Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2008

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (87)

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CHARLES AZNAVOUR

A Arménia é um pequeno país que fica situado na Ásia. Tem fronteiras com a Turquia, a Geórgia, o Azerbeijão e o Irão. A sua capital é a cidade de Erevan. Até 23 de Agosto de 1990 integrou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que viria a reconhecer a sua independência em 21 de Setembro de 1991. Tem vinte e nove mil quilómetros quadrados de área e uma população de pouco mais de três milhões de habitantes (3.215.800). Tanto em área como em população representa cerca de um terço daquilo que é Portugal.
Eu não sabia que Charles Aznavour era arménio. Também não sabia que os pais de Alain Prost, o piloto francês, e quatro vezes campeão do mundo, de Formula 1, eram igualmente de origem arménia. Há, porém, um outro cidadão cuja memória é muito importante para todos nós, que também era arménio. Não faço ideia se muitos se lembrarão dele, ou se, pelo menos, o associarão a uma importantíssima organização de carácter social e humanitário. Estou a referir-me à Fundação Calouste Gulbenkian.
Pois é. Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu em Üsküdar, na Arménia, a 23 de Março de 1869 e morreu em Lisboa a 20 de Julho de 1955. Foi engenheiro e empresário no seu país, tendo obtido mais tarde a naturalidade britânica. Conseguiu uma enorme fortuna com o negócio do petróleo. Depois de ter intermediado negociações entre as quatro maiores companhias produtoras do mundo, foi-lhe atribuída uma quota de cinco por cento de toda a produção. Devido a esse facto ficou conhecido como o Senhor “Cinco Por Cento”. A riqueza que acumulou permitiu-lhe satisfazer a sua grande paixão pelas obras de arte.
Tal como soube reunir uma enorme fortuna ao longo da vida, Calouste Gulbenkian soube também distribui-la em testamento com generosidade. Deixou verbas para especial protecção das comunidades arménias, que à data não tinham asseguradas as necessidades básicas pelas organizações internacionais.
Em Abril de 1942, entra em Portugal pela primeira vez, convidado pelo embaixador do nosso país em França. Em princípio, Lisboa seria apenas uma escala na viagem que o levaria a Nova Iorque. Porém, o empresário adoeceu e acabou por ficar mais tempo do que havia inicialmente planeado. Agradado com a paz que se vivia em Portugal e sentindo-se bem acolhido em Lisboa, estabelece residência permanente na nossa capital, no hotel Aviz, e acaba por aqui ficar, definitivamente, até à sua morte em 1955.
Através do seu testamento, datado de 18 de Junho de 1953, cria a fundação com o seu nome e que fica herdeira do remanescente da sua fortuna. Esta fundação tem fins caritativos, artísticos, educativos e científicos e é escolhido Portugal para a sua sede. Deste modo agradece, postumamente, o acolhimento que teve num momento crítico da história da Europa e morre com a convicção de que em Portugal haveria o mais profundo respeito pelo escrupuloso cumprimento da sua vontade. Assim nasceu a Fundação Calouste Gulbenkian, um verdadeiro exemplo do que deve ser uma Fundação, e que muitos de nós conhece nos dias de hoje.
Voltando a Charles Aznavour, o seu verdadeiro nome, em arménio, é Shahnour Vaghinagh Aznavourian. Não obstante afirmar-se como cidadão arménio, Charles Aznavour nasceu em Paris a 22 de Maio de 1924. Tem, portanto, oitenta e quatro anos de idade e está neste momento a realizar uma tournée mundial, tendo actuado no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, no passado dia 23 de Fevereiro. Confesso, muito sinceramente, que tenho imensa pena de não ter podido assistir.
Assisti, isso sim, à entrevista que ele concedeu à jornalista da RTP1, Judite de Sousa, gravada em Paris e transmitida no programa “Grande Entrevista”, na noite do dia sete de Fevereiro do ano que corre de 2008.
É um homem de estatura baixa, extremamente simpático, bem disposto e divertido. Registei algumas das suas afirmações, tais como: «eu sou um disciplinado». Pudera, digo eu, com aquela idade e com aquele aspecto físico e intelectual é, sem qualquer dúvida, um disciplinado.
Outra: «deixei de fumar há trinta e cinco anos». Muito bom, mas nem por isso. Já tinha quase cinquenta quando largou o vício.
Mas, da parte da entrevista que eu gostei mais foi da que se relacionou com os seus casamentos. Ele disse que estava casado com a actual mulher há quarenta e três anos, mas que tinha casado três vezes. Da primeira vez que era muito novo e, daí, o casamento ter durado pouco tempo. Da segunda vez que era muito burro, também por esta razão o casamento não lograra sucesso. Da terceira vez que já não era muito novo, nem muito burro, e que, portanto, já tinha algum juízo. Então o casamento perdura, já lá vão mais de quatro decadas.
Conheço um “rapazinho”, bem próximo de mim, que não passou pelas três etapas do Charles, mas passou pelas duas últimas. Da primeira vez que casou não era muito novo, mas era, naturalmente, muito burro, e o seu casamento fracassou. Da segunda vez que casou, já tinha algum juízo, talvez menos que o Charles, mas este seu segundo casamento ainda perdura. Não se sabe, porém, se o mérito será seu se da mulher que, com enorme paciência, o vai aturando.
Charles Aznavour, na sua conversa com Judite de Sousa, falou também da palavra saudade. É voz corrente que esta palavra não tem tradução directa em qualquer dos grandes idiomas falados em todo o mundo. Por isso se diz que o seu significado exprime um sentimento muito peculiar dos portugueses. A saudade é de facto um sentimento muito especial. Mas, segundo Aznavour, no idioma arménio existe uma palavra que exprime exactamente esse mesmo sentimento, e eu tentei fixar a fonia dessa palavra, que ele pronunciou perante a entrevistadora. Eu percebi “gorat”. Em arménio saudade pronuncia-se “gorat”.
Parabéns, Monsieur Charles Aznavour. Tem aqui um fã.



Por: José Costa Oliveira

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