Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-07-2008

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (90)

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QUESTÕES DE RAÇA

O Europeu de 2008, que decorreu no período de sete a vinte e nove do passado mês de Junho, teve a sua final às dezanove horas e quarenta e cinco minutos do dia 29, domingo, no estádio Hernst Happel, em Viena de Áustria.
Para além dos jogos em que Portugal participou, assisti a todos aqueles que foram transmitidos em canal aberto de televisão, neste caso através da TVI.
Portugal, infelizmente, ficou-se pelos quartos de final, tendo sido eliminado pela Alemanha, com o resultado de dois a três, ou três a dois, dependendo da posição em que nos agrade mais colocar Portugal, na posição de visitado, ou na posição de visitante. Oficialmente, Portugal ocupou a posição de visitado, daí que, em todos os jornais o resultado apareça como sendo de dois a três.
Parece que ninguém ficou com dúvidas quanto à justiça do resultado. A Alemanha jogou mais e melhor, logo, mereceu ganhar.
Como dizia, assisti à maior parte dos jogos pela televisão e, como não podia deixar de ser, não falhei a final. Devo confessar que, de todo o espectáculo que nos é oferecido por esta categoria de transmissões, a parte que eu aprecio mais é o perfilamento inicial das equipas e o entoar dos respectivos hinos nacionais.
Em termos de sonoridade, e para além da Portuguesa, os dois hinos que sempre mais me têm tocado são o hino dos Estados Unidos da América e o hino da ex-URSS, agora herdado, até certo ponto, pela actual Rússia. Eu aprecio a melodia destes dois hinos.
A final foi disputada entre as selecções da Alemanha e da Espanha. Quando se está em presença de um jogo como este, em que a nossa equipa não está ali, nós podemos ter dois tipos de atitude relativamente ao desenrolar do jogo: podemos ter uma atitude de natureza positiva, isto é, o ideal para nós seria que ambos ganhassem; ou podemos ter uma atitude de natureza negativa, isto é, o ideal para nós seria que ambos perdessem.
Devo confessar que, neste caso, a minha atitude era, e foi, de natureza negativa. Para mim o ideal seria que ambos perdessem. Mas, como só um poderia perder, eu torci para que perdesse a Alemanha, apesar de tudo ficaria mais contente se a Espanha não saísse derrotada. O resultado acabou por me correr de feição. Terminei bem aquele domingo, assim como a minha participação no campeonato, assistindo aos jogos pela televisão.
Ao longo dos últimos anos tenho-me cruzado com inúmeros grupos de espanhóis, um pouco por todo o mundo, e, como tenho constatado, onde quer que chegue, ou onde quer que se encontre um grupo de espanhóis, a algazarra e a boa disposição são características que se notam de imediato. Onde há um grupo de espanhóis nunca há tristeza e muito menos haverá silêncio.
Não tenho convivido tanto, ou não tenho convivido quase nada, com alemães. Do meu convívio com alemães registo apenas aquele que tenho mantido com o pessoal de cabine dos aviões da Lufthansa que, apesar de tudo, e passe a imodéstia, já se traduz em algumas dezenas de horas. Não tenho qualquer razão de queixa do pessoal de bordo da transportadora aérea alemã, muito menos das hospedeiras, que admiro, em particular pela sua aparência, pelo seu porte atlético e, sobretudo, pela sua eficiência.
Contrariamente aos espanhóis que, como acaba de ser referido, são alegres e ruidosos, a ideia que parece todos termos dos alemães, é a ideia de que são frios, distantes, práticos e objectivos.
Porém, quando assistia à entoação dos hinos nacionais, primeiro o espanhol, depois o alemão, com os jogadores e os árbitros perfilados, os jogadores de ambas as equipas com os braços entrelaçados sobre os ombros uns dos outros, aquela ideia que tinha sobre a alegria dos espanhóis e a frieza dos alemães, parece ter-se dissipado. Mais ainda, inverteu-se.
Penso que não terei sido o único que reparou no pormenor, estou mesmo convencido de que muita gente, por todo o mundo, o terá notado. O pormenor a que me refiro foi que, enquanto se ouviu o hino nacional de Espanha, nenhum dos jogadores daquela selecção mexeu os lábios para articular uma única palavra da sua letra. Mantiveram-se todos extremamente sérios, lábios cerrados, com os olhares fixos, ou para a frente, ou ligeiramente para cima.
Pelo contrário, todos os jogadores da selecção alemã acompanharam a entoação do seu hino nacional, com grande entusiasmo e a plenos pulmões.
No final da cerimónia dos hinos nacionais, questionei o familiar que estava a meu lado:
- Reparaste naquilo? Onde é que está o euforia dos espanhóis, e a frieza dos alemães?
O meu familiar respondeu:
- Na verdade parece que as coisas se inverteram. Acabo de presenciar um facto que, se mo contassem sem que eu tivesse visto, não acreditaria.
De qualquer modo as assistências, que eram numerosas, tanto do lado espanhol como do lado alemão, acabaram por se portar à altura dos acontecimentos.
Quanto aos alemães, e ainda sobre a postura dos seus jogadores cantando o seu hino a plenos pulmões, ninguém me levará a concluir que não se trata de uma questão de raça. Quer se goste, quer não, é a raça dos alemães.
A propósito do vocábulo “raça”, fez-me imensa pena, desgostou-me mesmo, o alarido que certa classe política, alguns “politiquecos” cá da nossa praça, que nunca na vida passaram por uma dificuldade, fizeram relativamente a frase que o Presidente da República deixou escapar por altura das comemorações do passado dez de Junho.
Mal vai o país que elege como seus representantes rapazinhos, ou rapariguinhas, que se amofinam com a expressão de uma palavra de que, no final de contas, deveriam era orgulhar-se. Porque raça é raça! Quem não tem raça não presta!
No final, e agora voltando ao meu ponto de vista sobre preferências quanto a vencedores e vencidos, acabou por perder a equipa pela qual eu torcia mais para que perdesse. Não podiam sair dali as duas equipas derrotadas, então que perdesse a Alemanha!

Por: José Costa Oliveira

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