Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-09-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

CURIOSIDADES (2) - Regresso ao passado

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Ainda alguns resquícios da tentativa monárquica

Caros leitores cá estou mais uma vez e no seguimento da crónica anterior para vos mostrar umas fotos que como já vos tinha dito têm muitos anos ou, não fossem elas do início do século XX, talvez dos anos 1911/1912.
Estas fotos antigas foram tiradas de uma revista da qual, continuo a dizer, não sei o autor. O título das notícias onde as fotos vêm inseridas é “Incursões Monárquicas”.
Ora bem; estas fotos que vocês podem observar nesta página têm a ver com a perseguição que os soldados da República fizeram ao chefe da guerrilha dos realistas em Cabeceiras, o Padre Domingos Pereira, que vivia na Raposeira com a sua família, como largamente aqui já referimos.
Grupo de Sargentos e Cabos do Batalhão e de Infantaria 12 instalados em Cabeceiras de Basto
Grupo de Sargentos e Cabos do Batalhão e de Infantaria 12 instalados em Cabeceiras de Basto
Para os que não se lembram ou que por algum motivo não leram os meus artigos anteriores e de colaboradores como por exemplo o Francisco Victor Magalhães, nosso conterrâneo, digo que o Padre Domingos Pereira, era irmão de José Maria Pereira e do Padre Manuel Pereira, ambos residentes na Raposeira. Todos eles eram acérrimos defensores da Monarquia mas, realmente, o que mais se evidenciou foi sem dúvida o Padre Domingos Pereira que foi Pároco na Freguesia de Outeiro. Foi sem dúvida o mais corajoso e que defendeu a sua causa até ao final da sua vida. A sua determinação e a sua rebeldia em se manter fiel à sua ideologia causaram-lhe a expulsão da Igreja. Outros sacerdotes e alguns de freguesias limítrofes juntaram-se ao Padre Domingos Pereira, juntamente com outras pessoas civis também com ideais monárquicos, para guerrear os republicanos e tentar assim reimplantar a Monarquia. Como se pode ver pelas imagens os soldados apareceram em Cabeceiras e acamparam em plena Praça da Republica para combater as tropas do famoso guerrilheiro, aliado de Paiva Couceiro, o cabecilha da revolta. Foi o Padre Domingos que mandou os homens que estavam às suas ordens assassinar o administrador Mendonça Barreto, que era de Aveiro e que veio governar o concelho por ordem superior dos governantes da nova Republica.
Soldados do Estado, acampados em plena Praça da República, em Refojos de Basto, junto ao Mosteiro S. Miguel, naprocura dos monárquicos guerrilheiros e do seu líder Padre Domingos Pereira
Soldados do Estado, acampados em plena Praça da República, em Refojos de Basto, junto ao Mosteiro S. Miguel, naprocura dos monárquicos guerrilheiros e do seu líder Padre Domingos Pereira
E foi de junto do antigo hospital e também antigo posto da GNR que partiu o tiro que lhe roubou a vida, quando se encontrava em plena Praça da República.
Vocês de certeza que também sabem que as casas do Padre Domingos Pereira, a do Padre Manuel Pereira e a do João de Almeida de S. Nicolau, que era secretário do Padre Domingos, foram incendiadas pelos soldados. Segundo consta ele assistiu a tudo escondido e, naturalmente, camuflado, com “croças de palha”. Deve ter sido um horror ver os familiares a fugir e os cães a uivar e a arder dentro da casa.
Recordar a figura imponente do Padre Domingos Pereira, líder da guerrilha
Recordar a figura imponente do Padre Domingos Pereira, líder da guerrilha
Há pessoas nesta terra que se dedicam à história local e não só, que sabem esses pormenores exactos com datas e tudo. Eu do pouco que sei vai mais naquele sentido romântico da história em que não consigo imaginar o Padre Domingos Pereira como homem mau mas sim como um herói, um lutador, embora usasse métodos pouco ortodoxos para um sacerdote. Pelo que sei, desde que deixou de exercer a vida religiosa viveu em comunhão com uma senhora de quem teve vários filhos. Eu tive o privilégio de conhecer dois, de que destaco a D. Clotilde Pacheco, mulher do Coronel Pacheco, também da Raposeira. Netos e bisnetos também conheço e convivo com eles. A neta D. Valentina Paula Pereira, viva graças a Deus que é uma mulher maravilhosa e uma das bisnetas, a arquitecta Helena Paula Pereira, que foi minha colega no Colégio de S. Miguel de Refojos.
Já chega de comentários. Vou sim deixar espaço para as imagens que espero serem do vosso agrado. Quem sabe se ao vê-las a vossa imaginação não vos leva uns bons anos atrás e conseguem ver os soldados a vasculhar todas as casas e ruas à procura do “Padre Guerrilheiro”. De certeza que a casa que é agora dos meus pais também foi vasculhada! Que emoção!
Aqui ficam estas páginas da nossa história, contadas por imagens que valem mais que mil palavras, como diz o ditado!

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Alguns dos Republicanos de Cabeceiras condenados à morte pelo grupo do Padre Domingos
- Na troca de tiros um republicano ficou gravemente ferido pelos guerrilheiros. O infeliz administrador Mendonça Barreto, de Aveiro, colocado em Cabeceiras de Basto não teve tanta sorte e foi atingido mortalmente.


fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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