa ao pai Eusébio a expulsão do palacete do genro barão e começa a pensar no regresso às berças, a Basto:
“Eusébio Macário teve um novo ataque benigno de fígado, restabeleceu-se, liquidou as suas acções bancárias e achou-se com o capital de dous contos e oitocentos mil reis. Fez planos, cálculos, operações matemáticas, e achou que em Cabeceiras de Basto, onde formigavam morgados em via de ruína, poderia obter vinte e cinco a trinta por cento pelo seu dinheiro. Alem disso, tinha uns torrões arrendados que lhe davam quatro carros de milho, e vinho para casa, afora, feijões e batatas – Não é muito, pensava ele, mas um filósofo com pouco se arranja. – Ele estava filósofo.”
A ocasião era azada. O boticário a quem tinha arrendado a botica saiu com a farmácia, “porque não vendia nada, excepto algum óleo de mamona, emplastros de rã e pomada mercurial”. No Porto vendia-se o recheio da farmácia do Gaudêncio de Massarelos, famoso pela invenção duma Conserva para doenças secretas que Eusébio Macário e o Padre Justino da Faia haviam experimentado com sucesso.
“Foi examinar a botica. Riam-se-lhe os olhos quando encontrou num garrafão a Água magistral para dor de pedra, que se faz com trinta limões galegos, folhas de rabãos, e outros ingredientes; a Água para a sarna, feita com tanchagem e solimão; Leite virginal, composto com litargírio subtil e vinagre branco; a Conserva magistral para tísicos, feita de carne de cágados, aljofar preto e peito de galinha.
Lá estava a triaga de esmeraldas, antídoto de todos os venenos; Sangue de drago, que ele nunca tinha visto, e costumava dizer, quando era casado, que havia de sangrar a mulher, a Rosa Canelas, para se fornecer Sangue de dragão. Em unguentos, uma riqueza. Havia o Unguento mundificativo de nervos, que serve para alimpar os nervos sujos – uma coisa muito simples feita de mel, de terebentina e favas; o da sarna, o das lombrigas, os três unguentos desopilativos do estômago, do baço e do fígado, o Unguento de fezes de ouro, muito caro e de grande efeito em infecções adversas ao nariz e à moral. Grande variedade de unturas e torciscos, a começar pelo de Alipta muscata de Nicolas e a terminar nos Subliguaes para tísicos, composto de beldroegas e sementes de marmelos.
Achou o Pepino de S. Gregório, o Cucumer asininus de Galeno, uma raridade que ele duvidava por falta de exemplares do tal pepino. Quanto a pílulas, uma profusão incomparável. De pós, tudo quanto há de melhor: - Pós de João de Vigo, os do Papa Benedicto, óptimos para flatos, feito de coentros; uns que corroboram o ventre, outros que secam a sarna; nem lhe faltavam os Pós para estofar barretes, feitos de macela e cubelas, infalíveis para moléstias da cabeça.
Pelo que respeita a óleos todo o encarecimento seria curto; com opulência de Nababo farmacêutico. O óleo de marmelos, de alcaparras e de alacraus, achavam-se num estado de conservação invejável, superior a todo o elogio, o de rãs e o de raposa, um pouco avelhentados.
Eusébio cheirava-os e apalpava-os com dedo científico. Convinha-lhe, óptimo negócio, mas desfazia em tudo, - que só tinha a aproveitar as garrafas que já ninguém usava daquelas moxinifadas revelhas. Tão finamente se houve, que levou por duzentos mil reis a botica, incluindo um S. Miguel com as balanças, incarnado de novo, com uns olhos escarletes, tão inflamados que pareciam pedir unguentos.”
Aí está novamente Eusébio estabelecido na Faia, como boticário. “A zombaria dos conterrâneos, assustada às suas desgraças familiares, agrava-lhe o estado de saúde” (Dic. Cam. p. 225).
Vai-se juntar com a Eugénia Troncha, antiga criada e amante do Padre Justino, que estava bem de vida, dando dinheiro a juros. Eusébio confia-lhe ingénuamente as suas dores e a sua fortuna. Propõe-lhe casamento e acaba por desposá-la algum tempo depois.
Camilo não o diz, mas Eusébio Macário, o boticário de Faia, deve ter morrido feliz, nos braços da sua Troncha.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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