Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

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Manuel Joaquim Pinto, 94 anos
Um romance à moda antiga

Senhor Pinto na nossa conversa ao telefone falou-me nuns versos que dedicou à sua esposa. Eu queria que você mos recitasse.
Eu cito-os já! Eu tinha um livrinho cheio de quadras todas feitas por mim mas, desapareceu-me. Não sei se foi algum dos rapazes que o encontrou e guardou ou o que é que foi feito dele ou até se foi a mulher que lá ia fazer a limpeza, não sei! No entanto há três que nunca me esqueceram: dois quando começamos a namorar e um depois dela morrer! Os primeiros que lhe fiz foram estes:
Raquel, flor deslumbrante
Que cara mimosa a tua
O teu olhar fulgurante
Tem mais brilho que a lua!
Teus olhos são como estrelas
A brilhar no firmamento
Teu rosto formoso e belo
Não me sai do pensamento
Depois dela morrer, ia eu um dia para a quinta, que é aqui perto, e em baixo ouvi uma rapariga a cantar. A sua voz parecia mesmo a dela (a esposa). Eu parei, ouvi, ouvi e ouvi! Quando ela parou de cantar fiz esta quadra:
Ouvi uma voz cantar
E com saudades chorei
Essa voz fez-me lembrar
A esposa que tanto amei!
Senhor Pinto certamente enquanto esteve no Abilinho em Cabeceiras fez lá amigos. Ainda se lembra dos filhos dele?
Dos filhos do senhor Abílio? O mais novo, o Valdemar nasceu quando eu lá estava. Os outros já tinham nascido e o Valdemar era dos mais novos.
E de outros que tenha conhecido em Cabeceiras no seu tempo? Ainda se lembra? Recorda-se? Ainda manteve algumas relações de amizade?
Ora bem, havia várias pessoas.
- Ó pai com quem aprendeu a tocar guitarra e viola – perguntou um dos filhos de Manuel Joaquim Pinto que estava perto e que não resistiu a intervir – que era ao lado da escola (no Campo do Seco)? Como se chamava aquele senhor?
Não, a guitarra eu já sabia tocar qualquer coisa, já tinha uma guitarrita fraca mas depois comprei uma guitarra boa!
- Mas com quem é que tocava lá quando faziam as serenatas? Volveu o filho, enquanto vai embrulhando uma caixa de vinho do Porto para um cliente.
Ah era um rapaz que estava no Porto e andava a estudar e era filho de um senhor que estava a seguir ao Abílio. Era mesmo a casa que estava apegada ao armazém do Abilinho.
Se bem me lembro senhor Pinto era o Adelinho - referi tentando ajudar.
Isso mesmo! Tinha a casa de fazendas, depois tinha a de mercearia do Senhor Abílio e depois outra casa que era a do Adelinho.
Esse Adelinho tinha um filho que tocava muito bem viola e uma ocasião foi lá um rapaz de quem eu já não me lembro o nome e pediu-me se eu ia fazer uma serenata a uma rapariga. Era numa freguesia perto do Arco de Baúlhe. Ia eu tocar guitarra e o tal filho do Adelinho viola e o namorado da rapariga ia cantar. Era mesmo ao pé de uma igreja que era onde morava a namorada. E nós lá fomos. Estava uma noite fria e húmida e o rapaz começou a cantar. À segunda vez que cantou começou a enrouquecer até não poder cantar mais.
Foi em Vila Nune?
Sim, talvez.
O que é certo é que tivemos de ir embora. E então fiz esta quadra:
Não acordemos Jesus
Que está a dormir no Sacrário
Tomemos a nossa cruz
E sigamos nosso fadário
O Senhor Pinto tendo em conta os anos que já passaram mantém uma figura invejável, possui uma escrita impecável. Tudo isso me despertou a curiosidade pelo que não resisti a fazer-lhe esta entrevista. Afinal eu conheço o seu nome e a sua letra há mais de 22 anos, desde o tempo do nosso antigo jornal O Basto.
Só é pena que as pernas o não ajudem, que de resto está aí um rapaz!
Sabe? Eu compro tapeçarias a uma casa já há muitos anos e vem cá o viajante de vez em quanto. Já para aí há dois anos veio aqui o viajante e vinha um senhor atrás, baixinho, forte. O viajante entrou, cumprimentou-me e disse-me:
- Senhor Pinto apresento-lhe aqui o meu patrão, o senhor fulano de tal. Eu fiquei admirado do homem vir aqui! Diz-me ele:
- Eu vim aqui para o conhecer pessoalmente!
