Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-09-2008

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (92)

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O CÃO GRANDE E O CÃO PEQUENO

O conflito que neste momento grassa na região do Cáucaso e que opõe a pequena Geórgia com os seus 69.700 quilómetros quadrados de área e uma população de 4,6 milhões de habitantes, à enormíssima Rússia com os seus 17.075.200 quilómetros quadrados de área e uma população de 140,7 milhões de habitantes é sério de mais para que nos permitamos tecer considerações anedóticas sobre o mesmo.
Em termos de área a Rússia é 245 vezes maior que a Geórgia, e, em termos de população, é 31 vezes maior. Sabe-se que, quando se fala da Rússia, o factor área não é muito relevante, uma vez que grande parte do território russo, ou não é povoado, ou é muito pouco povoado. De qualquer modo, e atendendo-se apenas ao factor população, conclui-se, sem qualquer margem para dúvidas, que a diferença de poderio entre os dois países é descomunal.
Como acima dizia, não querendo entrar em nada que se entenda como anedótico, vou apenas contar aqui um episódio a que assisti nos idos anos de sessenta do século passado, e que me fez pensar um pouco sobre estas coisas de desafios entre poderosos e não poderosos.
Na Quinta de Santo Antonino, que fica ali nas proximidades da Casa da Música, havia quatro caseiros. O patrão, o Senhor Tenente Gonçalo de Meireles, ainda era vivo e tinha dois corpulentos cães de guarda, ambos da raça “Pastor Alemão”, um chamava-se Leão, e o outro chamava-se D. Parico.
O alpendre e a eira da quinta eram partilhados por três dos quatro caseiros. Cada um utilizava uma faixa que se estendia desde a extremidade da eira, junto aos pinheiros da cerca, até ao fundo do alpendre, paredes-meias com a vertical que dava para a adega.
Os dois cães grandes, o Leão e o D. Parico, andavam sempre por ali, e quando alguém trabalhava na eira eles apareciam para fazer companhia e deitavam-se na sombra mais próxima.
Certo dia, um dos caseiros, parece que era o caseiro da Seara, tratava de uma eirada de milho e tinha um cachorrito, muito pequeno, que não sei identificar a raça, que também por ali andava. O D. Parico estava deitado, na extremidade da eira, à sombra de um pequeno cedro, ao comprido, de barriga para baixo, e o focinho estendido na horizontal, para a frente. Dormia, ou fingia que dormia. O outro, o cachorro pequeno do caseiro da Seara, lembrou-se de o importunar começando a ladrar-lhe à volta sem cessar. De vez em quando arriscava mesmo tocar-lhe.
Passado algum tempo, o D. Parico achou que já era de mais e levantou um pouco a cabeça, fez um ligeiro rugido e mostrou-lhe os dentes, assim como a gente faz quando presencia um grave acidente. Voltou a pousar a cabeça no chão e a fingir que dormia.
O pequeno continuava a importuná-lo, e, o D. Parico, pela segunda vez, levantou um pouco a cabeça, fez um rugido mais forte que o primeiro, e voltou a mostrar-lhe os dentes. Sem cessar, o cachorro prosseguia no desafio, e, de vez em quando, parecia que lhe tocava com os dentes, embora caninos, mas pequenos. Via-se mesmo que o cão grande estava a ficar saturado das arremetidas do pequeno e, num abrir e fechar de olhos, levanta-se, ferra a boca no pescoço do pequeno, dá dois safanões, um para a esquerda outro para a direita e larga o cachorro que, sem um gemido, vai cair a uns cinco metros de distância redondamente morto.
Eu, que presenciei a cena, não fiz qualquer comentário no momento, até para não ferir a susceptibilidade da dona, mas que interiormente aplaudi, isso não posso negar. Ganhei mais um pouco de respeito pelo D. Parico.
Ora, e voltando ao início desta crónica, o que actualmente se passa no Cáucaso parece-me encaixar-se perfeitamente na “metáfora”. A questão prende-se com o domínio político sobre a Ossétia do Sul e a Abkházia. A Geórgia tem vindo a fazer o papel do cachorro pequeno, tanto desafiou o cão grande que acabou por levar a lição que parece ter merecido e, se não inverter a postura a curto prazo, poderá mesmo acabar por ser degolada.
Para já, ficou o segundo mostrar de dentes do grande D. Parico (Rússia) ao pequeno cachorrito do caseiro da Seara (Geórgia). Entretanto, a Rússia, que prometeu solenemente que iniciaria a retirada dos seus tanques e dos seus soldados da Geórgia, está a fazê-lo com um elevado grau de parcimónia, e isto parece-me indiciar um sério aviso, que será, como quem diz: «Não nos obriguem a mostrar os dentes uma terceira vez».

Por: José Costa Oliveira

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