Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

Manuel Joaquim Pinto, 94 anos

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Um romance à moda antiga

(Continuação)

- Um dia vim de Guimarães a Margaride comprar umas cavaquitas para levar à minha mãe. Então o patrão, o senhor Joaquim do Pão-de-ló, esteve a contar-me que o genro tinha ido embora e perguntou-me se eu conhecia em Guimarães algum rapaz competente para a gerência da sua casa.
E eu disse-lhe:
- Até tenho lá um muito bom, o problema é que é muito novo. Chama-se Herculano José Fernandes – não sei se ainda tem um armazém que ficava ao pé da Estação da CP - É um bom servente e trabalha bem em tudo! Moço fino! Só que é muito novo só tem dezasseis anos, muito bom empregado, ajuizado, mas demasiado novo.
- Ah, realmente é muito novo! Novo demais!
Eu já vinha a sair e digo-lhe eu assim:
- Só se o senhor quiser que venha para aqui eu.
E diz ele:
- O senhor era “ouro sobre azul” mas o senhor Pinto não vem!
-Venho, venho se o senhor me der as mesmas condições que eu tenho em Guimarães.
E quais são as condições? - pergunta-me ele.
- Um conto e quinhentos de ordenado e dez por cento nos lucros da loja. Mas como aqui vou fazer muito menos negócio que em Guimarães tem de me dar trinta por cento dos lucros para mim!
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- Ai, eu não ganhava para lhe pagar - responde-me ele! Ganha-se muito pouco, mas venha daí comigo. E fomos ao escritório que ficava atrás do estabelecimento onde me mostrou o livro das vendas do último ano com o anterior gerente.
E o lucro era grande? – quis eu saber, cada vez mais admirada pela vida atribulada mas cheia de coisas belas do senhor Pinto.
- Cento e oitenta contos num ano! Quinze contos por mês! E isso foi no mês de Junho. Então eu disse-lhe:
- Eu venho para aqui no princípio de Julho e até ao fim do ano não me dá comissão nenhuma e depois no fim do ano, conforme as vendas que eu fizer, o senhor vê se me pode dar ou não a percentagem que lhe peço. Se não puder dar vou-me embora.
Então fui falar com o senhor Pimenta Machado que andava no jardim a passear, e que quando me viu me perguntou:
- O que fazes por aqui?
- Eu venho numa missão muito aborrecida mas, teve que ser!
- Então o que há? - perguntou-me?
-Venho-me despedir.
- Despedir? – disse ele admirado e incrédulo - Despedir? Então você quer ir embora da minha casa? Que motivos tem?
- Não tenho nenhuns! Apareceu-me um lugar de gerente, em Felgueiras, na fábrica onde eu aprendi a trabalhar quando saí da escola. É a minha terra e tenho lá a minha família, por isso eu gostava de ir para lá!
- Mas isso é verdade?
- É sim senhor!
- Então se é verdade vá – mas, se não lhe correr como espera, tem outra vez emprego na minha casa!
À medida que descrevia, sem interrupção, revelando uma memória extraordinária, o seu percurso como homem de trabalho, a minha impaciência relativamente à sua “prometida” levou-me a interrompê-lo para saber se a sua “Néné” tinha conhecimento de cada vez que mudava de emprego e por conseguinte ía mudando de terra em terra?
- Ela tinha conhecimento, indirectamente – respondeu laconicamente. E de imediato retomou o seu raciocínio:
- Bem, o que é certo é que comecei a trabalhar em Julho e cheguei ao fim do ano com quatrocentos contos vendidos! O outro tinha vendido cento e oitenta no ano todo! E tal como havia sido combinado comecei a receber a percentagem pedida.
Ganhava então razoavelmente bem e não gastava um tostão em nada! E assim fui poupando até juntar cinquenta contos! Naquele tempo era muito dinheiro! E um dia pus-me a pensar:
- “Cinquenta contos, com o ordenado e a percentagem até passa dos dois contos e quinhentos. Já posso casar! Estava naquela altura um padre em Cabeceiras que era de Pico de Regalados.
