Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2008

SECÇÃO: Opinião

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VANTAGENS COMPARATIVAS (88)
NA GARE MARITIMA DA TRAFARIA

No passado dia nove de Maio, deste ano de 2008, e por força da necessidade de somar alguns créditos para efeitos de manutenção da carteira profissional como TOC (Técnico Oficial de Contas), participei em mais um seminário organizado pela respectiva Câmara, o qual decorreu nas instalações da FIL (Feira Internacional de Lisboa), situadas na Praça das Indústrias, em Lisboa.
Devo confessar, muito sinceramente, que não sou grande apreciador deste tipo de encontros. Quando participo, faço-o com algum sacrifício e, sempre que a coisa se proporciona, tento “deixar vaga”, ou “dar o fora”, logo que possível.
Porém, este, de que aqui estou a falar, era um dos mais importantes levados a cabo pela CTOC (Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas). Versava questões pertinentíssimas sobre as áreas da contabilidade, da fiscalidade e da orçamentação, e tinha um naipe de oradores de renome internacional, provenientes de diversos países de raiz latina, em particular de Espanha, do Brasil, de Itália e de Portugal, como é evidente.
O anfiteatro estava completamente cheio, e a sua lotação é de mil e quatrocentos lugares. A meio da manhã, já depois do primeiro “break”, os trabalhos decorriam normalmente e, como todos sabemos, aparece sempre um ou outro participante que não resiste e passa pelas brasas. Mas, neste dia, as coisas estavam um pouco difíceis. A três lugares para a minha direita, estava um sujeito, que deveria ser pouco mais ou menos da minha idade, porém, de aspecto mais pesado. Talvez por ter aspecto mais pesado do que eu próprio, não resistiu e ressonava, produzindo um som semelhante ao de uma motorizada Pachancho quando está em ponto morto e com o motor a trabalhar. Entre mim e o dito sujeito estava um grupo de três participantes, duas mulheres e um homem, todos de meia-idade, deveriam rondar entre os trinta e cinco e os quarenta anos. Uma das mulheres, a que estava mesmo a meu lado, comentou para a outra: «se é assim agora, como irá ser depois do almoço?». Ao fim de dez minutos saíram os três, pelo meu lado, pedindo-me licença, para não acordarem o homem, e o espaço que mediava entre mim e o que dormia ficou vazio.
Ainda, três filas à minha frente, e na minha exacta direcção, havia outro participante que atendia constantemente o telemóvel e dava instruções para o seu escritório sobre lançamentos. Ouvi mesmo a frase: «manda-me mas é f. esse gajo, ele nem sequer nos paga!».
Dada a dimensão do anfiteatro, e a lotação com que se encontrava, isto não perturbava minimamente os oradores, que de facto eram do melhor que se pode esperar. A mim perturbavam-me, e não sei dizer muito bem qual foi o que me perturbou mais, se foi o que ressonava fazendo lembrar o trabalhar do motor de uma Pachancho, se o que atendia o telemóvel e dava instruções ao colaborador, ou colaboradora, no sentido de despachar o seu cliente.
O que é facto é que tive razões de sobra para abdicar da sessão que decorreria da parte de tarde e me decidir por ir almoçar à Trafaria. A Trafaria é um sítio que me é de certo modo querido. Estive lá pela primeira vez entre finais de 1966 e princípios de 1967. Havia lá um quartel onde se formavam especialistas da Arma de Transmissões, era o Batalhão de Reconhecimento das Transmissões (BRT).
Cheguei ali no dia seis de Novembro de 1966, um domingo, depois de uma viagem de comboio, que demorou mais de sete horas, com partida da estação de Campanhã, no Porto, por volta das onze da noite do dia cinco, sábado, e chegada à Santa Apolónia, em Lisboa, às sete da manhã de domingo. Nós, os que íamos do Regimento de Transmissões do Porto para o BRT da Trafaria, éramos uns trinta e poucos. Esperavam-nos, junto à estação de Santa Apolónia, duas Berliet Tramagal, para as quais subimos, e que arrancaram de seguida, passando pela Ponte Salazar, que tinha sido inaugurada havia apenas três meses, seis de Agosto, e ainda cheirava fortemente a tinta de estar pintada de fresco.
Devo confessar que foi uma sensação simultaneamente estranha e agradável, até com algum medo de permeio. As Berliet eram extremamente altas, e o tabuleiro da ponte ficava demasiadamente distante do lençol de água que lhe passava por baixo. Nós, em cima da carroçaria, sentados naquele banco que se situava ao centro, de costas uns para os outros e a olhar para o lado de fora, para a água que ficava lá no fundo, a mais de setenta metros de altura, todos sentimos algum arrepio ao ouvir os pneus das viaturas a produzir aquele ruído que faz lembrar uma grande quantidade de enxames de abelhas a zunir ao mesmo tempo. Assim é o ruído que os pneus das viaturas fazem ao deslizar sobre a malha de chapa que forma uma parte do piso do tabuleiro da ponte.
O desenvolvimento deste ponto da história será assunto para um outro artigo, por agora ficar-me-ei apenas pelas razões que me levaram a trocar os sons do homem que ressonava por uma ida à Trafaria, à outra banda, como dizem os lisboetas, para dar um passeio e almoçar. Fui dar uma vista de olhos ao antigo quartel, que foi minha residência durante aqueles dois meses, entre Novembro de 1966 e Janeiro de 1967.
Confesso que foi com enorme tristeza que verifiquei que tudo está em degradação. À entrada pode constatar-se que ainda é propriedade do Estado, uma vez que tem lá uma placa que diz “Ministério da Defesa Nacional”. Tudo fechado a cadeados. Vê-se, no interior, um elemento do sexo masculino envergando a farda de uma empresa privada de segurança. Mais nada que deixe perceber que aquelas instalações alguma vez terão sido um centro de formação de especialistas dos serviços secretos do exército português.
Almocei num restaurante que já conhecia desde o ano de 1966, comi sardinhas assadas e bebi meia garrafa de vinho de uma vinícola de Palmela, fica ali perto e o preço era em conta. Terminado o almoço dirigi-me à gare marítima a fim de tomar o barco que me traria de regresso a Belém.
Enquanto esperei pelo próximo barco, cuja cadência aquela hora do dia era de hora em hora, debrucei-me sobre uma das janelas da gare e comecei a passar a vista, varrendo tudo num ângulo de cento e oitenta graus. Comecei pela parte mais à direita, isto é, a montante do rio. Vê-se a ponte, imponente, penso que o melhor sítio para se ter uma vista geral da mais antiga ponte sobre o Tejo, é exactamente a gare marítima da Trafaria. Depois a Praça das Indústrias e o Museu da Electricidade, este, todo em tijolos cor de telha e em muito bom estado de conservação, foi aqui que outrora funcionou a primeira central termoeléctrica de Lisboa. Continuando a rodar para a esquerda, pode ver-se o Palácio Nacional de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o Centro Cultural de Belém, O Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.
Olhando um pouco por cima e mais para trás, vê-se o Palácio da Ajuda. Depois, um pouco para a esquerda, Algés e Dafundo e a Mata do Jamor com os holofotes do Estádio Nacional. Continuando a rodar a cabeça avista-se Paço d’Arcos, Estoril e Cascais.
Façam este passeio. Desloquem-se de Belém à Trafaria de barco. Almocem lá sardinhas assadas e bebam vinho de Palmela. No fim façam a viagem de regresso pelo mesmo meio. Verão que vale a pena e que é bem melhor do que estar ao lado de um sujeito que ressona e atrás de um outro que diz o que lhe apetece pelo telemóvel!

Por: José Costa Oliveira

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