Então perguntei:
- Mas porquê?
- Porque admiro a maneira como fala ao telefone e como resolve os seus problemas, com essa idade!
Eu fiquei muito admirado, de ele vir aqui de propósito para me conhecer!
Esse reconhecimento público senhor Pinto é sinal da vida honrada com que se pautou toda a sua vida. Já agora tenho uma pergunta pessoal a fazer-lhe. Não tem nenhuma receita que me possa dar para eu saber como posso chegar à sua linda idade e com essa saúde?
Aí interveio o seu filho, que ao mesmo tempo que ia servindo os clientes ia prestando atenção à conversa do seu progenitor.
- Ora bem, o lema do meu pai é dormir cedo, levantar cedo, não beber fora das refeições, beber pouco e andar de bicicleta de pedal daquelas de pesar para aí dez quilos. Às dez horas já está na cama, às sete ou sete e meia da manhã já está de pé e não frequenta cafés. Gostava muito da bicicleta. Mesmo sem travões! Um dia entrou por um silvado dentro.
Ó senhor Pinto como foi isso?
- Foi verdade sim senhor! Olhe, até hoje tenho a bicicleta guardada na quinta.
Sabe quem me faz lembrar o senhor Pinto com essa vida sempre certinha e saudável? O Doutor Francisco Meireles, que infelizmente já não está entre nós. Segundo se diz e eu acredito, teve sempre uma alimentação e uma vida muito simples, saudável e, parece que tomava uma aspirina todos os dias. Morreu já com bastante idade, já passava dos noventa anos! Morreu quase há três anos. Foi pessoa muito estimada no concelho e fora dele.
- Olhe minha senhora eu nunca fui assim muito borguista, nem em solteiro, nem em quarenta anos de casado, nem depois de viúvo. Nem de gastar dinheiro à toa. Nunca, nunca! Fui sempre poupador!
- Senhor Pinto diga-me cá uma coisa. O senhor, infelizmente, ficou viúvo novo. Com a sua presença, a sua figura e com setenta anos devia ter senhoras a rondar a sua porta.
Ó minha senhora já tive seis que me propuseram casamento! A primeira era da cidade de Penafiel, senhora que eu não conhecia. Mandou um homem de propósito para falar comigo. Foi numa segunda-feira e eu tinha ido almoçar ali numa pensão que há aqui adiante. Chegou aqui e perguntou por mim a este empregado que já está aqui há trinta e três anos!
Já lá vai uma vida!
Então ele informou: - Ele não está, foi almoçar.
- Onde é que ele almoça?
O empregado disse-lhe onde eu estava e ele foi lá ter. Chegou ao restaurante e perguntou a uma empregada qual era a mesa em que o senhor Pinto, que tinha ali uma loja, estava.
- É aquele senhor que está acolá - respondeu-lhe ele.
Ele foi ter comigo à mesa e disse-me:
- Boa tarde.
Eu estranhei e aguardei para saber o que ele queria. Ele olhou para mim e comentou:
- O senhor não me conhece mas, vou-lhe dizer de onde sou e ao que venho. Eu fiquei a olhar para o homem.
- Sou da cidade de Penafiel e há lá uma senhora viúva, de cinquenta anos, muito bonita e muito boa senhora que resolveu tornar a casar e, pelas informações que teve, o senhor é que estava bom para ela!
Digo-lhe eu assim:
- Como é que ela conseguiu informações minhas sem me conhecer? Eu não a conheço!
- Eu, não sei. Estou a dar o recadinho tal e qual me deu.
- Então diga à senhora, que se realmente está disposta a casar tem de arranjar outro marido que eu não me quero casar!
- Ah mas vá por aí abaixo dar um passeio e vá vê-la. Como ela era bonita era a ver se me tentava. Respondi-lhe não porque eu não me queria casar.
Quando eu estava acolá nos senhores do pão-de-ló, havia uma rapariga ali perto de Longra, em Felgueiras que, andava aqui a ganhar dias nas casas e, depois faltou aqui muitos anos e no ano passado, em Agosto, entrou aqui e eu não a conheci. Ela na altura devia ter para aí 17 ou 18 anos, agora tem para aí quarenta ou cinquenta. Quando saíram umas pessoas que aqui estavam diz ela:
- O senhor Pinto já não me conhece?
- Eu não, respondi.
