Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-08-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

O ARMANDO DO MOSTEIRO DE DENTRO
O valor do trabalho e a honradez de um homem sério

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Há muito tempo que o Nelo, termo familiar que uso com meu marido, andava com a ideia de construir a árvore genealógica da família do lado do seu falecido pai, António Joaquim Carneiro, mais conhecido pelo senhor Carneiro da Raposeira, que sendo natural de Rossas, Vieira do Minho, veio parar a Cabeceiras de Basto.
Esta ideia despertou, julgo eu, quando ele leu um livro do Armando da Silva Araújo, com o título “Vem ter comigo à meia-noite ao barraco”. A páginas tantas o livro fala de uma Teresa que vem dar origem ao despertar do Nelo para as suas investigações. Ficou muito curioso e começou a fazer perguntas aos familiares do Alto do Monte, ao tio Diamantino Teixeira, meio irmão do seu pai e aos filhos do Armando da Silva, mais conhecido por “Armando do Mosteiro de Dentro”. Curioso como é nestas coisas de história e árvores genealógicas não descansou enquanto não resolveu falar com o Armando do Mosteiro de Dentro. Queria saber quem eram os pais do Armando Silva e do António Carneiro e que parentesco existia entre eles para serem considerados primos direitos. Essa oportunidade surgiu há dias quando fomos convidados pela Dores, filha mais nova do senhor Armando, para jantar em sua casa. Nesse jantar iria estar o pai (Armando) para conversar com o Nelo e contar-lhe essas coisas que tanto o intrigavam. Nesse dia o meu marido ficou a saber que ele e os filhos do senhor Armando Silva são bisnetos das mesmas pessoas, quer dizer os avós maternos do António Joaquim Carneiro eram avós do Armando do Mosteiro de Dentro.
O Sr. Armando na sua juventude
O Sr. Armando na sua juventude
Para aqueles que ainda a conheceram ou para fazer a ligação à mãe do meu sogro, recordo que era Bernardina Durães, do Alto do Monte, casada em segundas núpcias com Domingos Teixeira, pais de Diamantino Teixeira, Ana Teixeira e Maria Teixeira. O meu sogro, o senhor Carneiro da Raposeira era o irmão mais velho. Daí o parentesco destas duas famílias entre as quais existe uma grande união familiar.
Eu não vou aqui contar a história toda sobre a origem da família porque seria muito extensa e tenho de me cingir à página que o Ecos de Basto põe à minha disposição. Vou sim aproveitar para falar um pouco sobre a figura do Armando do Mosteiro de Dentro, que conheci durante a minha meninice e juventude, principalmente quando era aluna do Colégio de S. Miguel de Refojos.
Como saberão pelo menos os de Cabeceiras de Basto, os caseiros do Mosteiro viviam nas casas junto ao Colégio de maneira que mais ou menos íamos vendo o quotidiano daquelas famílias. Eram todas famílias muito extensas tendo eu convivido mais com os da minha idade.
Os pais do Sr. Armando
Os pais do Sr. Armando
Muita gente se deve lembrar do Armando do Mosteiro de Dentro ou melhor do Armando Silva, que era casado com a já falecida Cândida de Jesus Teixeira, vai para seis anos. Pelo menos os mais antigos e os da minha geração têm isso presente. Para vos situar um pouco na história, o senhor Armando era um dos cinco caseiros das terras em volta do Mosteiro, que pertenciam ao seminário de Braga, ou à Igreja, pelo menos durante uma parte do século XX, até que foram vendidas no final dos anos noventa a um empreiteiro particular para construção. Foi e é nessas terras da Igreja em volta do nosso Mosteiro que a Autarquia está a urbanizar o centro desta vila. Mas já antes disso a quinta do mosteiro tinha sido do senhor José Ferreira e do último dos “barões”, o Nuno que o herdou de seu pai.
“Trabalhei na quinta com três patrões diferentes – diz o Armando - : a Igreja, com o padre Barreto a ser o seu zelador, com o José Ferreira, cujos filhos enquanto rapazes novos me deram “muitas dores de cabeça”, e com o Nuno Basto, sobrinho do barão da “casa do Barão”. E olhem que quando o Nuno morreu, teria eu cerca de quinze anos, fui dos que ajudou a levar o seu caixão para o cemitério. E era bem pesado”.
Quando se efectuou a venda ao último proprietário para se proceder à urbanização da quinta o senhor Armando há muitos anos que já não vivia lá. Mas o certo é que todos os caseiros nasceram, cresceram, casaram e ficaram a trabalhar anos e anos na Quinta do Mosteiro sempre com a alcunha dos do Mosteiro agarrada ao nome: Armando do Mosteiro de Dentro, a senhora Cândida, a senhora Laurinda, senhora Júlia do Mosteiro de Dentro, senhor Manuel do Mosteiro de Dentro, senhora Emília do Mosteiro de Dentro, o senhor David, marido da senhora Bernardina, pais do Armando Silva Araújo, que nos tempos de hoje se dedica a escrever tendo já publicado dois livros.
A alcunha de Mosteiro de Dentro vinha sempre agarrada ao nome próprio.
O senhor Armando da Silva nasceu há noventa anos na Quinta do Mosteiro. Lá cresceu e se tornou homem, sempre a trabalhar na agricultura. Casou e continuou a viver na mesma casa com a sua esposa mais os seus nove filhos.
