Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-09-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (14)

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Das várias transferências a que estive sujeito enquanto capataz de via dos Caminhos de Ferro da Beira, recordo com saudade quando em ordem de serviço e a meu pedido fui colocado no apeadeiro da Chainça.
Essa povoação que fica a sete Kms de Vila de Manica era totalmente povoada por indígenas com excepção do capataz de via. Não tinha luz eléctrica e a água era deixada aí duas vezes por semana por um vagão cisterna.
Na companhia da minha mulher e dos nossos filhos Mário e Paulo ainda pequenos, a vida era todos os dias praticamente igual salvo a rotina do trabalho nunca se passava nada, mas aos Domingos em tempo de futebol ligava o rádio-transístor e ouvia a Emissora Nacional e os relatos dos jogos e até me lembro ainda das vozes do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas.
Um dia um grupo de pessoas veio ter comigo para me fazer um pedido que me deixou deveras embaraçado. Pretendiam eles que eu instalasse uma cantina na Chainça, porque para eles a vila ficava longe para fazer compras e ainda com o seguinte argumento; patrão também vai ganhar matambira (dinheiro).
Os nossos ex-combatentes da guerra do ultramar sabem muito bem o que eram as cantinas, mas para quem não sabe tratava-se de um comércio geral onde se vendia desde a bicicleta a roupas e produtos alimentares e muitas delas com alfaiate privativo e até permuta de produtos. Essas cantinas geralmente só existiam em povoações isoladas e os habitantes dessas aldeias viviam muito em função da cantina do patrão branco que sempre lhes resolvia os problemas próprios das populações nativas. Contudo esses cantineiros nem sempre tinham comportamentos muito louváveis.
Cantina de Chainça
Cantina de Chainça
Depois de muito meditar, subi ao ponto mais alto do monte e contei todas as palhotas que a vista podia alcançar e só então fiz contas para saber se a cantina era viável. Convencido que sim, fui solicitar ao Administrador do concelho a respectiva licença em nome da minha mulher e o pedido foi deferido.
Como o terreno era duma missão católica, lá fui eu falar com o Pe.Magalhães natural de Celorico de Basto e superior dessa missão que me deu uma carta de apresentação ao Bispo da Beira e este simpaticamente cedeu o terreno para instalar a dita cantina.
Foi então que a porca torceu o rabo faltava o dinheiro para fazer a casa só havia oitenta contos disponíveis mas com alguma engenharia financeira e ajuda de amigos a casa apareceu feita com habitação, armazém e loja.
Mas, para ser cantina faltava mercadoria, foi então que me desloquei à cidade da Beira em busca de mercadoria fiada. O meu compadre Almeida que ao tempo era empregado num grande armazém fornecedor de cantinas no mato falou com o patrão que logo me deu crédito e assim podemos começar a trabalhar sem grandes aflições.
Como Deus ajuda quem cedo madruga tudo começou a correr o melhor possível para nosso contentamento e também da população que parecia gostar da nossa forma de fazer comércio.
A nossa vontade era também manter aquela gente contente especialmente aos fins de semana, então mandei fazer uma espécie de campo de futebol, comprei uns kilos de camisolas, o alfaiate fez os calções as chuteiras era o pé descalço e assim nasceu o futebol clube da Chainça tendo eu sido eleito sem votação como Presidente.
Como não bastasse ainda contratava conjuntos para fazer bailes e batuques e então aos fins de semana juntava muita gente embora os conjuntos não tocassem nada de jeito porque a música era sempre a mesma.
Essa gente que até então não tinham distracções de espécie alguma aos Sábados e Domingos pelo menos passavam o tempo de modo diferente porque havia sempre um gira-disco a tocar marrabentas e quando os nossos filhos dançavam juntamente com eles havia sempre alguém que achava graça e dizia; patrão deixa menino dançar!... é coloniar, é coloniar.
A nossa vida tornou-se agradável ao viver de perto com essa gente e aos poucos lá se foram habituando a recorrer a nós naqueles pequenos problemas que iam surgindo como
Levar mulheres à maternidade, crianças ao hospital, socorrer alguém que tinha sido mordido por uma cobra, etc. paralelamente havia sempre um kite de primeiros socorros.
E assim lá íamos levando a vida. O vinho era sempre o produto apetecido quando tinham dinheiro, depois os géneros alimentares e as roupas. Quando as pessoas eram de confiança levavam a credito pagando no fim do mês e nunca nos ficaram a dever nada.
O alfaiate fazia os vestidos para as mulheres e os calções para os homens, quanto a blusas e camisas já havia disso feito.
Quando por qualquer razão lhes prestava-mos algum favor eles tentavam pagar com as posses que tinham, uma galinha, uns ovos, umas espigas, umas mangas ou qualquer outra coisa e nós a contrafeito aceitava-mos para não os entristecer.

Por: Alexandre Teixeira

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