O Padre Mota Vieira? – interrompi.
- O nome não me lembra, sei que era o Arcipreste e ele conversava muitas vezes comigo quando eu lá estava e eu pensei logo em ir falar com ele, para servir de intermediário junto do Padre Arnaldo de Paredes. Fui a Cabeceiras e disse-lhe:
- Senhor Arcipreste venho pedir-lhe um favor grande e não queria que me dissesse que não.
- Diga-me o que é – a ver se é coisa que eu possa…
- Era a ver se podia ir á casa do senhor Padre Arnaldo e pedir a mão da sua sobrinha em casamento para mim.
Ele sabia da história toda e diz: Oh Pinto, eu quando falar nisso ao Padre Arnaldo ele corre-me.
- Olhe, nós casar sempre casamos, porque somos de maior de idade mas eu terei muito desgosto se casar contra a vontade da família dela. Faça-me o favor de ir lá e dizer que eu estou em Margaride, gerente de uma casa, tenho nove empregados a trabalhar debaixo das minhas ordens, que ganho dois contos e quinhentos por mês e já tenho cinquenta contos juntos!
Ele como viu que a notícia não era má disse:
-”Eu vou lá!”
E foi! Quando lá chegou o Padre Arnaldo perguntou-lhe:
- Oh Arcipreste, o que faz por aqui?
- Venho aqui numa missão muito espinhosa mas, não pude dizer que não!
- Então o que é que se passa?
- Eu venho aqui a pedido do Pinto do Abílio (que era como me conheciam), pedir a mão da sua sobrinha em casamento.
E antes que ele respondesse que não foi-lhe dizendo que quer eles quisessem ou não eles casavam porque eram maiores de idade! Mas que têm muito desgosto se casarem contra a vontade da família dela! - rematou.
E qual foi a reacção do Padre Arnaldo perante a sua determinação? – interrompi ansiosa.
Quando lhe começou a enumerar as condições que eu tinha, quanto ganhava e quanto dinheiro tinha junto, diz o Padre:
- Não me diga nada, que eu sei a vida dele toda.
Claro que o padre não tinha acreditado que nós nos tínhamos zangado e, como tinha um primo em Guimarães que se chamava José Maria Machado Vaz – já morreu há muitos anos - pediu-lhe para me espiar e informá-lo da vida que eu fazia. Mas o primo foi muito correcto e só lhe levou boas referências: “É um rapaz trabalhador, não é borguista, não se vê na rua de noite e é raríssimo entrar num café”.
Na verdade eu fazia de tudo para não gastar! De maneira que no fim dizia ele:
- Diga-lhe que agora concordo. Só não concordei enquanto eu sabia que não podia mantê-la no nível a que estava habituada.
E que idade tinha nessa altura? – atalhei.
- Tinha vinte e tais anos, a caminhar para os trinta!
O certo é que o Padre Arnaldo comunicou ao Arcipreste Mota Vieira:
- Ele que venha cá hoje jantar para conversarmos.
Eu fui mas não fui jantar. Jantei numa pensão antes de ir. Cheguei lá, toquei a campainha, entrei, cumprimentei-os e diz ele para a D. Belmira:
- Belmira, serve o jantar que já aqui está o senhor Pinto. Então disse-lhe:
- Oh senhor Padre Arnaldo (eu nunca tinha falado com ele, era a primeira vez) desculpe mas já jantei.
Diz-me ele:
- Como? Então faz-me uma desfeita destas? Logo no primeiro dia?
- Faça-me o favor de não ver nisto uma desfeita. O senhor deve ser o primeiro a reconhecer que hoje a comida não me passava aqui - disse-lhe apontando com um gesto para a garganta. Portanto façam o favor de jantar que eu espero o que for preciso. Depois do jantar ficamos só os dois e diz-me ele:
- Então já sei que me quer “roubar” a sobrinha!
