Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-08-2008

SECÇÃO: Opinião

CONTOS E NARRATIVAS
ESTÁ EM SENTIDO, NÃO MEXE

A incorporação do segundo turno de tropas do ano de 1966 verificou-se a dois de Maio, era uma segunda-feira e estava um belo dia de sol. Ao longo de toda a manhã e ainda parte da tarde, os mais de mil rapazes apresentaram-se junto da porta de armas do quartel.
Uma boa parte dos recrutas provinha de todos os concelhos dos distritos de Vila Real e Bragança, mas vinham também de municípios limítrofes da área do distrito de Braga e, um ou outro, dos mais variados locais de todo o país. Havia alguns que vinham do Alentejo, ou até mesmo do Algarve. Qual a razão de virem de tão longe assentar praça em Vila Real, por enquanto ninguém sabia explicar.
Muitos chegaram nas camionetas da carreira, outros, que vinham de localidades onde não havia camionetas da carreira com horários compatíveis, tiveram que utilizar carros de praça. Porém, um grande grupo, talvez a maioria, chegou a Vila Real utilizando o comboio. Eram todos os que vinham dos lados do Porto e dos concelhos do Vale do Tâmega. Estes últimos, porque utilizaram a automotora da linha com o mesmo nome, a linha do Vale do Tâmega, até à Livração, apanhando aí o comboio que os levara até à Régua e depois, dali, o vagaroso “linha estreita”, até à estação de Vila Real, localizada na margem esquerda do rio Corgo.
Apesar de ser a capital do distrito, em 1966, a cidade de Vila Real mantinha-se uma pequena cidade de interior. Era servida por duas estradas nacionais: a estrada nacional n.º 2 que ligava Faro a Chaves, passando pela Régua; e a estrada nacional n.º 15 que ligava o Porto a Bragança, passando por Amarante.
Dentro de barreiras, as duas estradas seguiam o mesmo traçado, encontravam-se no entroncamento de Parada de Cunhos e separavam-se no entroncamento do Largo da Conceição, mesmo em frente à porta de armas do quartel do Regimento de Infantaria n.º 13. A partir dali, a n.º 2 flectia para a esquerda, no sentido de Vila Pouca de Aguiar, e a n.º 15 seguia em frente no sentido de Murça, passando a ponte da Timpeira, que ficava ali a algumas dezenas de metros apenas.
Dada a cadência da chegada, alguns vinham mesmo de muito longe, utilizando transportes diversos a que recorriam pela primeira vez, já passava do meio-dia e ainda não tinha terminado a fase de apresentação, junto da porta de armas. Assim, foi decidido que os procedimentos de registo, e outros, teriam início depois do almoço, quando fossem duas horas da tarde.
A grande maioria da tropa era constituída por rapazes oriundos do meio rural e fazia-se acompanhar, cada um, do seu pequeno farnel, que as mães lhe tinham preparado para a viagem. Sentaram-se nos lancis que ladeavam os espaços de circulação entre as instalações e comeram ali, cada qual, o seu pequeno merendeiro. Alguns, já mais gente fina, e que vinham de cidades como o Porto, não se faziam acompanhar de qualquer farnel, pediram autorização para sair do quartel e foram almoçar à cidade.
Muito naturalmente, como todos os outros o terão feito, o José do Rego Capelo dirigiu-se, na sexta-feira anterior, dia 29 de Abril, à Secretaria da Câmara Municipal, exibindo o aviso que recebera dos Serviços de Recrutamento e Mobilização do Ministério de Exército, no qual era referido que ali deveria dirigir-se, a fim de lhe serem fornecidas guias de marcha para transporte em caminho-de-ferro. Foi o próprio Chefe da Secretaria da Câmara Municipal quem lhe entregou o respectivo documento de transporte e lhe desejou boa sorte.
Como já o fizera centenas de vezes, no tempo em que trabalhara na instalação dos telefones subterrâneos na Vila do Arco de Baúlhe, mais uma vez percorreu a distância de seis quilómetros, que separa a sede do concelho da estação dos caminhos-de-ferro do Arco de Baúlhe, a pé. Mesmo que quisesse utilizar o transporte público, àquela hora da manhã não havia camionetas da carreira. Recorrer a um dos carros de praça ficar-lhe-ia muito caro e, além do mais, já estava muito habituado a fazer aquele percurso a pé, pelo que o esforço físico motivado por tal viagem não seria questão que se levantasse. Era uma hora de viagem para quem andasse bem.
Saiu de casa quando eram seis horas da manhã. A mãe tinha-lhe preparado uma pequena merenda, que ele levava numa sacola pendurada do ombro esquerdo. Na mão direita, levava uma pequena maleta com alguns objectos de uso pessoal, onde depois guardaria a sua roupa civil após ter recebido a farda.
Chegou à estação do Arco de Baúlhe às sete horas e poucos minutos. Já ali se encontravam alguns rapazes que, como ele, se dirigiam para Vila Real. De imediato, tomou conhecimento com todos eles. Em grupo, dirigiram-se ao guichet da estação e exibiram as guias que, no final da semana anterior, cada um tinha ido levantar à Secretaria da Câmara Municipal. O Chefe da Estação deu-lhes em troca, a cada um, o seu bilhete que serviria para todo o percurso, em caminho-de-ferro, dali até Vila Real.
À hora da partida, sete e quinze, o Chefe da Estação deu o apito da praxe, e a automotora iniciou a sua marcha, soando também uma buzinadela, com destino à Livração. Em todas as estações e apeadeiros entravam rapazes cujo destino se adivinhava logo, era a tropa. Quando a composição chegou à Livração, por volta das nove horas, ia quase repleta, só de rapazes, que se dirigiam para Vila Real, e com destino ao quartel.

Adriano Tormentelo

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