Os nove filhos da D. Cândida e do Sr. Armando do Mosteiro de Dentro
Os nove filhos da D. Cândida e do Sr. Armando do Mosteiro de Dentro
Por aquilo que ouvia falar dele e pelo que eu conhecia de o ver por ali quase todos os dias, era conhecido como um homem simples, íntegro, honesto e educou os seus nove filhos com amor e princípios morais. O casal Armando e Cândida tinham seis raparigas e três rapazes: o Domingos, a Teresa, a Ana, a Isabel, a Conceição, o António, a Rosa, o Francisco e a Dores que é a mais nova e que pouco tempo esteve na Quinta do Mosteiro, pois o senhor Armando e a senhora Cândida saíram de lá ainda a Dores era muito pequena.
Como vocês sabem, principalmente os mais velhos, naqueles tempos o dia a dia da vida agrícola era muito duro, o trabalho feito era quase sempre executado na incerteza, sempre sujeito às intempéries. Muitas vezes estes homens e mulheres recorriam a clamores para que Deus lhes protegesse os bens para não faltar o alimento nas bocas dos filhos e também poderem honrar os compromissos para com os patrões. E olhem que alimentar nove filhos dava que puxar pela cabeça! Naquele tempo as famílias eram muito numerosas. Não existiam os contraceptivos, e também não havia a televisão para se entreterem no pouco tempo que havia livre, portanto ou dançavam no rancho folclórico ou então os casais tinham de se entreter com outras coisas… e os filhos eram necessários e até indispensáveis para “fazer as terras”.
Os primos Manuel Carneiro e Sr. Armando numa cavaqueira entusiasmada
Os primos Manuel Carneiro e Sr. Armando numa cavaqueira entusiasmada
Por ter conhecido o senhor Armando quando era mais nova e também curiosa para o ouvir falar, lá fui com o Nelo Carneiro a casa da Dores, a sua filha mais nova, casada com o Jorge Carvalho (Jorge Revolta).
Geralmente ele vive com outra filha mas nesse dia a Dores foi buscá-lo para ele cavaquear com o meu marido, durante o jantar que nos ofereceu. Ele há pelo menos seis anos que é viúvo, de maneira que agora vive com uma das filhas. Tem já bastante idade e diz ele que a mãe nunca o ensinou a cozinhar. Sempre trabalhou nos campos. A cozinha não era com ele.
Como já vos contei atrás na crónica, o senhor Armando que foi nascido e criado na Quinta do Mosteiro, era caseiro de uma das cinco partes, ou seja havia no Mosteiro cinco caseiros.
A sua era das mais férteis pois “ tinha anos que dava trinta pipas de vinho”. Mas não era fácil fazer aquela poda toda, tratar da vinha e vindimar. E era tudo a medidas. Era a quase a metade de tudo quanto colhia.
O Sr. Armando com a sua filha mais nova e seu genro acompanhados do neto Vítor
O Sr. Armando com a sua filha mais nova e seu genro acompanhados do neto Vítor
O senhor Armando era muito conhecido mas também conhecia toda a gente. Hoje as coisas já não são bem assim. Hoje já não há aquele contacto de uns com os outros. Pessoalmente acho as pessoas destes tempos, neste século XXI, um pouco mais frias e indiferentes. Hoje já vão sendo raras as amizades verdadeiras e esta coisa de dar a “camisa do corpo” por alguém de quem se gosta já é considerado um fenómeno! Felizmente ainda há alguns. Convivi sempre de perto com as pessoas desde pequena especialmente com os agricultores que conviviam com os meus avós e era muitas vezes através deles que eu fixava tudo o que se passava à minha volta. E acreditem, também trabalhei nos campos. Por esse motivo, tenho um certo à vontade para falar da vida agrícola. Dou graças a Deus por essa minha maneira de ser porque hoje passados tantos anos me servem de inspiração.
Durante o jantar, enquanto o Nelo interpelava o senhor Armando Silva e ele respondia muito satisfeito às questões, eu ia recordando o tempo em que aqueles caseiros todos viviam na Quinta do Mosteiro. Para mim há mais ou menos quarenta e tal anos.
Lembro-me bem de um criança morrer afogada no ribeiro, a qual era filha de um dos caseiros. Andava eu no colégio e isso marcou-me muito.
Enquanto o senhor Armando falava entusiasmado com o Carneiro eu ia conversando um pouco de tudo com a Dores tendo ela contado que nos anos em que foi para o lugar do Pinheiro, Refojos o seu pai se dedicava a fazer escadas de madeira para subir às vinhas ou para outros trabalhos em que fossem necessárias. Até para subir e pintar paredes. Isto enquanto a idade o permitiu.
O casal D. Cândida e Sr. Armando
O casal D. Cândida e Sr. Armando
Hoje, já com noventa anos, ainda mantém uma figura invejável! Tem uma memória que nem vos conto. É muito acarinhado pelos seus nove filhos ainda todos vivos, graças a Deus. Desloca-se muitas vezes a pé para casa dos filhos agarrado à sua bengala.
Isto que eu escrevi é coisas simples sobre o senhor Armando do Mosteiro de Dentro. A história íntima da sua vida e a as suas origens ao pormenor deixarei para o Manuel Carneiro, porque ele é que é o pesquisador da história local.
Pela minha parte digo que foi um bocado bem passado e um motivo de orgulho este convívio com o Armando do Mosteiro de Dentro, um homem para quem a palavra dada valia mais que todo o dinheiro do mundo. Eram assim os homens honrados de outros tempos.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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