- Não quero não senhor! Eu, se a quisesse “roubar” já a tinha roubado há muito tempo! Mas, nunca a desejei para loucuras. Desejava-a e desejo-a para minha esposa e, por isso, guardei-lhe sempre muito respeito!
- Desculpe, que eu não queria ofendê-lo!
- Também não me sinto ofendido. Só quero que o senhor saiba que o que me inclinou para ela não foi o interesse financeiro mas um amor muito forte e muito puro!
- Pronto - respondeu-me o Padre Arnaldo - está tudo dito! Vejam lá quando é a melhor altura para celebrar o casamento. Eu sei que você está cá todos os fins-de-semana. Daqui para o futuro a sua pensão é aqui para comer e dormir.
- Aceito com muito gosto! Muito obrigado.
E era verdade. Naquele tempo havia uma camioneta que fazia carreira de Guimarães a Cabeceiras de Basto e de Cabeceiras para Guimarães. Agora há muito tempo que não há, mas naquele tempo havia. Eu ia no sábado á noite de camioneta para Cabeceiras, jantava e dormia numa pensão ao pé do Jardim, junta à Igreja do Mosteiro.
Não era a Pensão do Dominguinhos e da Hermininha? Ou a Pensão do Fundo, do Arnaldinho das Pereiras?
- Era na que ficava mais perto da estátua do “Basto”. Eu ia no sábado, jantava e dormia lá. Passava lá o Domingo, comia na pensão e na segunda-feira ia para Guimarães. Só para a ver passar para a igreja porque havia sempre uma “rezinha” na parte de tarde. Ia a tia, ela (Raquel) e a Mirinha. Eu já ficava todo contente e ela também só de nos vermos um ao outro. Não podíamos falar porque a tia estava sempre presente. E depois de a “ter pedido” comecei a ir lá, comia e dormia e à terceira vez que lá fui depois de a “ter pedido” estava eu e ela mais a tia a conversar na varanda que a casa tem à volta e a certa altura disse à tia dela:
- Ó senhora D. Belmira queria fazer-lhe um pedido mas, não queria que me dissesse que não e que não ficasse aborrecida comigo.
- Diga o que quer a ver se é coisa que eu possa.
- Queria que me autorizasse a dar o primeiro beijo na minha noiva.
Que diferença dos tempos de hoje, não, senhor Pinto? Que lhe respondeu a tia a semelhante pedido?
Ela muito surpreendida apenas teve tempo para perguntar: - Como?
Eu não sei se era por ela ser fidalga e rica e eu não, que nunca tive a tentação de lhe tocar.
Ela recuperou da surpresa e acrescentou:
- Sim senhor! Vocês são noivos, são quase como marido e mulher.
E foi então que a beijei pela primeira vez, mesmo ali diante da tia.
Marcou-se o dia do casamento e fomos casar à Penha, a Guimarães, numa capela que lá há debaixo dos penedos. Foi nessa capelinha que nós casamos e foi o tio dela, o Padre Arnaldo, que nos casou. Correu tudo muito bem. Demo-nos sempre muito bem. Casamo-nos quando eu já tinha trinta e um anos e ela tinha trinta. Era mais nova do que eu um ano. Estivemos casados quarenta anos! Depois ela morreu.
Uma nuvem de tristeza ensombra-lhe o rosto e fica a olhar o infinito como que a “ver” a sua Néné. Quisemos então saber como aconteceu a sua partida. Recompõe-se e continua:
- Dois ou três anos antes dela morrer foi vista por um médico, se me não esquece um tal Dr. Rocha, que a viu para ai uma dúzia de vezes e não descobriu a doença que ela tinha, e depois quem lhe descobriu a doença foi um do Porto ou de Vila Nova de Gaia que vinha aqui a uma freguesia aqui perto:
- Isto é pedra na vesícula. Tem que fazer umas análises imediatamente a ver se o fígado está bom. Se não estiver bom já não pode ser operada.
