Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2008

SECÇÃO: Opinião

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NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO
O Fidalgo – Mendigo (1)

Em 1854 Camilo publicou “um Livro”, colectânea de poesias, com fugazes recordações e reminiscências da sua mocidade ainda tão próxima, mas já tão vivida, Camilo tinha então 29 anos, mas a sua alma e o seu espírito eram já mais velhos. Este livro que anteriormente crismara como “Solidão”, dedicava-o a José Barbosa da Silva, seu benfeitor.
A páginas tantas surge uma poesia, sem dedicatória alguma e sem qualquer elemento que a um leigo permita descortinar a personagem que se esconde nestes versos:

Quem era este homem? Fallava
Como falla a inspiração
Tinha momentos sublimes
De impressiva exaltação.
Revelava infames crimes
Que não diz se d’elle são.
Quem era este homem? Se ria,
Eram sinistras risdadas;
O rosto pallido, exangue,
De rubor de vivo sangue,
De improviso, se tingia.
E, nos olhos coruscantes
De sangue, e ódio e furor…
No sei que medo, que horror
Aquele olhar incentia!
Quem era este homem?

Camilo revela a identidade desta sua personagem numa nota apensa no fim do volume. O grande escritor não foi um ficcionista na criação de personagens. Quase todas as grandes personagens da sua obra novelesca são figuras que conheceu, que existiram e a quem emprestou o toque do seu génio para as consagrar e imortalizar. Muitas destas personagens atravessam mais que um livro, sendo o caso mais conhecido o Eusébio Macário e a Corja.
Esta figura da poesia é a do Fidalgo – Mendigo que volta a surgir em 1857 no romance “Cenas da Foz”, na parte intitulada “Sorte em Preto”, onde participa Bento de Castro da Gama, senhor da Casa do Olho Vivo em Refojos de Basto, mas aqui devidamente identificado na trama do romance:
“Ali conhecemos José Pacheco de Andrade, morgado de uma casa ilustre, que nos ensinou a jogar o pau, como bom mestre que era! Na feira do Arco vimo-lo nós (João Júnior, isto é, Camilo e Bento) uma vez varrer a feira com admirável limpeza! Saltava como um gamo, e apanhava pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador do Barroso! Fui amigo d’este homem, e vi-o morrer vinte anos depois n’um palheiro, onde, mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo é uma história muito longa, e que já vi fugitivamente esboçado nos versos de não sei que livro”.
Este livro não é nem menos o que Camilo publicara 3 anos antes sob o título “Um Livro”:
Camilo não esquecia aquele fidalgo agora mendigo, agora mendigo. E não é capaz de o esquecer. Assim em 1863, incluído em “Noites de Lamego”, o grande novelista publica o célebre conto “Como ela o amava”, a história da romaria de S. Bartolomeu de Cavez de 23 de Agosto de 1842 (?) onde, pelo amor de Isabelinha de Reguengo, se defrontaram as hostes aguerridas dos valentões do morgado de Cerva e do Victor de Mondim. E a Isabelinha bem o merecia. Eis como Camilo, que a viu, a descreve: “a cantadeira da estúrdia era uma rapariga de dezoito anos, sécea e talhada a primor, carregada de ouro, mas ainda assim leve como uma arféloa, saltando quando não cantava, rindo a escancaras quando não saltava, linda como as dríades dos córregos, alegre como a felicidade das serras. Oh! Que moça! Que legião de tentadores demónios ia nela!”
A moça valia bem uma batalha.
Mas onde está o nosso fidalgo?
“O morgado Pacheco de Andrade abraçou o maioral da turba e concertou o plano da batalha”.
Armas já ele as tinha preparado: “Oito dias antes mandara demolhar em poças um braçado de paus de carvalho, com o fim de lhes dar elastério e cingirem-se melhor com as costas das vítimas”.
Camilo não esquece José Pacheco de Andrade. Recordo-o novamente, com saudade, em “mistérios de Fafe”, publicado em 1868. A cena passa-se na estalagem do Manuel Corvo, em Fafe, onde “em tempos não apartados se amaltavam as alcateas de salteadores que saíam no Ladário e Falperra”. Entre os quatro quadrilheiros que entraram, comandados pelo Trinca – Fígados, o Luís Negro chamou a atenção do estalajadeiro, que chamou a mulher:
- “Ó mulher (…) com quem te parece este moço?” – e indicava Luís Negro.
- “Não me escordo…” – disse ela, chegando-lhe a candeia ao rosto.
- “Não? Vê bem, Josefa!... Não te lembra o fidalgo de Cabeceiras?”
- “É verdade”Tem bastantes avultações do fidalgo…”
- “Quem diabo era esse fidalgo?” – perguntou o Negro.
- “Vocemecê nunca ouviu alumiar o senhor José Pacheco d’Andrade, filho do Capitão-Mor de Basto?”
E é pela boca de Manuel Corvo, o estalajadeiro, que Camilo desfia novamente a história de José Pacheco de Andrade, mas dando-o ainda vivo no ano em que “o estalajadeiro entregava à tradição oral os fastos do seu amigo freguês e amigo e isso permite-lhe acrescentar:
- “Pois, senhores, saibam vocemecês que vindo eu de Traz-os-Montes aqui há mezes, encontrei o fidalgo de Basto, na terra onde elle tivera uma casa com dez mulheres todas d’elle…”
- “Bom patusco!... – atalhou o Sete-Diabos.
- “Isto é que eu lhe invejo!” – bradou o Negro.
-”Também você, senhor Padre Pedro?!” – zombetou o Trinca-Fígados. “Olha cá o clérigo não se lhe dava ter as dez mulheres d’uma assentada, e fez caramunha por causa do outro ser ladrão de estrada!”.
Mas quem era este homem?

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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