Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2008

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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Futuro

1. Duas andorinhas costumam acampar, à entrada da Primavera, numa parede da casa ribeirapenense onde resido. Ali fazem, depois, a sua casa, exactamente sobre a janela do quarto de minha filha (que está quase sempre ausente, porque cresceu e me fugiu).
2. É uma engenharia feita de asas, bocas, terra, folhas, tempo e paciência. Habituei-me a, no segredo das tardes transmontanas, observar estas aves em seu ofício de pais preparando a descendência. Voam tantas vezes para lá e para cá; e há ocasiões em que parecem desistir mas não desistem; e há momentos em que parecem frágeis mas são fortes.
3. O espectáculo continua com os filhos devindos, que se assemelham, no princípio da sua existência, a nervosos pontos de exclamação ou interrogação, comem reticências ou pontos finais (trazidos pelos progenitores nos parêntesis dos bicos) e tremem como vírgulas. Um dia voarão.
4. Talvez eu não esteja cá, no final do Verão, para os ver partir. Mas sei que as andorinhas voltam.
5. Que tem isto a ver connosco, senhores professores?
6. É que eu, nesta cartografia da crença que vos contei, gostava que fôssemos como andorinhas persistentes.
7. Também gostava que o quarto da minha filha tivesse sempre lá, perto de mim, a minha filha. Mas, ao contrário do que sucede com os governos, o Tempo é mais forte que um pobre professor com saudades.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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