- Eu avancei com ela para a Ordem da Trindade para lhe fazerem os exames e realmente confirmou-se tudo o que o médico tinha dito. Infelizmente o médico disse-me que já não ia a tempo porque a doença já tinha passado a cancro e disse-me que se tentássemos operá-la ela morria na mesa das operações e assim ainda viveria algum tempo, aguentaria dois a três meses, mas a quatro não chegaria. De verdade nem a três chegou. Ainda faltavam uns oito dias.
Para ai uma hora ou pouco mais antes de morrer ela, talvez a pensar nos filhos, disse-me assim:
- Eu vou morrer! Se eu morrer voltas a casar?
- Não! - disse-lhe eu. Quando chegar a hora de partires vai descansada que eu não volto a casar! E prometo-te mais! Depois da tua morte vou guardar-te tanto respeito como te guardei durante quarenta anos!
Isso é que era amor! Como conseguiu ser fiel à palavra dada?
- Durante os quarenta anos de casado, minha senhora mas, isto é debaixo de palavra de honra, não houve troca nem mistura de mulheres. Foi só ela! E quando ela morreu, para mim acabou tudo!
Quantos filhos tiveram?
Tenho seis.
Senhor Pinto esta casa é sua? Comprou-a depois de casado?
Não, a casa não é minha. Só é meu o que está cá dentro. Só a parte comercial é que é minha. A casa é arrendada. Arrendei-a quando saí da casa do pão-de-ló e vim para aqui para me estabelecer e a clientela veio toda atrás de mim. Eles em Margaride acabaram por fechar a loja deles. Isto começou a correr muito bem, bem mesmo. Fazia muito negócio e eu abri com a fazenda que me foi confiada, porque eu não tinha dinheiro e quando comprei a parte da quinta aos meus irmãos, fui ter com um senhor que tinha conta num banco, em Guimarães e perguntei-lhe:
- Você não é capaz de me fazer um favor?
Diz ele:
- O que é?
- Se pudesse ser meu fiador no banco em Guimarães, eu precisava de levantar um dinheiro para comprar a parte da quinta aos meus irmãos.
- Vou sim senhor! – respondeu sem hesitar.
Foi e eu pude levantar quatrocentos contos para comprar a parte dos meus irmãos.
Era uma fortuna, não era senhor Pinto?
- Naquele tempo era muito dinheiro! Era sim senhor! De maneira que comecei a pagar pouco a pouco. Deixei logo ali as letrinhas todas assinadas para pagar uma em cada mês. Quando me estabeleci por conta própria ainda devia duzentos contos. Eu fui aos armazenistas a Guimarães, Braga e ao Porto onde eu costumava comprar e disse:
- Ó meus amigos, eu resolvi estabelecer-me mas não tenho dinheiro! Vocês estão dispostos a ajudar-me?
Não tive um único que me dissesse que não. Responderam prontamente que sim!
Bem, comecei a comprar e fiaram-me naquele tempo, entre todos, trezentos e setenta e tal contos de maneira que com os duzentos que eu ainda devia fiquei a dever mais de quinhentos!
Eu tinha aqui um tio que me disse:
- Ó Manuel, tu estás desgraçado!
- Por quê? - perguntei-lhe eu.
- Tu nunca mais podes pagar esta dívida! Quinhentos e tal contos! Tu nunca mais pagas!
E eu dizia:
- Ó tio tenho esperança que hei-de pagar a toda a gente.
E graças a Deus paguei! Ao fim de sete anos, cheguei a trinta e um de Dezembro e não devia nada a ninguém! Então fiz um balanço a sério, tudo contado a ver o valor que tinha cá dentro e tinha setecentos e tal contos de fazenda. Dividido por sete anos, ganhei mais de cem contos por ano, livre de todas as despesas e então daí em diante comecei a comprar e a pagar logo, para ter mais descontos.
Comecei a aproveitar essas facilidades e felizmente hoje tenho uma situação boa!
Na nossa conversa ao telefone o senhor Pinto falou-me nuns versos que dedicou à sua esposa. Ainda se lembra deles?
(Conclui no próximo número)
fernanda52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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