Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2008

SECÇÃO: Reportagem

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Depois do campo lavrado
Chegou a hora da sacha

Sachadeiras do meu milho
Sachai o meu milho bem
Não olheis para o caminho
Que a merenda logo vem.

Este nosso patrão de hoje
Tem cem anos e um dia
Se ele nos tratar bem
Voltaremos noutro dia

Atrás da serra já nasce o sol
Atrás da serra já faz calor
Ai quem me dera
Nesta santa hora
Ver o meu amor

Casaste-te ó Rosa
Para não trabalhar
Trabalhos na vida
Não te hão-de faltar

Você diz que tem rendinhas
Você rendinhas não tem
Por baixo dessas rendinhas
Bulo eu e mais ninguém

Da minha saia amarela
Fiz umas calças ao homem
Nós temos por obrigação
De ranhar onde nos come

Na barra da minha saia
Na Barra do meu saiote
Se chegasse mais acima
Via a santinha do Pote

Ó flor da laranjeira
Já te podes ir embora
O meu pai não vai para a cama
E eu não posso lá ir fora

Dá-me um beijo Rosa
Dá-me um beijo sim
Dá-me um beijo Rosa
Viradinha para o jardim.

A D. Rosa a mondar e a animar o grupo
A D. Rosa a mondar e a animar o grupo
Foi ao som destas quadras brejeiras e antiquíssimas que cheguei ao campo do milho que estava a ser sachado por um grupo de mulheres e homens bem dispostos! As mulheres eram em maior número mas também havia homens, entre os quais o Miguelzinho e o Celestino do Grupo dos Bombos dos Zés Pereiras, um dos organizadores. E todos estavam a levar a tarefa de sachar o milho muito a sério!
Para avivar memórias, este campo em que hoje nos encontramos é o mesmo que no 1º de Maio, do mês passado, serviu para se fazer uma recreação de uma lavrada à moda antiga. Este campo que pertence ao senhor António Duro Magalhães, da Casa da Portela, na Ponte de Pé, que pôs à disposição da Emunibasto, Câmara Municipal, Associação dos Zés Pereiras, Juntas de Freguesia e Centros de Dia, para que fosse possível dar “uma aula” sobre uma lavoura à moda antiga. E tal foi feito até ao último pormenor! Esse dia foi um grande acontecimento em Cabeceiras de Basto! Pessoas de todas as freguesias do concelho vieram alegremente participar neste evento já algo raro! Mesmo eu, que também percebo bastante da vida agrícola pois nela trabalhei pelo menos até cerca dos 17 anos, fiquei emocionada e eufórica com a actividade agrícola daquele dia. Daí ter tirado fotografias a tudo quanto se passava nesta tarefa.
Também fui informada pelos responsáveis atrás referidos que, se iriam seguir os passos tradicionais no tratamento do campo do milho e feijão, no dia a dia. Quer dizer: teria ainda de se sachar, de mondar o milho, de regá-lo e cortar as “crochas ou pendões” que servem para a alimentação do gado bovino quando estão grandes e verdes. Depois é esperar que as espigas do milho estejam prontas para se fazer a colheita seguida da desfolhada.
A Filomena de Paçô toda animada com a sachola na mão
A Filomena de Paçô toda animada com a sachola na mão
Tenho reparado, que hoje já se desfolha o milho de pé, directamente da planta para os cestos sem o cortar mas, de certeza absoluta, quando chegar o dia de se desfolhar este, o que acontecerá lá para os meados de Setembro, vai ser feita à maneira antiga. Essa desfolhada de certeza que vai ser integrada nas Festas do Padroeiro S. Miguel de Refojos, em Setembro e então será a vez de falar sobre ela. Hoje é sobre a sachada a que vim assistir que quero falar, no meu encontro com as cantadeiras e sachadeiras e ouvir o que elas têm para me contar.
Ao aproximar-me verifiquei que os conhecia a todos. Mas vi logo três “veteranas” nestas andanças. A D. Rosa da Cunha Oliveira Marinho, da Portela do Arco, a D. Júlia dos Prazeres Carvalho, do Souto, ambas da freguesia do Arco de Baúlhe, e a D. Filomena Teixeira, de Paçô, da freguesia de Refojos. Já todo o concelho conhece a alegria contagiante destas três mulheres. São extremamente alegres apesar de a saúde muitas vezes não ajudar. Sempre as vi participar nos cortejos etnográficos desde que a Emunibasto recomeçou esta tradição.
