Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-09-2008

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

Após um período de espera, de apenas quinze minutos, chegou o comboio que vinha do Porto com destino a Espanha passando pela Régua e por Barca-de-Alva. Todos, quantos ali estavam, saltaram para o interior das carruagens, já com alguma desordem, juntando-se a muitos outros que já vinham do Porto e de todas as estações intermédias. Dali até à Régua entraram ainda uns quantos. Neste troço do percurso, o ambiente no interior do comboio fazia lembrar uma grande romaria. Havia inúmeros grupos com instrumentos musicais tais como guitarras, cavaquinhos e concertinas, que tocavam e cantavam, ora cantigas populares, ora cantares ao desafio.
Na estação da Régua, toda a gente se mudou para o comboio da linha do Vale do Corgo. Havia apenas meia dúzia de passageiros que não tinha como destino o Regimento de Infantaria n.º 13. O comboio ia completamente cheio de recrutas. O Zé nunca tinha feito este percurso, entre a Régua e Vila Real, pelo que era com grande curiosidade que observava a paisagem. A encosta era francamente íngreme, e o comboio conquistava-a, instante a instante, a uma velocidade reduzidíssima.
Estava-se no mês de Maio, e algumas das cerejeiras que se encontravam plantadas, em pequenas leiras ao lado da linha, já tinham cerejas maduras. Havia rapazes que saltavam das carruagens da frente do comboio, iam à margem da linha, colhiam ramos de cerejas e apanhavam novamente o comboio subindo para a carruagem da retaguarda. Por aqui se vê qual não deveria ser a velocidade a que o comboio se deslocava, naquele troço de linha, entre as estações da Régua e de Vila Real.
Chegado à estação de Vila Real, o pequeno grupo, em que se integrava o Zé, e que se tinha organizado a partir do Arco de Baúlhe, tratou de se dirigir ao destino que todos levavam, o quartel. Não sabiam onde seria, mas isso não se traduziu em qualquer tipo de problema, foi só seguir o grande grupo que saiu da estação. Havia alguém que sabia e, no meio de muitos, tratava-se de uns seguirem os outros. Atravessaram a ponte metálica que une a margem esquerda do rio Corgo, para quem vem da estação, com a margem direita onde se situa o verdadeiro tecido urbano da cidade. Depois da ponte, foi seguir a troço único das duas estradas nacionais, a n.º 2 e a n.º 15, que o quartel fica situado exactamente no entroncamento onde as duas se separam novamente, dirigindo-se a n.º 2 para a esquerda no sentido de Chaves e a n.º 15 em frente, ligeiramente para a direita, no sentido de Bragança.
Passavam poucos minutos das duas horas da tarde quando aquela pequena multidão, tudo rapazes de vinte anos de idade, chegou à porta de armas do Regimento de Infantaria n.º 13. Tudo parecia demasiado grande. A frontaria do edifício principal do quartel, a casa do comando, inspirava respeito. A sentinela, e depois todo o corpo da guarda, faziam “tremer” os jovens mancebos que, timidamente, se aproximavam.
As praças da guarda organizaram todos o recém-chegados em pequenos grupos, de quinze ou vinte de cada vez, e conduziram-nos para as proximidades dos parques auto. Era o local onde seria feita a primeira apresentação.

***
O quartel do Regimento de Infantaria n.º 13 é, em boa verdade, uma autêntica cidadela. As actuais instalações foram inauguradas no dia quinze de Junho de 1952, um domingo. A data da inauguração não deverá ter sido alheia ao facto de este ser o domingo mais próximo do dia treze, que é o dia da cidade e do seu patrono, Santo António.
Em princípio, parece que toda esta categoria de quartéis, como o antigo Regimento de Infantaria n.º 6 do Porto, o antigo Regimento de Infantaria n.º 8 de Braga, o Regimento de Infantaria n.º 14 de Viseu, o Regimento de Infantaria n.º 3 de Beja, e muitos outros, de características arquitectónicas semelhantes, terão sido construídos para dar resposta à grande mobilização motivada pelo eclodir da guerra do Ultramar, mas não, todas estas infra-estruturas militares foram inauguradas antes do início do conflito ultramarino.
Pois, como acima foi referido, o actual quartel do Regimento de Infantaria n.º 13 entrou efectivamente em funcionamento no ano de 1952. Naquela data, a Segunda Guerra Mundial já tinha terminado havia sete anos, e, da guerra do ultramar, não será de todo despropositado admitir-se que ninguém pensaria que a mesma viria a ser desencadeada a tão breve prazo. Mas então porque motivo se deu início a um tão ousado plano de construções militares?
A história do Regimento de Infantaria n.º 13 tem já mais de trezentos anos e remonta à criação da Companhia do Terço e do Regimento de Peniche, dos quais descende directamente. Entre 1841 e 1883, esteve aquartelado na cidade de Chaves.
Por determinação do Ministro da Guerra, foi transferido para Vila Real, onde entrou em 30 de Agosto de 1883. Ficou aquartelado no Convento de S. Francisco, com as secretarias instaladas em casas particulares da família Francisco Botelho, na Rua do Carmo.

(Continua)
Adriano Tormentelo

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