- De verdade não me conhece, nem se lembra do meu nome?
- Não senhora.
- Pois olhe, quando o senhor estava na casa do pão-de-ló eu andava aqui a ganhar dias.
Quando ela falou em ganhar dias, lembrei-me logo.
- Aonde é que você esteve que há tantos anos que a não vejo por aqui? Ela falava de uma maneira triste que metia pena e diz-me ela:
- Eu casei e fui com o meu homem para a França, chegamos lá e ele arranjou uma amante. Maltratava-me e até me chegou a bater! Separámo-nos. Eu vim me embora! - continuou ela a dizer com muita tristeza!
Era uma bonita mulher!
Senhor Pinto o que é que ela lhe queria e como é que apareceu ali passados tantos anos?
Ela virou-se para mim e disse:
- O Senhor Pinto é que podia casar comigo!
Eu respondi-lhe prontamente:
- Não caso consigo porque não posso. Fiz essa promessa à minha esposa na hora da morte e tenho de cumpri-la!
Ela foi-se embora e naquele dia ela não estava muito bem vestida. Passados dois dias eu estava aqui sentado como estou agora e vi-a vir acolá da Câmara para cá vestida como uma autêntica senhora, bem vestida, bem penteada e eu até disse ao empregado.
- Olha aquela senhora que aqui estava anteontem vem acolá se calhar vem-me chatear outra vez. Ela veio, entrou aqui, cumprimentou-me e perguntei:
- Então anda a passear?
- Não, vim à Caixa Geral e à Câmara e agora ia para a camioneta da meia hora. Como passei aqui pertinho, vinha cumprimentá-lo.
Ela veio cumprimentar-me para se mostrar e para mostrar que vinha bem vestida. Conversamos um bocadito até ela se despedir porque a hora do autocarro já se aproximava e, portanto ela foi-se embora.
A terceira era dos lados da Lixa e, essa era “amarotada”. Esteve aqui numa altura em que estava muito frio e diz ela assim:
- Está um frio que só se está bem na cama desde que se esteja bem acompanhadinha!
E digo-lhe eu assim:
- Olhe eu já não tenho essa sorte.
Porquê? - Perguntou-me a rapariga.
- Porque durmo sozinho e porque estou viúvo.
- Ai também estou viúva. Então case comigo que depois dormimos os dois e aquecemo-nos um ao outro!
- Não aquecemos porque eu não caso com nenhuma e disse-lhe o motivo e a mulher foi-se embora.
A quarta que me apareceu é que foi marota. Eu estava aqui de pé e ela chegou acolá à porta e espreitou. Eu não a conhecia, não sabia de onde era.
- Olá senhor Pinto está com um aspecto tão bom, parece um rapaz novo.
- Ai estou muito bonito, respondi-lhe eu a brincar. A “filha da mãe” veio junto de mim e sem eu contar deita-me as mãos ao pescoço puxa-me para a frente e deu-me um beijo de cada lado.
Depois pediu-me desculpa pelo arrebatamento mas foi dizendo que não estava arrependida do que fizera.
- O senhor mereceu bem os beijinhos que lhe dei porque ainda está muito bonito. Olhe não quer casar comigo? Case comigo senhor Pinto.
Eu disse-lhe que não queria. Ela continuou a teimar, a teimar, a teimar e eu quando tal disse-lhe:
- Ó minha senhora para ver que está a perder tempo tome nota do que lhe vou dizer:
- Se me aparecesse uma senhora vestida de ouro eu não a queria porque prometi isto e tenho de cumprir. Uma promessa que se faz na hora da morte tem que se cumprir. Não se pode falhar!
Agora a palavra de honra já não vale nada, pelo menos para algumas pessoas.
Devemos sempre honrar a palavra dada pois eu sei que se sofre, porque eu falei com a minha mãe e com o meu pai depois deles morrerem e passou-se o seguinte. A minha mãe morreu em 1950 e o meu pai em 1951 e passado algum tempo uma neta dele e nossa sobrinha que mora aqui numa freguesia próxima veio ali à quinta que era do meu pai falar com a caseira sobre qualquer coisa e quando tinha para aí doze anos ou pouco mais e quando vinha para a entrada da quinta que tem uma grande cancela de ferro como daqui até acolá adiante, que até entra lá um camião se for preciso. Quando vinha para a cancela para ir no caminho público, o que vai ter à estrada que vai dar onde ela mora viu o meu pai já depois de morrer, assim debruçado em cima da cancela. Mas, vá que a rapariga é corajosa e não teve medo! E, quando se aproximou ele disse-lhe:
- Olá cachopa! - que era como ele lhe chamava quando era vivo. E a rapariga pediu-lhe:
- Ó avozinho vá-se embora e deixe-nos, vá-se embora e deixe-nos! Ele virou costas e desapareceu e no dia seguinte veio-me aqui contar o sucedido. Disse que ele desapareceu mas que lhe pareceu a ela que o avô ia a chorar. Então eu pensei: isso deve ter sido sonho que a rapariga teve e, não liguei importância. Passados mais alguns dias tornou a minha sobrinha a dizer:
- Tio tornei a ver o avozinho! E a mesma conversa do costume.