- Olhem quem eu aqui encontro – disse eu virando-me para as três, apesar de não ficar surpreendida… - Vocês é que são umas valentes, estão sempre presentes e activas.
A senhora Júlia, devido a problemas com os ossos, anda de bengala. Mas a cantar não há quem a “bata”!
- Então isso vai ou não vai? - pergunto eu, já de máquina fotográfica em punho.
A Júlia dos Prazeres e a D. Rosa Marinho cantando umas quadras a animar o grupo
A Júlia dos Prazeres e a D. Rosa Marinho cantando umas quadras a animar o grupo
Elas também sabem que quando apareço nestas andanças já é para lhes tirar o retrato. E disfarçadamente vão-se pondo a jeito para ficarem bonitas na fotografia.
Vão falando sem deixar de deitar a sachola em volta do milho para lhe tirar as ervas e também vão “mondando” o milho onde ele está sobreposto.
- Nesta sachada que fazemos para mostrar às pessoas vem muita gente para ajudar e outros só para assistir - diz a Rosa Marinho. Antigamente estes trabalhos das lavouras eram feitos entre os da casa e os vizinhos. Sem pagar dinheiro. Ajudávamo-nos uns aos outros. Lembras-te Júlia?
- Se me lembra – recorda ela. Embora eu soubesse que eram tempos duros e de muito trabalho quis continuar a ouvi-las.
A mondadeira do milho
A mondadeira do milho
- Digam-me minhas amigas a que horas vocês iam para o campo sachar o
o milho? Com o calor que fazia…
- Ai Fernandinha iamos logo às seis horas da manhã. Por volta aí das nove ou dez horas aparecia alguém com um cesto e trazia dentro um pote com a sopa, para ir quentinha, pãozinho e uma pinguinha para ajudar a empurrar. O feijão na sopa contava-se pelos dedos naquele tempo.
- Também se comia umas pataniscas feitas de farinha milha, mexidas com águas, cebola picada, salsa e um ovito se o houvesse – retorquia a Júlia dos Prazeres.
Então digam-me lá e na hora do almoço, que era sempre por volta do meio dia quando se tinham pessoas de fora a trabalhar, o que costumavam comer?
- Uma massita ou arroz com feijão amarelo, e com um bocadito de bacalhau só para dar gosto – respondeu a Júlia dos Prazeres que é uma mulher toda despachada. Quanto à pinguita do nosso verdinho às vezes já era mais a água do que o vinho mas, meu amigo, era o que se podia fazer!
O sacho animado
O sacho animado
- Mas era uma alegria, lá isso era – diz a Rosa Marinho.
O Celestino dos Bombos dos Zés Pereiras ia ouvindo e acenava com a cabeça mas não parava de sachar. Ele não tencionava deixar que as mulheres lhe passassem à frente.
- Ó mulheres, vamos lá – diz o Miguelzinho - olhai as horas, temos este campo para sachar e ainda estamos muito atrasados! Vamos lá a ver se levamos isto a “eito”!
Fui ouvindo e tirando fotografias a todos e assentando no meu blocozinho todas as quadras que elas iam cantando.
As cantigas que elas cantavam ao mesmo tempo que se ouvia a água borbulhante a correr do rio da Ponte de Pé fez-me sentir uma enorme saudade do tempo das sachadas dos meus avós e dos meus pais.
Vista panorâmica da sachada em cima do Alto da Ponte de Pé
Vista panorâmica da sachada em cima do Alto da Ponte de Pé
Espero que o Poder Local não deixe morrer estes costumes e tradições. Que se façam de vez em quando estas “serviçadas” da lavoura à “moda antiga”.
Eu, mesmo não pegando na sachola, senti-me honrada por participar neste evento e poder registá-lo para a posteridade.
É por isso que em nome de todos que puderam assistir, digo a quantos colaboraram na “sachada”:
Obrigada por esta lição!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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