Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (10)

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9 – Era a época das chuvas tropicais, tinha chovido torrencialmente quando tive que me deslocar à cidade da Beira. Foi comigo a minha mulher mas quando chegamos a Vila Machado foi-nos dito no bar do grego que não se podia atravessar o rio Pungué porque havia uma área de três kms inundada.
Como um camionista se prontificou a ir connosco dizendo que se podia passar e que conhecia bem a estrada, lá fomos e pouco à frente entramos na zona alagada. A minha viatura era uma Toyota Dinna bastante alta que aos poucos ia mergulhando na água cada vez mais até à zona dos pedais ficar alagado, o tubo de escape ia dentro da água e a temperatura baixou a zero. Era indescritível o medo que sentimos. Invocando ao meus filhos pedi a Deus para sair daquela situação. A orientação na condução era feita pelos caniços da berma da estrada que se agitavam à passagem da corrente.
Providencialmente passa por nós um geepão, segui atrás dele e só respirei de alívio quando o vi lentamente submergir daquela maldita corrente. Foi uma imprudência cometida que nos podia ter roubado a vida, mas felizmente acabou bem.
10 – Passamos agora para uma história mais suave cuja protagonista é uma galinha com vocação para a mecânica automóvel.
Procedia eu à limpeza do motos do meu Fiat, quando notei que uma galinha andava a rondar o carro. Chegara visitas e quando fui fechar o capo era já noite cerrada. No dia seguinte calculo ter andado cerca de sessenta kms. e passadas vinte e quatro horas fui dar uma voltinha quando ouvi uma barulho. Parei abri o capo do carro e fiquei estupefacto quando de lá salta uma galinha que muito ligeirinha fugiu para o mato. Corri atrás dela, levei-a para casa e à luz do Petromax dei-lhe milho até mais não querer. Só então reflecti no que tinha acontecido.
Afinal a galinha nem queria ser mecânica nem testar a sua resistência ao calor do motor, quis sim procurar lugar para por o ovo que por sinal já estava partido.
11 - A história do macaco pintado é de certo modo engraçada. Os pretos não sendo grandes trabalhadores, sempre cultivavam pequenas parcelas de terreno semeando milho, mapira, roqueza, mandioca, amendoim, etc. Mas os macacos era para eles um problema comiam tudo. Um dos macacos subia ao ponto mais alto duma árvore e vigiava tudo enquanto os outros roubavam e depois tinham que repartir com o vigia. Se eram os pretinhos pequenos a espantá-los, logo os macacos grandes metiam medo à pequenada e só fugiam à aproximação de adultos.
Um dia montaram uma armadilha e apanharam um macaco. Pintaram-no de branco e de seguida foi solto para se juntar ao grupo que assistia à cena. Mas o grupo ao ver uma macaco branco que corria para eles desatou a fugir e foi remédio santo durante uns tempos.
12 – Os nativos gostavam muito de ratos assados, mas só os do monte porque os de casa não os comiam, aos do mato chamavam beua e aos de casa gonzo. Na época dos incêndios o terreno ficava pelado e as tocas dos ratos à mostra e era então que em grupo faziam as caçadas aos ratos.
Mulheres e crianças munidos de um ramo de árvore dispunham-se em círculo e quando a mulher da sachola tirava o rato para fora era toda a gente a dar-lhe com o ramos até ele esticar o pernil. Quando o balde ficava cheio cortavam varas que abertas ao meio dava para segurar os ratos, então faziam uma fogueira espetavam varas que abertas ao meio dava para segurar os ratos, então faziam uma fogueira espetavam as varas no chão de forma inclinada e assim se fazia uma churrascada de ratos, o pelo todo engordurado era retirado muito suavemente e só depois começava o banquete. Diziam eles (inhama beua muche maning.) a carne de rato é muito boa.
13 – Cabrito era o nome dum homem que trabalhava comigo. Era casado mas não tinha filhos e quando isso acontecia os casais negros volta e meia andavam a porra e à massa. Um dia o Cabrito chegou junto de mim chorando copiosamente. Tinha tido uma ligeira discussão com a mulher e esta desapareceu. Ele depois de muito procurar foi encontrá-la morta. Lá fui eu com ele ao meio do mato e pendurada numa árvore pequena estava o corpo da pobre mulher que muito me impressionou pois tinha a língua toda de fora e presa no canto da boca. Comuniquei o caso à Polícia e ao Ministério Público que vieram ao local e mandaram remover o cadáver. Aos poucos o Cabrito lá se foi recompondo e até tinha um bonito milheiral junto ao meu quintal. Uma noite o meu cão nikita farejou um javali no milho do Cabrito, investiu contra ele mas o javali com um dente rasgou o cão de tal maneira que tive trabalho para o conseguir salvar.
Então o Cabrito lembrou-se fazer um arco à Robin dos Bosques e também uma flecha e logo pressentiu o bicho no silêncio da noite disparou certeiro, o bicho caiu e o Cabrito com um pequeno machado fez o resto. Quando cheguei a casa já tarde estava ele à minha espera para me dar a novidade e mostrar o troféu.

Por: Alexandre Teixeira

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