- Ó diabo aqui há mais qualquer coisa - pensei!
Mais uns dias e aconteceu a terceira vez.
- Ó que “carago”! E no dia a seguir esteve aqui um viajante que me veio vender a fazenda e eu contei-lhe isto. E diz ele:
- Olhe que isso é assunto de bruxas! È assunto de espiritismo, tem de procurar uma pessoa que saiba fazer sessões de espiritismo, ela chama o espírito da pessoa que morreu e o espírito da pessoa que morreu fala nela e diz aquilo que precisa e o que quer.
- Mas eu não conheço ninguém!
- Eu digo-lhe onde há-de ir – diz o viajante. - Vá a Ermesinde à D. Aninhas, que é uma senhora assim baixinha, que ela faz-lhe isso muito bem. E eu até já lá fui.
Deu-me a morada da rua e passado um dia ou dois fomos lá eu e o meu irmão que morava aqui, o António e o que tinha a loja em Penafiel. Fomos os três. Chegamos lá e ela tinha já lá à espera para aí uma dúzia de pessoas para serem atendidas. Quando chegou a nossa vez nós entramos, e ela disse:
- Façam favor de se sentar.
Ela sentou-se à nossa frente virada para nós.
- Então que é que os senhores desejam?
- Olhe minha senhora a nossa mãe morreu em 1950 e o meu pai em 1951 e uma neta dele e nossa sobrinha já disse três vezes que viu o avô! Nós gostávamos de saber o que é e o que é preciso fazer.
- Como é que se chamavam a mãezinha e o paizinho? – perguntou ela. Disse-lhe os nomes e não nos perguntou nem nos disse mais nada. Fechou os olhos e juntou as mãos e começou a ouvir-se uma voz de mulher a falar nela onde conheci logo a voz da minha mãe! E dizia a voz:
- Ó Manuel que fazes por aqui?
- Olhe – disse eu - viemos dar um passeiozinho e, ao mesmo tempo saber se precisam de alguma coisa.
- Eu não preciso de nada, estou muito bem. Tudo que dei cá o encontrei! Agora ide falar com o vosso pai!
Senhor Pinto, estou arrepiada com essa história e com a sua coragem!
Ela desapareceu e apareceu a voz do meu pai e disse:
- Eu fiz umas promessas e morri sem as ter cumprido e era preciso cumpri-las para meu sossego. Eu pequei num papel e numa caneta e disse:
- Faça favor de dizer o que é:
Ele ia dizendo e eu tomava nota. Escrevi tudo para não esquecer nada. A certa altura ele parou e eu perguntei:
- Não é mais nada?
- Não é mais nada! - respondeu. E desapareceu logo!
Pagamos à senhora e viemos embora. No dia seguinte meti-me num carro e, tumba, tumba, tumba, paguei tudo que fazia parte das tais promessas. Nunca mais apareceu a ninguém! Portanto passou a ter o sossego eterno! Eu cheguei a uma conclusão: quem se portar bem neste mundo depois na morte tem a recompensa. Quem se portar mal tem o castigo!
Um misto de saudade e de felicidade espelhava-se no seu rosto. A lembrança da sua querida Néné, sempre presente, pinta-lhe na face a alegria de a ter supostamente a seu lado, exibindo garbosamente a honra do cumprimento daquela eterna promessa de amor, jurada naquele dia já tão longínquo.
E nós ficámos também felizes por conhecer um homem tão extraordinário, que passou, e ainda passa de vez em quando, uma parte da sua vida em Cabeceiras de Basto.
Que conte ainda muitos anos com toda essa jovialidade que o caracteriza, amigo senhor Pinto!
fernandacarneiro52@hotmail.com
(Continua)

Por: Fernanda Carneiro

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